
Mal-me-quer, bem-me-quer

Penny Jordan


      Resumo:

      Eles pareciam um casal perfeito... apaixonado,
      O arrogante conde italiano Marco di Vicenti faria qualquer coisa para garantir a custdia da pequena Angelina. Como uma das condies para isso era que tivesse
uma esposa, ele pediu em casamento a bab da menina, Alice Walsingham. Para Alice seria uma tortura encenar um relacionamento amoroso com Marco, pois estava realmente
apaixonada por ele... Sem contar que ele a julgava uma mulher experiente, acostumada a relaes proibidas!
      Na festa, toda a famlia e mais centenas de convidados esperavam ardentes demonstraes de paixo, o que Marco estava mais que disposto a conceder... em pblico.
Mas como seria quando se vissem a ss... na noite de npcias?

      Copyrght (c) 2002 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 2003 pela Silhouette Books
diviso da Harlequin Enterprises Limited.
      Ttulo original: Marco's Convenient Wife
      Traduo: Andrea Scall
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA
      Copyright para a lngua Portuguesa: 2003

     Digitalizado e revisado por: Alice Akeru.

      Prlogo

      Boa sorte em sua entrevista, querida! Sabe que tem tudo para conseguir o emprego, no ? Ningum poderia encontrar uma bab melhor do que voc...
      Alice tentou sorrir depois de abraar afetuosamente sua irm. Mesmo depois de um ms, era difcil no chorar quando se lembrava dos dois pequenos que fora
obrigada a deixar, ao sair de seu emprego anterior.
      S no sentia saudade do ex-patro, que nos ltimos meses havia transformado sua vida em um inferno, com seu constante assdio. Na verdade, Alice chegara a
sentir alvio quando a esposa dele a informara de que fora transferida para Nova York, e que teriam de se mudar. Ela insistira para que se mudasse com eles, mas
Alice sabia que no poderia aceitar. Era o preo que tinha de pagar por escolher um tipo de trabalho como aquele.
      Logo estaria a caminho de Florena para ser entrevistada por um novo patro, que estava precisando de uma bab para uma criana de seis meses, que perdera
a me.
      - E obrigada por aceitar levar Louise com voc - sua irm, Connie, estava dizendo. - Tenho certeza de que vai adorar Florena!
      Alice no podia deixar de achar que Louise, a enteada de sua irm, estava se mostrando infeliz e insegura apenas para fazer com que o pai se sentisse culpado
por haver se casado novamente. Nada do que ele e a irm faziam parecia agrad-la, incluindo a viagem de quatro dias a Florena, com a qual a haviam presenteado.
      O anncio de que o conde di Vicenti estava procurando uma bab que falasse tanto o italiano como o ingls voltou-lhe  mente. Falava da criana com tanta frieza
que Alice ficou consternada.
      Ser que o tal conde e estava ansioso apenas para se livrar da responsabilidade de cuidar daquele beb?
      Ela no podia saber. Mas tinha certeza de que, acima de suas duvidas estavam as necessidades do pequenino que, por uma infelicidade do destino, no tinha mais
sua me para am-lo



      CAPITULO I


      O calor era intenso em Florena.
      Louise recusara, mal-humorada, o convite para um passeio pela cidade, mas Alice no perderia a oportunidade. Adorava conhecer lugares novos, observar as construes
antigas, a expresso das pessoas, sua singularidade.
      O clima logo a fez lembrar-se de que Florena era famosa pela qualidade de seus sorvetes. Parou em uma pequena sorveteria  beira da calada, e pediu seu sabor
preferido. Percebendo que no era italiana, o rapaz que a atendeu dirigiu-lhe um pequeno galanteio ao devolver-lhe o troco. Corando, Alice se afastou rapidamente,
um pouco sem jeito. No gostava de ser pega de surpresa.
      Ia correndo atravessar a avenida, quando derrubou metade do sorvete em sua camiseta. O calor o fez derreter-se muito depressa e... bem, no importava. Acontecera
e pronto. Quando levantou os olhos, para de novo tentar atravessar a avenida, deparou-se com o motorista de um carro esporte vermelho, que olhava fixamente para
ela. Ele parecia simplesmente ter ficado parado quando o sinal abriu, e os outros motoristas buzinavam enfurecidos, j que ele lhes impedia a passagem. Mas ele no
reagia, e continuava com os olhos fixos em Alice. De repente, ela percebeu que os olhos dele estavam fixos em seus seios, que, com o contato do sorvete gelado ficaram
excitados, os mamilos salientes e visveis atravs do tecido molhado da camiseta.
      Alice corou novamente. Que homem inconveniente, pensou consigo mesma. Devia estar achando que ela era uma turista sem compromissos, pronta a aproveitar o dia
com um garoto qualquer. E que bastaria um olhar para que...
      Quando Alice resolveu encar-lo, disposta a lhe devolver o olhar mais azedo e desencorajador que possua, o restante de sorvete comeou a pingar continuamente
no cho. Mesmo sob o olhar insistente, Alice comeou a lamb-lo, disposta a evitar um vexame ainda maior.
      Rapidamente foi se afastando daquele local, a imagem dos olhos escuros e profundos do italiano impressa em sua mente. Aquele homem saberia como abal-la.
      Onde estaria a tal mulher?. Marco pensou consigo mesmo, olhando irritado do relgio para o hall de recepo do luxuoso hotel, onde hospedara a candidata.
      J fazia cinco minutos que estava andando de um lado para o outro, como um tigre dentro de uma jaula, ansioso. Precisava terminar tudo aquilo rpido, e voltar
para casa com algum que pudesse cuidar de Angelina com amor e carinho.
      O fato de a moa no ter nem mesmo a disciplina necessria para comparecer a um encontro no horrio marcado pesaria fortemente contra ela, apesar de ter sido
to bem recomendada pela agncia na qual ele confiava.
      Na verdade, no estava mesmo no melhor de seus humores naquela manh. Seu carro, que nunca lhe dera problemas, tivera uma pane eltrica que o obrigara a usar
a Ferrari vermelha de seu primo Aldo, que desde sua morte estivera guardada no palazzo.
      Ao contrrio da Mercedes, a Ferrari era um tipo de carro que chamava muita ateno, e na opinio de Marco, o tipo indesejvel de ateno.
      Lembrou-se da moa loura que lhe chamara tanto a ateno, mais cedo na cidade, quando fora encontrar um colega. Ela certamente aprovara o carro, mesmo que
tivesse lhe lanado um fulminante olhar de rejeio, do tipo "no ouse olhar para mim desse jeito", ele refletiu secamente.
      Marco rejeitaria sem pensar uma mulher que se aproximasse dele pela marca de seu carro. Aldo, ao contrrio, sempre fizera questo de exibir-se.
      Onde estaria a criatura? Honestamente, ele admitia que ficara irritado com o fato de ela haver se recusado a se hospedar naquele hotel, no qual ele lhe reservara
uma sute.
      Insistira em ficar, s suas prprias expensas, num hotel mal-localizado, em pleno centro de Florena. Provavelmente viera a turismo, e descobrira que o hotel
que ele lhe reservara ficava em uma regio sossegada demais. Ela cursava a universidade em Londres, e devia ser do tipo de garota que gostava de agitao.
      J sabia que era ele o diferente, o solteiro antiquado que se recusava a acreditar que uma pessoa pudesse encarar o sexo como um mero ato de satisfao fsica,
com o mesmo envolvimento com que comia uma barra de chocolate. Para ele isso no passava de promiscuidade. Mas aquele era seu ponto de vista e nada mais.
      Sentindo que sua irritao aumentava, Marco arrumou a gola de seu palet impecvel, para deleite da recepcionista do hotel. Ela no podia tirar os olhos dele.
Um homem alto, charmoso, com um olhar malicioso que faria qualquer mulher delirar em seus braos.
      Consciente do efeito que tinha sobre ela, Marco continuou com seu caminhar soberbo, sem lhe dar ateno. No gostava de ser feito de tolo e era esse o sentimento
que o dominava quando algum o deixava esperando. Sua expresso tornou-se ainda mais carregada quando se lembrou de Angelina, a menina para quem precisava urgentemente
contratar uma bab, e que devia estar acordada naquele momento, imaginando onde ele estaria. A perda traumtica da me havia feito com que ela se apegasse ao nico
adulto constante em sua vida, com o qual se sentia segura: ele mesmo
      Marco no tinha a menor confiana no tipo de cuidados que a moa, que fora contratada pela falecida me dispensava  menina.
      Angelina era agora o seu beb, totalmente dependente dele, sob todos os aspectos. Devia ser s prioridade de sua vida, pensamentos e aes.
      E ele estava determinado a encontrar para ela no apenas uma bab, mas a melhor bab. Uma pessoa que estivesse disposta a comprometer seu tempo, e um bom perodo
de seu futuro, exclusivamente com Angelina.
      Aquele no era um momento fcil. Marco se acostumara a estar sempre no controle das situaes, com autonomia para decidir o que achasse mais sensato. Era como
se agora estivesse na dependncia da pessoa que cuidaria de Angelina, j que no poderia estar presente vinte e quatro horas por dia.
      Seu instinto de proteo estava ainda mais aguado, sentia-se emocionalmente responsvel pela garotinha. S conseguiria deix-la sob os cuidados de algum
que fosse capaz de lhe dar o amor e a segurana que a me teria dado, uma moa terna e carinhosa,confivel e responsvel.
      Como era inglesa, a me de Angelina decidira contratar uma bab inglesa que tivesse tambm fluncia no idioma italiano, para que a menina pudesse crescer familiarizada
com as duas lnguas.
      A pessoa cujo currculo ele selecionara parecera mesmo boa demais para ser verdade. Possua exatamente o perfil e qualificaes que ele procurava... e agora
essa! Tinha vontade de ir embora, tamanha a incerteza que o corroia mesmo antes de conhec-la.
      A recepcionista continuava a observ-lo. Tinha uma expresso mal-humorada e continuava a andar com imponncia, com a determinao de um felino. Por todos os
poros parecia transpirar uma sensualidade magntica, masculina.
      Mas era o traado severo de sua boca, ou a frieza que mantinha em seu olhar, que fazia com que qualquer pessoa pensasse muito bem antes de ousar aproximar-se
dele sem ser convidada.
      Aos trinta e cinco anos, Marco trazia atrs de si uma dcada de responsabilidades por estar  frente da vasta e complicada rede de negcios de sua famlia.
      Seus pais haviam morrido em um acidente de avio, cujo piloto era um de seus tios mais novos. Marco, ou Semperius Marco Francisco Conte di Vicenti, seu nome
completo, estava na poca com vinte e cinco anos e se formara recentemente em arquitetura. Com a morte prematura do pai, tivera de assumir da noite para o dia toda
a carga da gesto dos negcios da famlia.
      Fora extremamente bem-sucedido por um lado, mas, por outro, havia perdido no caminho boa parte de sua espontaneidade, de seu amor pela vida, de sua capacidade
de sorrir, caractersticas que nunca haviam abandonado seu primo mais novo, Aldo.
      Algumas pessoas da famlia achavam que ele protegia demais o primo, permitindo inclusive que o rapaz tirasse vantagem de sua boa vontade. Mas, assim como ele,
Aldo tambm havia perdido o pai naquela tragdia, em uma idade ainda mais vulnervel, uma vez que mal acabara de completar dezesseis anos.
      A expresso de Marco se tornou mais severa ao lembrar-se de Aldo. Havia sido totalmente contrrio  unio dele com Patti, a bela modelo inglesa. O casamento
ocorrera poucas semanas aps haverem se conhecido, e no fora surpresa para Marco quando, com a mesma facilidade com que se apaixonaram, o amor se acabara e eles
no mais suportavam viver juntos.
      No havia mais como voltar atrs. Estavam casados e a pequena Angelina j havia sido concebida.
      E fora em seu papel de chefe da famlia que Marco convidara o casal para ir at o palazzo, para que conversassem com mais calma e talvez chegassem a um acordo
e ao compromisso de lutar por seu casamento.
      No entanto, depois de uma longa conversa, o casal se recolheu ao seu quarto. No meio da noite, depois de uma briga extremamente passional, Aldo resolveu, furioso,
levar Patti para fora da Villa.
      Ele provavelmente nunca saberia qual fora a causa daquele acidente fatal, que levara a vida de ambos e deixara um beb rfo. Marco refletiu sombriamente,
mas sabia o quanto se sentia culpado por haver promovido aquele encontro no palazzo naquela noite.
      Como era a pessoa mais prxima de Aldo, naturalmente assumira toda a responsabilidade pelo beb, e passadas algumas semanas, era claramente perceptvel a forte
ligao entre ele e a pequena Angelina.
      Com sua experincia como empresrio, queria evitar a perda de tempo que seria entrevistar vrias moas para escolher uma que pudesse cuidar de Angelina. Estudara
pacientemente o currculo de vrias candidatas, tentando certificar-se de que entrevistaria apenas aquelas que preenchessem rigorosamente todos os critrios que
ele exigira para a funo. Alice Walsingham, na verdade, parecia ser a nica que preenchia todos os requisitos, e aquilo o deixava ainda mais furioso. Estava j
uma hora atrasada!
      Tempo demais, Marco resolveu, desistindo.
      Se a srta. Walsingham no tinha responsabilidade suficiente para comparecer pontualmente a seus compromissos, como poderia assumir os cuidados de sua pequena
garotinha do modo como ele desejava?
      Irritado, colocou os culos escuros para sair do hotel, protegendo-se do sol forte. Um ator que quisesse estudar os movimentos de um mafioso para a gravao
de um filme teria ali um bom modelo. Marco parecia implacvel, mau e perigoso. Ningum poderia antecipar a doura que transparecia nele quando estava junto da criana
que tomara como sua.
      Mal tinha colocado a chave na ignio do carro esporte de Aldo, quando se lembrou de que no havia deixado nenhuma mensagem para a moa, para o caso de ela
resolver aparecer. Deixando a chave na ignio, saiu da Ferrari e voltou rapidamente ao hotel.


      - Oh, pelo amor de Deus, no vai parar de me atormentar? Voc no  minha me, no  nem minha parente. Apenas porque meu pai caiu na armadilha de sua irm,
voc no tem o direito de me dizer o que fazer.
      Alice tentou contar at dez para no reagir precipitadamente  hostilidade de Louise. A garota havia sado na noite anterior sem a sua companhia e voltara
de madrugada, com a ntida aparncia de quem andara bebendo. E no apenas um clice de vinho.
      Ela no imaginava por onde havia andado at que duas estudantes, preocupadas, a chamaram pelo interfone do hotel. As moas avisaram Alice que Louise sara
na noite anterior com um grupo de jovens que estava estudando na cidade, mas que passara boa parte do tempo com um rapaz que havia se aproximado do grupo e que parecia
ter um carter duvidoso e alguma ligao com drogas. Aparentemente, Louise havia combinado passar o dia com o tal rapaz, e elas temiam que pudesse correr algum risco.
      Para assegurar-se de que nada aconteceria, Alice insistira para que Louise a acompanhasse  entrevista. Forada a faz-lo, Louise comeara a trat-la com grosseria
e deliberadamente fizera com que se atrasassem para a entrevista.
      Mas finalmente haviam conseguido sair do hotel. Alice pagou o taxista, tentando ignorar o olhar que o homem lhes lanava.
      Duas beldades londrinas, ele pensava. Uma delas com um belo corpo mas um rosto que parecia feito de plstico, de tanta maquiagem, e que a fazia parecer bem
mais velha que seus dezessete anos. A outra, com a pele clara, suave, completamente livre de maquiagem, possua cabelos de um louro plido, natural, que caam de
um modo rebelde sobre seus ombros. Ao contrrio da outra, aparentava muito menos que seus vinte e seis anos.
      Alice escolhera uma blusa de tecido leve e uma saia estampada para sair ao sol de Florena, que tambm contribuam para que parecesse uma adolescente, enquanto
o jeans apertado e o top que ficava bem acima da cintura de Louise pareciam ter sido deliberadamente escolhidos para atrair a ateno de todos os italianos de sangue
quente.
      Alice estava bastante nervosa com o comportamento da garota, que fazia questo de no ouvi-la quando pedia que se apressassem para chegar logo ao hotel onde
a reunio fora marcada.
      Gostaria muito de ter tempo para apreciar a parte externa daquele hotel em particular. Segundo o que lera no guia turstico, aquele fora o palcio de um prncipe
na poca da Renascena e havia sido transformado em hotel por um jovem arquiteto, com tal sensibilidade e habilidade que a restaurao pouco alterara seu traado
original. Estar dentro dele seria um privilgio.
      Sem poder resistir  vista da belssima obra, Alice s percebeu que a ateno de Louise havia sido despertada para outra coisa quando ouviu seus gritinhos
excitados.
      - Oh, olhe s para esse carro! O que eu no daria para poder dirigir um desses!
      Virando-se, Alice avistou um carro esporte vermelho estacionado, com a porta aberta, muito parecido com o que vira de manh. Ou seria o mesmo?
      No segundo seguinte lembrou-se do olhar profundo, perigoso e ao mesmo tempo to msculo do homem que vira pela manh. No pde acreditar quando percebeu que
Louise se dirigia para a porta aberta do motorista.
      - Louise... - chamou ansiosa. - Venha c!
      Mas j era tarde. Ignorando Alice totalmente, a garota escorregou para dentro do carro, exclamando com ares de triunfo:
      - No acredito, a chave est na ignio! Oh, eu sempre quis dirigir um carro como este...
      - Louise, no! - Alice protestou, chocada ao perceber que a menina daria mesmo partida no carro. - Voc no pode fazer isso!
      - Quem disse que no? - Louise provocou.
      Sua irm a tinha prevenido de que Louise era impossvel, mas aquilo ultrapassava todos os limites!
      Sem pensar, Alice deu a volta e entrou pela porta do passageiro, sem saber de verdade o que faria. Queria tirar Louise dali de qualquer maneira. Mas antes
que pudesse fazer qualquer coisa, foi lanada com toda a fora para trs. Louise colocara o carro em movimento e arrancara, cantando os pneus.
      Alice implorava a Louise que parasse o carro, mas tudo o que dizia parecia apenas estimular a jovem. O carro estava semidescontrolado. Louise acabara de tira
sua carteira de motorista e no tinha a menor experincia, ainda mais com um carro daqueles.
      O trnsito na avenida estava intenso naquele horrio. De um dos lados havia a mureta que separava a via pblica  do rio, do outro o movimento constante dos
carros no contrafluxo. No havia para onde desviar.
      Pouco adiante havia um cruzamento, e Alice percebeu que o sinal j mudava para o vermelho. Para seu desespero, Louise acelerou, julgando erroneamente que teria
tempo para ultrapass-lo. Prendendo a respirao e tensionando o corpo, Alice previu a batida, que seria inevitvel.



      CAPTULO II


      Foi como se uma onda de torpor envolvesse Alice.
      O homem a sua frente, o dono do carro, no estava dizendo nada que ela j no pensasse por si mesma. Louise, que era quem deveria escut-lo, estava plida
e emudecida.
      Podia ver ambos os carros. No dele, a batida fora na porta do passageiro, havia vidros por todos os lados. O carro em que bateram havia perdido o pra-choque
e estava bem amassado na frente, mas por sorte o motorista no sofrera nem um arranho e estava at tentando acalmar Louise, que agora tremia descontroladamente
e dizia a quem quisesse ouvir que era Alice quem estava dirigindo, e que ela no tivera culpa alguma.
      Alice chegou a abrir a boca para dizer a verdade e defender-se, mas fechou-a novamente. Como poderia? Louise tinha apenas dezessete anos, acabara de tirar
sua carteira de motorista. Na noite anterior andara bebendo e provavelmente ainda tinha um perigoso nvel de lcool em seu sangue... e estava sob a responsabilidade
de Alice.
      Alice prometera  irm que tomaria conta dela. Sem saber o que fazer, olhou diretamente nos olhos do homem que falava com ela, em um apelo mudo. J conhecia
aquela expresso, gravada em sua mente naquela mesma manh.
      Marco sentiu-se congelar ante o olhar que Alice lhe dirigia. Transparecia ali uma sinceridade que o abalava. Seu rosto estava plido, mas no se diferenciava
muito de seu corpo bem-feito, com aquela pele to branca. E ele conhecia a sensualidade daqueles seios fartos, que, ao contrrio de agora, estavam antes cobertos
apenas por uma fina camiseta decotada.
      Marco ficou desconcertado ante a inesperada fora com que seu corpo reagiu  lembrana e a ela. Imediatamente, esforou-se por acalmar o fluxo de seus pensamentos
e concentrar-se em aguardar o que sabia que ela lhe diria em seguida.
      J havia visto muitas mulheres usando a prpria beleza para conseguir o que queriam. Milhares de vezes. E no havia dvida de que aquela bela mulher comearia
lhe dizendo o que ele j descobrira por si mesmo, que no fora ela quem estava dirigindo o carro, que sentia muito e que ele haveria de desculp-la e que...
      Cinicamente, esperou que ela comeasse a culpar a amiga, jurando inocncia. Era bvio que a outra, mais jovem, extremamente assustada, maquiada e vestida daquele
jeito to vulgar fora a motorista que batera seu carro.
      Sem entender exatamente por qu, vieram-lhe  mente as razes por que se opusera tanto ao casamento de Aldo com a modelo inglesa. A unio entre pessoas de
culturas diferentes representava sempre um risco muito grande, os costumes, as crenas, tudo era muito diferente. A idia do que era uma famlia, da dedicao que
ambas as partes deveriam ter... A disposio para assumir um verdadeiro compromisso e a maturidade para fazer com que ele se mantivesse. Aqueles eram elementos que
haviam se incorporado a sua personalidade desde muito jovem, e que dificilmente seriam compartilhados por algum que viesse de uma outra cultura.
      Talvez fosse algo mesmo impossvel. Mas para Marco representava a nica maneira de duas pessoas estarem realmente juntas. Nunca fora sexualmente promscuo.
Era muito cioso para permitir que um mero apetite fsico o controlasse, e por isso mesmo lhe parecia to estranha a intensidade do desejo que aquela moa despertava
nele.
      - Achava que podia fugir com meu carro? - ele perguntou sem meias palavras, subitamente impaciente para que aquela coisa toda terminasse, e elas fossem se
entender com a polcia.
      Para sua surpresa, ela no negou a culpa e disse em uma voz doce e trmula:
      - Sim... Receio que sim...
      Quando ouviu-se confessar que era culpada por algo que jamais faria, Alice sentiu seu corao apertar-se. Estava em pnico.
      Pnico por toda a situao que teria de enfrentar, disse a si mesma, e no por estar diante daquele homem, que com uma expresso impenetrvel fixava seu olhar
sobre ela.
      Cus, ele era maravilhoso! O homem mais bonito e charmoso que j havia visto.
      - Sim?!
      A fria na voz dele era evidente, mas ele parecia querer ter certeza do que ela havia dito.
      - Sim, foi voc? - ele repetiu ainda mais uma vez.
      Era quase como se esperasse que ela negasse o que havia dito, Alice pensou confusa. Mas por qu? Alm de ladra, sugeria que era mentirosa? Bem, ela no lhe
daria esse prazer.
      Procurando afastar o medo, disse em um tom firme:
      - Sim, roubei o seu carro para isso, no?
      Nesse momento ouviu Louise dar um gritinho, ansiosa, e se voltou para ela. As lgrimas da jovem haviam borrado sua maquiagem, trazendo de volta a aparncia
de uma garotinha desajeitada. Alice podia ver o medo nos olhos dela. Devia ter levado um susto enorme quando bateram. Alice precisava proteg-la e obrigou-se a lidar
com seu prprio medo e com a hostilidade que sentia contra o homem a sua frente.
      - Eu lhe peo mil desculpas pelo que aconteceu. Vou fazer o possvel para ressarci-lo pelos danos, mas... minha... amiga est em estado de choque. Temos de
voltar para a Inglaterra hoje e ainda precisamos pegar nossa bagagem no hotel, portanto se pudermos comear a solucionar esse problema... Vou lhe dar todas as minhas
referncias. Meu nome  Alice Walsingham e...
      Ela interrompeu o que dizia ao perceber a expresso chocada do homem.
      - Seu nome  o qu?! - ele perguntou incrdulo.
      - Alice... Alice Walsingham - ela repetiu, a voz trmula por um desconfortvel pressentimento.
      Marco no podia acreditar em seus prprios ouvidos. Ento aquela era a mulher que ele esperara por tanto tempo! Aquela moa mida e esbelta, de seios provocantes,
cabelos louros clarssimos, um rosto lindo... e certamente responsvel pelo efeito mais perigoso e devastador que ele j sentira sobre seus prprios hormnios.
      Aquilo tinha de ter acontecido justamente com ele, e com aquela mulher, dentre todas no mundo? A mulher que lhe despertara tanto interesse na rua que era impossvel
negar o prazer que havia sentido ao rev-la. Que fora cmplice do roubo de seu carro e que provavelmente no se importava nem um pouco com os outros, j que ajudara
a provocar um acidente. Uma mulher que tinha assumido a responsabilidade pelo roubo para proteger a verdadeira ladra, que Marco agora percebia que no passava de
uma adolescente.
      Contrariando seu instinto de autoproteo, comeou a se lembrar do nmero de vezes que seu primo Aldo, eterno adolescente, se metera em confuses e que ele,
o mais velho, fora obrigado a lidar com elas.
      Lembrou-se tambm do desconforto visvel no rosto de Alice quando ouvira o galanteio do vendedor de sorvetes e da aparncia chocada com que ficara logo aps
o acidente. E do efeito que o mero fato de estar ali exercia sobre ele!
      O que mais tinha lhe chamado a ateno, quando vira as cartas de referncia e as indicaes da agncia sobre Alice, fora a descrio da maneira carinhosa e
do apego emocional que ela demonstrava pelas crianas das quais cuidava. Era aquele o grau de envolvimento que ele queria da pessoa que cuidasse de Angelina.
      Esperava que fosse uma mulher sensvel, com um profundo instinto de proteo. Mas o que ele no esperava, e o que certamente no queria, era que tivesse aquela
aura inesperada de sensualidade que tanto mexia com ele! Era uma sensualidade to natural que era como se ela prpria no a notasse. Muito mais perigosa do que aquela
intencionalmente provocada, Marco reconheceu.
      Com um jeito seco, ele se voltou para Louise.
      - E voc? No diz nada?
      - Louise est sob minha responsabilidade - Alice respondeu pela garota com uma autoridade e firmeza que estava longe de sentir.
      Batera a cabea no acidente e estava um tanto atordoada pela dor, mas sabia que tinha de superar o desconforto para proteger a menina.
      - Ela  muito jovem, e como pode ver, no est nada bem. Os pais dela esto esperando que volte no vo desta tarde e...  minha responsabilidade coloc-la
nesse avio.
      - Sua responsabilidade - Marco enfatizou.- Onde estava essa virtude admirvel quando roubou meu carro, arriscando no apenas a vida de vocs duas como a de
todas as pessoas em volta? Voc tem alguma idia do que uma batida de carro pode provocar? Quanta dor, quanta destruio?
      Marco ainda tinha dificuldade para se livrar das imagens do acidente de Aldo e sua esposa, que fora obrigado a testemunhar. Imagens que ainda o perseguiam
em seus pesadelos.
      Sem conseguir entender o porqu daquele sermo to inflamado Alice sentiu o rosto queimar.
      - Eu... no pude me conter - tentou dizer aflita. - Sempre adorei...
      Alice queria dizer a marca do carro, mas no lembrava qual era. Tentou ver com o canto do olho.
      Marco no pde deixar de se sentir intrigado, e ao mesmo tempo divertido, pela expresso confusa da moa a sua frente, que tentava em vo arrumar uma explicao
racional para seu pretenso comportamento. Qualquer pessoa com um mnimo interesse por carros no precisaria olhar para ele para se lembrar de que marca era.
      - Maseratis - ele completou, a voz mais alta do que o sussurro frentico de Louise. - Ferrari!
      - Sim. Maseratis - Alice concordou, repetindo o nome que ele havia dito. - Sempre adorei esse carro, e quando vi o seu, no pude resistir. A chave estava na
ignio... - ela disse em um tom de reprovao.
      - Ento, devo entender que a culpa foi minha por ter deixado a chave l - Marco sugeriu secamente.
      Ela tinha olhos lindos! De um azul brilhante... turquesa... to profundos e sinceros que parecia incapaz de mentir.
      - Tem alguma idia do que esse carro significa para um homem italiano? - ele disse asperamente em italiano.
      Sem um segundo de pausa, Alice respondeu na mesma lngua:
      - Sei que no devia ter feito isso.
      Ento ela no havia mentido sobre sua fluncia no idioma, Marco reconheceu. A despeito de todas as razes que tinha para chamar a polcia e procurar outra
bab para Angelina, j sabia que no faria nem uma coisa nem outra.
      Uma mulher que, por qualquer razo que fosse, estava disposta a se responsabilizar por um acidente para proteger a garota que estava sob sua responsabilidade
devia ser bastante capaz de cuidar com amor e segurana de sua menininha.
      Para Marco, era de proteo que Angelina precisava. Contrataria Alice, mesmo que viesse embrulhada em uma embalagem com um rtulo de "perigo" escrito em letras
garrafais.
      - Pela lei, tenho o direito de chamar a polcia e pedir que se encarregue de vocs - ele disse a Alice, aparentando frieza.
      Depois de esperar alguns segundos para que a cor voltasse ao rosto dela, continuou:
      - Entretanto, parece que esto com passagens reservadas num vo pra a Inglaterra. Embora voc.. - ele disse devagar - ...deveria estar sendo entrevistada
para um trabalho aqui mesmo na Itlia, ou assim pensei...
      Alice engoliu em seco.
      - Como sabe disso? - indagou, para emudecer em seguida, quando a verdade se fez clara em sua mente.
      - No - ela murmurou, os olhos arregalados de desespero. - No, voc no pode ser...
      - No posso ser quem?
      Nervosa, Alice umedeceu os lbios subitamente secos com a ponta da lngua. Os olhos de Marco monitoraram detalhadamente o gesto, seu corpo vibrando de excitao.
Aqueles lbios rosados, livres de qualquer maquiagem, faziam com que se lembrasse dos mamilos marcados sob a camiseta molhada.
      Irritado, ele colocou seus pensamentos devassos de lado. No tinha tempo a perder analisando-os, e nem inclinao para faz-lo. Mas se a pele dela era to
clara e delicada, os mamilos deviam ser ainda mais claros que seus lbios... Quando os tocasse com os lbios, eles...
      Alice ouviu-o resmungar para si mesmo e ficou ainda mais nervosa. A dor em sua cabea estava se tornando insuportvel. Estava confusa e envergonhada no momento
em que mais queria estar lcida. No podia ficar to afetada por aquele homem... perturbador, sexy, formidvel... completou para si mesma.
      - Eu... minha entrevista seria com... eu devia falar com... - ela comeou a responder.
      - Comigo - Marco completou, com uma suavidade que contrastava com o olhar fulminante que lhe dirigia. - S que voc no apareceu para a entrevista, o que no
condiz com as referncias enviadas por sua agncia... confiabilidade, responsabilidade...
      - Si... Sinto m... muito. Eu me atrasei - Alice comeou a gaguejar, sentindo-se ridcula e envergonhada. Ele pensava que ela havia roubado seu carro, e ela
ainda queria se desculpar pelo atraso.
      - Atrasar-se  um erro que deve ser punido por sua prpria conscincia... - ele concordou, fingindo formalidade. - Mas roubo  um crime passvel de priso...
      Talvez fosse o modo como ele a fitava, com olhos que pareciam duas lanas de gelo, sem qualquer sinal de emoo humana, mas Alice sentiu seu sangue congelar.
Estava chocada e assustada
      Priso! Sabia que o pavor estava visvel em seu rosto, e foi apenas o orgulho que a impediu de gritar alto.
      Enquanto procurava algo para dizer, o toque de um celular se fez ouvir insistente. Como se de repente estivesse observando uma cena a distncia, Alice viu
a mudana na expresso do homem que deveria ser o seu futuro patro, ao retirar o telefone do bolso e atender ao chamado.
      Com facilidade, Alice pde entender o que dizia, sentindo a ansiedade crescer rapidamente dentro de si. O homem fazia perguntas sobre o beb e orientava seu
interlocutor a chamar o mdico imediatamente.
      O que teria acontecido?
      Marco desligou o telefone preocupado. Nunca julgara que a bab escolhida pela me de Angelina fosse uma pessoa apta a cuidar de um beb to pequeno. Lerda
e impaciente, ela no tinha nenhuma vocao para aquilo, mas era no momento a nica pessoa com quem ele podia contar.
      O palazzo estava a uma hora de distncia de carro, e Marco no tinha mais tempo a perder com um acidente bobo no qual ningum havia se machucado.
      No currculo de Alice estava escrito que ela tinha experincia como enfermeira em um hospital local. Pois bem, devia lev-la o quanto antes para ver Angelina.
Sabia que sua teimosia o levaria a valorizar mais o cuidado que Alice tivera com a jovem que a acompanhava do que qualquer outro motivo pelo qual racionalmente deveria
deixar de contrat-la.
      Marco realmente no imaginara que ela pudesse ser to desejvel! Sua reao a ela o pegara totalmente de surpresa. Tinha esperado encontrar uma jovem como
aquelas que conhecera na universidade em Londres, produzidas e sem graa, com um jeito libertino. Por ironia do destino, agora era ele quem mal podia manter sua
prpria libido sobre controle.
      Marco odiava ser pressionado pelos acontecimentos, mas naquele momento no queria analisar sua deciso. Acima de tudo, estava sua preocupao com Angelina,
disse a si mesmo. Alm disso, podia perfeitamente controlar o desejo que Alice lhe despertava, mas a doena da beb, no.
      - A que horas voc disse que parte o seu vo? - ele perguntou. Com o rosto plido, Alice olhou para ele. Que tipo de homem... que tipo de pai seria, para priorizar
um tolo acidente de carro  sade de sua pequena filha? Se estivesse no lugar dele, a ltima coisa que faria seria ficar ali parado, preocupando-se em resolver a
situao com a polcia. Afinal, ningum havia se ferido.
      Que grande mentira o mito de que os homens italianos eram pais maravilhosos, que adoravam e protegiam seus filhos!
      Instintivamente, Alice teve vontade de castigar o homem pela sua negligncia, de mostrar a ele o que sentia naquele momento como profissional, como uma vtima
inocente de um delito que no cometera e, acima de tudo, como mulher. Uma mulher que no se permitido reagir a ele de um jeito que jamais se repetiria!
      Ignorando a forte dor de cabea que sentia, ela o acusou ferozmente. - O pobre bebezinho! Como pode estar mais preocupado com uma droga de carro do que com
ele? - ela investiu, enquanto sentia seus olhos se encherem de lgrimas.
      No tinha nenhuma vergonha de mostrar sua sensibilidade, no importava o quanto ele pudesse utilizar-se disso para pisote-la.
      - Pensei que os homens italianos fossem pais extremosos! - ela continuou em tom de ironia, incapaz de controlar-se. - Mas no seu caso, parece que o amor pelo
carro supera a preocupao com a sade de seu beb.
      Alguma coisa faiscou no olhar dele, um tipo de emoo que Alice no pde definir, mas quase como se a exploso dela, de alguma forma, o houvesse agradado!
Mas quando ela o fitou com mais ateno a expresso j desaparecera.
      Dando-lhe as costas, ele pegou novamente o celular e passou a dar algumas instrues para algum. Quando terminou, voltou-se para ela e falou secamente:
      - Voc ir comigo para o palazzo. Sua amiga ser escoltada at o aeroporto e acompanhada at a hora de embarcar.
      Alice encarou-o, mal acreditando no que ouvira. Ele a levaria para sua casa. Mas por qu?
      Estava chocada, amedrontada e tomada por uma sensao que no sabia definir mas que era forada a reconhecer que parecia se tratar de um outro tipo de emoo
perigosa, que fazia com que o sangue corresse rapidamente em suas veias.
      Ser que o sol da Itlia havia afetado seu crebro, fazendo com que o calor emocional daquele povo a contagiasse? Com certeza, no havia outra explicao razovel
para a excitao que aquecia todo o seu corpo. Aquele homem no possua nenhuma das virtudes que ela valorizava, nenhuma delas, insistiu firmemente consigo mesma.
      - Voc no pode me obrigar a ficar na Itlia - ela avisou.
      Estava quase agradecida por no ter tido a oportunidade de ser entrevistada. No haveria mesmo a menor chance de que pudesse trabalhar para ele. Aquela arrogncia
a enfurecia e a afastava, ao mesmo tempo que lhe despertava emoes desconhecidas. Ficava atordoada, confusa, perigosamente perto de perder a cabea.
      Sua primeira reao deveria ser a de correr para longe e colocar-se a salvo. No gostava dele. Nem um pouco. E o que percebera a respeito de suas atitudes
para com o beb fizera com que tivesse ainda mais raiva dele.
      Subitamente, Alice lembrou-se da criana. Tudo que sabia do emprego era que seria contratada para cuidar de um beb que perdera a me recentemente e que precisava
de uma presena feminina constante e amorosa em sua vida.
      Interessara-se muito, sabendo que poderia dar  criana todo o amor que necessitasse. Naquele momento, tendo conhecido a frieza do pai, seus sentimentos se
intensificaram. Com certeza o bebezinho precisava muito de algum que o amasse.
      - No pode nos forar a nada! - ela retrucou impetuosamente.
      - Ah, no? - Marco foi ainda mais seco. - Voc tem duas opes, Alice Walsingham. Ou vem comigo neste instante, ou voc e sua amiga enfrentaro as conseqncias
pelo acidente que provocaram.
      Antes que pudesse dizer qualquer coisa em sua defesa, Alice ouviu o pedido apavorado de Louise:
      - Por favor, Alice... Faa o que ele diz! No posso suportar a idia de ir para a cadeia.
      Quando a ouviu falar, Alice percebeu que na verdade no havia mesmo outra opo. No havia nenhum ponto para se apoiar e dizer que o homem a sua frente estava
apenas blefando.
      Um confortvel veculo de quatro portas subitamente estacionou atrs da Ferrari vermelha. O motorista saltou e dirigiu-se rapidamente a eles.
      Ouvindo o breve dilogo em italiano entre os dois homens, Alice percebeu que o recm-chegado trabalhava para o conde e que este havia lhe dado instrues para
acompanhar Louise ao aeroporto, enquanto ele e Alice se dirigiriam ao palazzo.
      - Sua bagagem ser levada diretamente do hotel para o palazzo - ele informou a Alice, sem se importar se ela concordava com aquela deciso.
      Mas claro, por que deveria? Devia ser bvio para ele que ningum contestaria uma ordem do conte.
      Havia pouco o que fazer. Alice conversou rapidamente com Louise, j sbria e parecendo sentir-se culpada.
      - Desculpe, eu no quis...
      - Shh! Est tudo bem - Alice sussurrou, tentando acalm-la mas avisando gentilmente: - Acho que no ser uma BA idia contar isso a Connie.
      A ltima coisa que queria era que sua irm ficasse preocupada, especialmente naquele momento em que a irm dissera que ela e Steven estavam planejando ter
um beb.
      Houve apenas tempo para que as duas trocassem um breve abrao, e ento Alice foi conduzida ao carro por seu novo patro.
      Estranhamente, Alice tinha a impresso de que a mo que ele colocou em seu ombro fazia mais do que gui-la. Podia sentir a fora dos dedos msculos em sua
pele e, tambm podia dizer, pela proximidade com que a mantinha a seu lado, que ele a estava guardando... como se fosse uma prisioneira!
      Todo o seu corpo estava dolorido em conseqncia do choque. Sentia-se fatigada com o calor do sol em sua cabea, e pior ainda com tudo o que acontecera. Mas
de forma alguma ela demonstraria algum sinal de fraqueza enquanto estivesse prxima quele homem.
      No fosse por Louise e pelo pobre beb, ela certamente no permitiria que ele a dominasse daquela forma. Ele era tudo o que mais detestava em um homem. Tudo
o que desprezava.
      Arrogante, seguro demais de si mesmo, fechado em sua imponncia... e sexy como nenhum outro que ela tivesse conhecido.
      No pde resistir ao impulso de olhar demoradamente  para ele, enquanto dirigia. Mas logo arrependeu-se, quando ele se virou inesperadamente para ela, fazendo
com que seu rosto corasse at as orelhas e seu corao negasse com firmeza o que estava sentindo.
      Em vo, Alice tentou se concentrar na paisagem, e no em seus sentimentos.
      Ele era mais alto que ela, mais imponente. Orgulhoso e soberbo, a frieza de sua expresso marcava a perfeio de seu rosto. Em contraste, ela se sentia pequena
e insignificante, sobrepujada por ele. Pareciam um centurio romano e sua presa.
      Um longo arrepio de uma emoo que no estava preparada para nomear percorreu a espinha de Alice.



      CAPTULO III


      Angelina resmungou baixinho e Alice imediatamente despertou. Eram trs horas da madrugada e ela havia se deitado apenas duas horas antes.
      Quando chegaram ao palazzo na tarde anterior, o brilho do sol banhava as paredes cor de creme da elegante e charmosa manso, com sua luz dourada. Construda
contra a paisagem magnfica de Tuscan, o efeito que tinha nos sentidos apurados de Alice era to forte que ela se sentia embriagada, como se tivesse tomado uma boa
dose de vinho.
      Tudo era perfeito demais, ela deu seu veredicto, quando entraram na estrada particular que levava ao palazzo. A paisagem era belssima, e quando chegaram aos
altos portes de ferro, surgiu um vasto jardim, com trechos gramados perfeitamente recortados e canteiros com toda variedade de plantas. Era como se aquele lugar
a envolvesse por completo, retirando-a do mundo exterior e da realidade.
      Um homem franzino e enrugado, aparentando seus setenta anos, correu para perto do carro para conversar em voz baixa com o conde. Alice s podia ouvir as perguntas
carregadas de autoridade que o patro lhe dirigia.
      - Sim, o doutor foi chamado - Alice ouviu quando o homem replicou em italiano. - Mas estava com uma emergncia no hospital, e no chegou ainda. - Voc deixou
o carro em Florena?
      Alice detectou o tom de incredulidade na voz do homem, o que imediatamente fez com que ficasse tensa. A atitude do conde devia ter surpreendido at mesmo seus
empregados, que deviam saber que geralmente ele se preocupava mais com o carro do que com a filha.
      - Houve um acidente - ela o ouviu dizer secamente, percebendo que balanou a cabea quando o homem expressou preocupao por sua sade.
      - No, est tudo bem, Pietro, eu estou bem - ele assegurou.
      Criando coragem, Alice o encarou. Em nenhum momento at ento, o conde expressara alguma preocupao com ela. No perguntara se havia se machucado ou se sentia
alguma dor. E certamente ela no diria a ele o quanto se sentira incomodada e dolorida durante a viagem, decidiu orgulhosamente.
      Ainda se sentia fraca, embora aliviada por estar no interior do palazzo, mais fresco e arejado. O lugar possua uma decorao formal e elegante, a moblia
era muito antiga e de excelente qualidade, e ela suspeitava que fosse carssima.
      Como poderia uma criana se sentir em casa em um lugar daqueles?, Alice perguntou a si mesma, enquanto seguia o conde  e a governanta, Madalena, esposa de
Pietro, atravs de vrias salas de estar at um amplo hall com uma enorme escadaria de mrmore rosado no centro.
      O quarto do beb, na verdade uma sute com dois quartos e um banheiro, ficava no fim de um longo corredor, e era mobiliado no mesmo estilo suntuoso do resto
da casa.
      A voz aflita de uma jovem veio de um dos ltimos quartos, em resposta ao chamado do conde. Ela estava tentando trocar a fralda da menina, mas, sem nenhuma
habilidade, s conseguia fazer com que a criana se agitasse e chorasse cada vez mais.
      Imediatamente, sem esperar pela permisso de ningum, Alice acabou de troc-la, para em seguida tom-la nos braos. O beb cheirava a leite azedo e na verdade
precisava de um banho. Seu rostinho estava vermelho e transpirava pelo esforo de chorar.
      Quando Alice a tocou, sentiu que sua pele estava quente e suspeitou de que estivesse com uma ponta de febre. Pelo canto dos olhos, podia ver que o conde a
observava enquanto aconchegava o beb em seu ombro.
      Um pai amoroso teria se apressado a pegar o beb de seus braos, mas ele provavelmente se preocupava mais com suas roupas impecveis do que com o bem-estar
da criana.
      Quando a pequena Angelina ergueu o rostinho para Alice e seus olhares se encontraram, ela sentiu uma emoo intensa, que vinha diretamente do fundo de seu
corao.
      To logo Alice a segurara, ela parara de chorar, como se reconhecesse o toque de algum que sabia o que estava fazendo.
      Alice ouviu o conde falando com a criada em italiano. Perguntava-se por que um homem to rico quanto ele escolhera uma pessoa to inexperiente para cuidar
da filha. A moa ainda estava plida e comeou a agitar as mos enquanto tentava explicar que o beb comeara a regurgitar pouco depois que ela lhe dera a mamadeira.
      Alice perguntou a Madalena onde ficava o banheiro e comeou a preparar o banho de Angelina. Levou um susto quando o conde apareceu subitamente a seu lado.
      - Deixe que eu a segure.
      A pequena comeou a chorar de novo quando Alice fez meno de tir-la do colo, um chorinho triste, baixinho... Parecia exausta. Alice hesitou, mas antes que
pudesse dizer qualquer coisa Angelina percebeu quem estava atrs delas, e se jogou com prazer para o conde, que estendia os braos para ela.
      Alice ficou emocionada com a clara demonstrao de amor do beb. Mas o que realmente a surpreendeu foi a habilidade dele com a pequena. Enquanto Alice preparava
o banho, ele a embalava amorosamente, murmurando palavras gentis, conversando com ela, at o momento em que Alice pde peg-la de volta e comear a retirar suas
roupinhas.
      - Acho que foi s uma clica - disse enquanto colocava delicadamente o beb na gua morna. - Mas de todo modo  bom que o pediatra a examine.
      O que Alice evitou dizer foi que a inexperincia da empregada devia ter causado tudo aquilo. O beb ficara agitado demais e acabara passando mal. Como ele
podia t-lo deixado sob os cuidados de algum que no tinha nenhum preparo para aquilo?
      O conde deveria fazer tudo que estivesse a seu alcance para cuidar e proteger a filha, sabendo que ela j sofrera uma perda grande demais. Ainda mais percebendo
que a criana demonstrava ver nele sua fonte de segurana e amor.
      A chegada do mdico interrompeu seus pensamentos. Enquanto ele examinava Angelina, o conde instruiu a empregada que descesse para jantar, de uma forma delicada,
o que apenas intensificou o ressentimento de Alice em relao a ele. Ele no tinha mostrado nenhuma preocupao quanto ao fato de ela no haver comido nada nas ltimas
horas.
      No que estivesse com fome. Ainda se sentia enjoada e sofria os efeitos do choque. No sabia, contudo, se o choque fora causado pelo acidente ou pelo conde.
      O pediatra confirmou a suspeita de Alice de que Angelina tinha apenas clicas. Mas explicou que se continuasse vomitando poderia ficar desidratada. Para surpresa
de Alice, ele repreendeu abertamente o conde por ter deixado uma criana to pequena aos cuidados de algum inexperiente.
      - Concordo com o que diz, doutor - ele aceitou. - Mas no tive alternativa. A moa foi escolhida pela me de Angelina, e est com ela desde as primeiras semanas.
Fiquei relutante em tirar-lhe mais uma pessoa com quem j estava familiarizada, pelo menos enquanto no tivesse outra pessoa mais qualificada para substitu-la de
forma mais constante.
      Dizendo isso ele se voltou para Alice.
      - Mas j tomei providncias nesse sentido. Contratei a Srta. Walsingham para cuidar de Angelina. Ela  inglesa, como a me de Angelina era, e  altamente qualificada.
      O mdico olhou para Alice demonstrando claramente sua aprovao, e depois voltou-se para o conde e falou em italiano:
      - Posso dizer que considero Angelina uma criana de sorte por conseguir uma bab to bonita... mas receio que voc tenha um problema nas mos, amigo. No sei
como ir lidar com uma tentao to grande sob seu teto.
      Alice sentiu que seu rosto comeava a corar. O que o mdico queria dizer? Que ela seria uma tentao para o conde?
      Antes que pudesse formular seus prprios pensamentos, o conde respondeu ao mdico de forma direta:
      - Contratei a srta. Walsingham por suas qualificaes para cuidar de crianas, e no por sua aparncia e atributos fsicos.
      Tirando o palet, o conde enrolou as mangas da camisa. O tecido fino no ocultava a masculinidade do peito largo... Alice podia distinguir a rea mais escura,
coberta de pelos.
      Sentiu que suas pernas fraquejavam. Tentou desviar a ateno, voltando-se para tirar o beb da banheira, mas para sua surpresa o conde se adiantou, tomando
a criana novamente nos braos.
      - A srta. Walsingham sofreu um pequeno acidente esta  manh, doutor, e eu lhe agradeceria se pudesse verificar se est tudo bem com ela.
      Pega de surpresa, Alice quase gritou.
      - No! No h necessidade... eu estou bem.
      J se sentia mais frgil do que gostaria perto daquele homem. No precisava de mais motivos.
      - Estou perfeitamente bem - ela insistiu.
      E devia ser verdade. A dor de cabea que sentia era tambm devida  velocidade dos acontecimentos,  fora com que emoes desconhecidas a inundavam.
      Alice no sabia por que se sentia to ressentida e hostil em relao  preocupao do conde. Por que ele prestava tanta ateno nela?
      Refletindo no meio da noite sobre tudo o que havia acontecido, Alice lembrou-se de que na agncia haviam lhe dito que o empregador procurava algum que se
dispusesse a fazer um contrato de longo prazo. Ser que seria essa ainda a proposta do conde? Ou depois que a conhecera em uma situao to desfavorvel suas expectativas
teriam mudado?
      Um pequeno balbucio se fez ouvir. De um salto, Alice saiu de sua cama e foi at o bero de Angelina. Estava mesmo acordada, brincando. Alice pegou-a no colo,
verificando sua temperatura e a fralda.
      Felizmente a testa da menina no estava quente, mas a fralda precisava ser trocada. Parecia ser tambm um bom momento para lhe dar algo leve para comer.
      Enquanto trocava a pequena, estudava seu rosto. A me podia ter sido inglesa, mas ela parecia mesmo uma italianinha. Tinha os mesmos olhos e cabelos escuros
do pai, e Alice suspeitava que teria a mesma expresso determinada do conde quando crescesse.
      Era adorvel, mas parecia to vulnervel! Mais do que tudo, Alice desejava poder proteg-la, cuidar dela, tanto que por um instante lhe pareceu que ela prpria
poderia ter dado  luz aquela garotinha.
      Pobre beb... No tinha uma me e provavelmente o pai no poderia lhe dar o amor de que necessitava.
      Em seu prprio quarto. Marco levantou-se quando ouviu Angelina atravs da bab eletrnica. Estava a dois passos da porta do quarto quando percebeu que Alice
j estava cuidando dela.
      Sentiu o corao apertado. Havia contratado Alice esperando que Angelina pudesse ter mais uma pessoa prxima a ela, alm dele prprio. Queria tambm poder
concentrar-se mais em seus negcios, mas... estava assustado e sentindo-se um pouco posto de lado com a rapidez com que a pequena a aceitara.
      Alice Walsingham! O que havia naquela mulher branquela e irritantemente inglesa que o fazia sentir coisas ridculas e sem sentido?
      Ele estava sendo sutilmente pressionado pela famlia para casar-se. Afinal, ele era o chefe da famlia. No entanto...
      Casamento. Por que cargas d'gua pensar em Alice o induzira a pensar em casamento? Estava no sculo vinte e um e de maneira alguma se sujeitaria a um casamento
por convenincia, no entanto, aos trinta e cinco anos de idade, ele j presenciara um nmero suficiente de casamentos e relacionamentos desmoronar para sentir-se
cauteloso e at descrente da durabilidade do to louvado e aclamado sentimento chamado "amor".
      Contra sua vontade, Marco viu-se de repente refletindo que sua me teria gostado de Alice. E foi ainda mais a contragosto que visualizou Alice do outro lado
da porta, com um beb nos braos, o rosto suavizado por uma expresso de sublime amor maternal, os seios nus...
      Com uma carranca, ele afastou a imagem. No era assim que queria v-la, nem mesmo no mais profundo recndito de seus pensamentos. Era um homem saudvel e vigoroso,
e fazia algum tempo que no desfrutava da companhia de uma mulher. Na verdade, nas ocasies em que tivera oportunidade de faz-lo, e que no foram poucas, ele no
sentira a menor vontade. Por que, ento, agora ficava pensando numa mulher a quem conhecera poucas horas atrs, de maneira to ntima?
      Ainda carrancudo, Marco olhou para o relgio. Eram quatro horas da manh. Ele teria de estar em Florena s dez para uma reunio importante, e naquele exato
instante deveria estar dormindo profundamente em sua cama em vez de estar parado no corredor, alimentando fantasias sobre uma bab.
      Alice esperou que Angelina adormecesse em seus braos antes de deit-la de volta no bero. S de contemplar aquela menina, sentia o corao se apertar. Sabia
que no era uma atitude profissional deixar-se envolver daquela forma e afeioar-se  criana, mas era algo que estava fora de seu controle. Todas as crianas precisavam
e mereciam ser amadas, e aquela mais do que as outras, refletiu. Alm de ter perdido a me em to tenra idade, ainda tinha de enfrentar a infeliz carga de ser filha
do homem mais insensvel e detestvel que Alice j conhecera.
      Angelina dormia, e era isso que ela tambm devia fazer. Sentia-se agitada e com a cabea pesada, mas no tinha foras para procurar alguma coisa para tomar.
Depois de um ltimo olhar para o bero, Alice voltou para sua cama.



      CAPTULO IV


      Angelina pareceu um tanto confusa quando acordou e viu Alice, na manh seguinte. Claro, ainda era uma estranha para ela.
      Alice resolveu pedir que Maria, a ex-bab, viesse v-la, mas quando ela chegou, ao invs de sentir-se aliviada, a pequena comeou a chorar.
      Imediatamente Alice a tirou do bero, conversando suavemente com ela para que se acalmasse. Amuada, Maria resmungou:
      - Ela no gosta de mim... Na verdade, no  uma boa menina. Fiquei com ela s porque precisava do dinheiro. E tambm por causa de sua pobre me. - Ela atravessou
o quarto enquanto falava, sem desviar os olhos de Alice, que pegava outra mamadeira para oferecer a Angelina. - Ela no toma o leite...  uma criana muito difcil.
Vou gostar muito de voltar para Roma.
      - Roma! - Alice exclamou.
      - Estava trabalhando l quando a me dela me disse que precisava de algum para tomar conta da criana. Disse que no podia cuidar dela sozinha e que o pai
no a ajudava. Ele no ligava para a filha, brigavam o tempo todo. Ela sempre dizia que queria no ter se casado com ele, que era muito grosseiro.
      Alice resolveu ouvi-la calada. No lhe parecia conveniente que a outra ficasse a falar dos problemas conjugais entre o conde e sua falecida esposa. Mas no
a interrompeu. Queria ouvi-la, apesar de sentir sua indignao crescer a cada instante.
      - Ela no queria ter a criana. Mostrou-me muitas fotografias de quando vivia em Londres. Usava roupas bonitas, posava para fotos...
      -  muito triste que tenha morrido - foi tudo que Alice conseguiu dizer.
      - Sim, uma tragdia - a empregada concordou, continuando:  - Antes do acidente eles haviam tido uma briga sria. Ela tinha bebido demais. Disse que o deixaria
assim que voltassem para Roma.
      Alice tentou no demonstrar o quanto as revelaes de Maria a chocavam. Como o conde podia ter se comportado daquele jeito com a prpria esposa, a me de sua
filha? E nenhum dos dois desejar a criana?
      - Pobre menininha... - Alice no pde deixar de lamentar enquanto oferecia a mamadeira  pequena. - Perder a me to cedo e ter uma pai to displicente...
      - E verdade, ele no tinha sentimentos.
      Cansada, Alice pediu a Maria que levasse as roupinhas sujas da beb para o andar de baixo. Queria sossego para aproveita um pouco mais aquele momento com Angelina.
      Estava cantarolando uma cano de ninar quando o conde entrou no quarto. No momento em que o viu, Alice pde sentir claramente a raiva que vinha se formando
dentro de si. Aquele homem no tivera nenhum controle nas brigas com a esposa, e deixara que ela se atirasse para a morte. Nunca desejara e nem amara a pequena Angelina.
      Quando ele caminhou na direo delas, Alice ficou tensa.
      - Como ela est?
      - Com sono, mas tomou toda a mamadeira.
      Marco olhou para Angelina, que parecia alegre nos braos de Alice, e no pde deixar de sentir uma ponta de cime.
      - Dormiu a noite toda?
      - Bem, no... no dormiu... mas eu no esperava que o fizesse. Sou uma estranha para ela, e ela no estava bem. Deve estar confusa, pobrezinha. So muitas
mudanas em seu to pouco tempo de vida.
      - Foi por isso que frisei na agncia que queria um contrato de longo prazo com voc. Espero que tenham lhe informado de que preciso de um compromisso seu de
que ficar com Angelina pelos prximos cinco anos.
      A arrogncia do conde era mesmo indescritvel. Seu tom autoritrio fez com que Alice automaticamente exibisse uma expresso mal-humorada.
      - Sei que para uma mulher como voc no deve ser fcil assumir esse tipo de compromisso - ele disse e fez uma pausa, examinando cuidadosamente a reao dela.
      Tanto a cor de Alice quanto o seu mau humor ganharam intensidade. O que ele queria dizer com "uma mulher como voc"? Ela desejou responder com ironia, mas
seu treinamento no permitia.
      - Alm disso - ele continuou -, mesmo que no haja nenhum homem em sua vida agora... - o conde interrompeu-se novamente para olh-la de um modo que fez o sangue
dela ferver de indignao. - Os homens italianos tm um fraco por mulheres da sua cor, mesmo que a experincia mostre que relaes entre pessoas de culturas diferentes
s trazem complicaes. Quero que saiba que no poder estimul-los. As mulheres europias teimam em pensar que os italianos so apenas homens de sangue quente,
amantes apaixonados, movidos pelas emoes e no pela razo. No se empolgue.
      Alice no pde se controlar mais. Ela era uma profissional e no uma garota tola em busca de romance. E se era isso que ele pensava dela, por que a teria contratado?
Antes que pudesse dar voz  sua indignao, o conde prosseguiu friamente:
      - Devo admitir que pela foto que a agncia me mostrou achei que fosse menos... menos atraente do que .
      Atraente? Ela? Alice no conseguia decidir se se sentia ofendida ou lisonjeada. Era verdade que as fotos que a agncia havia tirado dela estavam desatualizadas
fazia uns dois anos. Nelas, seus cabelos estavam presos e usava uma franjinha sem graa. Agora seus cabelos estavam mais compridos e soltos.
      Tambm era verdade que o sol das frias de vero que passara na praia com a famlia para a qual trabalhava antes havia deixado seus cabelos com alguns reflexos
mais claros. E que o fato de correr o dia todo atrs de dois garotos cheios de energia havia diminudo em dois nmeros o seu manequim, sem que fizesse nenhuma dieta.
      E tambm no faria nenhum esforo agora para parecer atraente aos olhos dos "homens italianos", que em seu entender deviam certamente preferir suas mulheres
grandalhonas e robustas, com curvas generosas.
      - Cinco anos  tempo demais para que uma mulher de sua idade fique...
      O conde continuava, mas Alice recusou-se a deix-lo terminar a frase.
      - Fique o qu? - ela provocou diretamente.
      Sabia que percorriam um caminho perigoso. Seu instinto avisava que havia algo mais naquela conversa. Algo que ela no tinha a menor vontade de perceber claramente.
Algo que fazia com que seu pulso se acelerasse e que lhe provocava um tipo de excitao que no lhe era familiar.
      - Voc no  nenhuma freira que tenha feito votos de castidade - ele falou sem cerimnia. - E natural que queira...
      Alice j tinha ouvido o bastante.
      - O que eu quero... - ela disse pronunciando pausadamente as palavras - ... que me permita fazer o trabalho para o qual me contratou, oferecer amor, estabilidade
e segurana para uma criana de seis meses que nunca vai conhecer a me. E se voc pensa por um instante sequer, que eu vim para a Itlia com qualquer outro objetivo...
      Ela dirigiu a ele um olhar orgulhoso, com um tipo de franqueza que normalmente se sentiria inibida e controlada demais para demonstrar.
      - Sou uma mulher moderna, senhor conde, e posso lhe assegurar que a ltima coisa que tenho em mente  me envolver em flertes inconseqentes ou arranjar um
marido.
      - Seu currculo diz que voc adora crianas.
      - Eu adoro crianas - ela concordou, franzindo o cenho.
      O que ele estava tentando fazer? Talvez, devido ao que acontecera no dia anterior, houvesse mudado de idia quanto a empreg-la. Talvez sua conscincia pesasse
pela irresponsabilidade de ter entregado a filha aos cuidados de uma mulher que, at onde ele sabia, havia roubado seu carro. Mas se o conde estava pensando que
ela permitiria que questionasse sua dedicao ao trabalho, enganava-se redondamente.
      - Ento  natural que em algum momento queira ter seus prprios filhos.
      Alice abriu a boca para protestar, mas fechou-a novamente. Claro que desejava algum dia ter sua prpria famlia. E, alm disso, constru-la com um homem a
quem amasse e que a amasse tambm. Mas no futuro!
      Havia apenas um beb em sua mente naquele momento, e era o beb dele.
      - Estou pronta para assinar o contrato e me comprometer legalmente com os cuidados de Angelina pelos prximos cinco anos - ela declarou com firmeza.
      Alice no disse, mas j estava comprometida emocionalmente com Angelina, o que era muito mais importante. Nada a faria abandonar o pequeno beb daquele homem
descuidado e irresponsvel!
      Absolutamente contra sua vontade, Marco no conseguia desviar a ateno do belo movimento que os seis dela faziam enquanto falava to furiosa" s desejava
poder toc-la e confirmar se eram mesmo to macios quanto pareciam.
      Claro que Alice, mesmo inconscientemente, percebia o que ele pensava e reagia. Uma mensagem secreta parecia ter sido enviada aos sentidos dela, e seus mamilos
se contraram sob o tecido Dino da camiseta, exatamente como da primeira vez em que ele a vira.
      Ela sentiu o rosto queimar de vergonha e de raiva. Como aquilo podia estar acontecendo com ela? Nunca fora do tipo de pessoa que reagisse daquela maneira.
      Para seu alvio, Marco afastou-se dela.
      - Muito bem, ento. Podemos ir para o meu escritrio, onde poder ler o contrato e assin-lo.
      Antes de sair, Marco se aproximou do bero de Angelina e sorriu ao ver a criana adormecida. Tocou gentilmente o rostinho rosado e beijou-lhe a testa. Quem
no o conhecesse e assistisse  cena diria estar diante do pai mais amoroso e dedicado do mundo.
      - As pessoa que trabalham comigo h mais tempo me chamam pelo meu primeiro nome, Marco. Quero que faa o mesmo.
      Marco. Forte e melodioso ao mesmo tempo... como uma combinao de ao com veludo... na verdade, um nome que combinava com ele.
      - Vou ter de me ausentar durante a manh. Se Angelina no lhe parecer bem, chame o mdico no mesmo instante. Madalena tem o nmero.
      Enquanto o acompanhava ao longo do corredor, Alice  forou-se a lembrar que era pelo bem de Angelina que fazia aquilo. O beb precisava dela, e Alice no podia
abandon-lo. No naquele momento.
      O caminho para o escritrio de Marco era decorado com peas belssimas, de tirar o flego. Mas, para surpresa de Alice, o interior do cmodo era decorado num
estilo bem mais moderno e clean , prtico e de extremo bom gosto.
      Era o escritrio de um homem singular, ela reconheceu. A princpio imaginara que fosse obra de um decorador contratado, mas um exame mais minucioso indicou
que havia ali vrios detalhes que marcavam um estilo nico, pessoal. Havia um porta-retrato com a impresso de um pezinho, que ela concluiu ser de Angelina, e uma
escultura do busto de um homem cujas feies lhe pareciam familiares, embora ela no houvesse entendido o porqu at que Marco lhe disse.
      - Meu pai. Ele e minha me morreram em um desastre de avio. Meu tio, irmo mais novo de meu pai, estava pilotando. Ele e outro tio tambm morreram.
      Alice suspirou audivelmente. O que ele acabara de dizer fazia com que parecesse to mais humano, to... vulnervel. Mas ela no queria pensar nele daquela
forma, no queria que seu corao se condoesse por um homem que Ra na verdade insensvel.
      - Foi meu pai quem me encorajou a estudar arquitetura - Marco continuou, como se falasse mais consigo mesmo do que com Alice. - ele dizia que, embora um dia
eu fosse herdar tudo o que era dele, eu precisava ter minha prpria vida, ser independente, em vez de andar  sombra dele... Claro que ele no podia imaginar que
morreria to cedo. Sinceramente, eu queria ter tido mais tempo...
      Alice pde perceber a dor na voz dele. Chamava-lhe a ateno que ele falasse sobre a perda dos pais e mostrasse a dor que sentia, mas que no tocasse no nome
da esposa. Nem mesmo quando falava de Angelina ele a mencionava.
      Ser que o pensamento era to insuportvel que ele no conseguia falar a respeito? Ser que se sentia culpado pro sua morte?
      Alice observou-o enquanto abria umas das gavetas da mesa e pegava algumas folhas de papel.
      - Aqui est meu contrato - disse, o olhar severo quando percebeu que ela mantinha uma distncia segura entre eles. - Se voc chegar um pouco mais perto, posso
lhe explicar algumas clusulas. - Marco disse em tom irnico, indicando com a mo o espao entre eles.
      Relutante, Alice deu alguns passos  frente.
      A sala estava agradavelmente fresca quando ela entrara, mas naquele instante sentia tanto calor que o ar parecia lhe faltar. O aroma masculino, perigosamente
ntimo, a embriagava.
      Alice ficou ainda mais tensa quando Marco se aproximou dela e lhe entregou o documento.
      - Se concordar com todos os termos do contrato, por favor, assine.
      Alice leu e, sem nada dizer, assinou o papel, observando enquanto ele assinava seu nome abaixo do dela.
      - Ento - ele falou com suavidade -, voc agora tem um compromisso com o futuro de Angelina.
      Alice comeou a afastar-se, mas parou quando seu quadril esbarrou na ponta da mesa, fazendo-a soltar um pequeno gemido. Marco se voltou para ela, perguntando
o que tinha acontecido. Ela comeou a explicar que no fora nada, mas para seu constrangimento, ele se aproximou e tocou seu quadril, os dedos quentes contra o tecido
fino de sua roupa.
      Alice imediatamente corou e Marco ficou tenso. Em uma comunicao sem palavras ele a segurou firmemente a sua frente, e ela soube exatamente o que iria acontecer.
J no havia imaginado aquela cena uma dezena, no, uma centena de vezes, em seus pensamentos mais profundos e secretos?
      A corrente eltrica entre eles era forte e excitante. Alice pensou em afast-lo com as mos, mas ao tocar o tecido de algodo da camisa, sua razo pareceu
evaporar-se. Podia sentir a rigidez dos msculos do peito largo, a textura dos pelos por baixo do tecido macio. Ele era to incrivelmente msculo! Estaria ela enlouquecendo?
      Quando levantou o rosto, encontrou o desejo explcito nos olhos dele. Como uma presa nas garras de seu predador, ela ficou paralisada.
      - No - murmurou quando percebeu que ele inclinava a cabea em sua direo. Mas era tarde. Marco tomou sua boca em um pedido suave, silenciando qualquer objeo.
      Os lbios dele despertavam em Alice pensamentos caticos, o desejo flua... Ele se movia com experincia, primeiro destruindo suas defesas e depois seduzindo,
provocando, at que ela lhe desse a resposta que tanto desejava.
      Como o roar suave dos lbios dele nos seus podia fazer surgir um desejo to forte, quase incontrolvel de se encostar a ele, de segur-lo com fora, abra-lo
e continuar beijando-o para sempre?
      As mos que antes a aprisionavam no precisavam mais de qualquer esforo. Ao contrrio, podiam acariciar seu pescoo, agarrar-se a seus cabelos, envolv-la
totalmente no encantamento daquele beijo.
      Alice sentia seu corpo em chamas... ansiava por Marco... desejava-o...
      Mas de algum lugar veio o pnico que lhe deu foras para retirar-se da correnteza que a carregava. Afastando-se bruscamente dele, ela perguntou, a emoo transparente
em sua voz:
      - Por que... Por que fez isso?
      O mero olhar dele a fazia tremer.
      Marco perguntava-se como ela reagiria se lhe dissesse a verdade, que a beijara simplesmente porque no tivera opo. Fingindo uma frieza que estava longe de
sentir, ele respondeu:
      - Fiz isso porque voc esperava que eu fizesse, desde o primeiro momento em que a vi. Era inevitvel que acontecesse, e uma vez acontecido, o caminho ser
mais fcil, daqui para frente.
      Alice no podia acreditar no que ouvia.
      - No! Eu nunca...
      - Sim. - Marco se adiantou a ela. - Quando vi voc atravessando a rua, voc olhava para a minha boca como se quisesse experiment-la em lugar do sorvete que
tomava. Uma vez que satisfiz sua curiosidade, talvez possamos...
      Alice estava prestes a irromper em lgrimas. Como ele se atrevia a sugerir aquilo?
      - No. - Ela se recusava a voltar atrs e assumir a culpa pelo que ele comeara. - Foi voc que ficou me encarando...
      Ela sentiu-se corar ao lembrar-se do olhar de Marco detido em sua camiseta molhada. No seria possvel trabalhar para aquele homem...
      Seu olhar desceu at o contrato que acabara de assinar. Como se pudesse ler seus pensamentos, Marco falou em tom autoritrio:
      -  tarde para arrependimentos, mocinha.



      CAPITULO V


      Brincando com Angelina em cima de um acolchoado que estendera no cho, Alice refletiu que na verdade no se arrependia de ter assinado aquele contrato.
      A menina gargalhava quando ela lhe fazia caretas, e no havia nada no mundo que se comparasse quela felicidade!
      Alice estremeceu ao lembrar-se do episdio que se passara no escritrio. Como podia ter se comportado daquela maneira ela no sabia, mas ficara claro que era
capaz de sentir emoes que at ento no conhecia. O melhor seria afastar as lembranas de sua mente. Para bem longe.
      Mas conseguiria fazer isso?
      No havia outra opo, disse a si mesma firmemente. Para o bem de Angelina, e tambm para o seu prprio. Havia passado toda a manh brincando e cuidando de
Angelina. Queria que se acostumasse com ela e se sentisse segura. Ao mesmo tempo, ela tambm ia se adaptando ao seu novo espao de trabalho.
      As gavetas cheias de roupinhas caras de beb a haviam deixado sem flego. Eram lindas, mas todas pareciam roupas de festa. Alice no encontrara um moletom,
um macaco, nada que um beb pudesse usar para engatinhar no cho ou rolar nas almofadas. E o que mais a irritava era que todas as roupas pareciam novas, como se
Angelina nunca tivesse feito nada disso. Ser que no havia ali uma nica alma que tivesse um mnimo de experincia com bebs?
      Na verdade, tudo no quarto da menina parecia novo. Os brinquedos carssimos em cima das prateleiras eram maravilhosos, mas pareciam intocados. E no havia
nada que Angelina pudesse morder com os dentinhos que estavam despontando!
      Perto da hora do almoo, Madalena veio avisar que preparara uma refeio leve, j que Marco a havia informado de que jantariam fora.
      Jantar fora? Com Marco? Trmula, Alice tentou digerir a informao sem fazer qualquer comentrio.
      - No vi Maria essa manh. Voc sabe onde ela est?
      - Provavelmente em Roma, a esta hora - a governanta respondeu secamente. - Ela desceu as escadas e telefonou para o namorado. Quando desligou me disse que
no ficaria aqui nem mais um minuto.
      Na realidade, Alice no ficara surpresa por a garota querer ir embora. Ela j tinha lhe falado sobre como a tranqilidade do palazzo a irritava e como preferia
mil vezes o movimento da cidade. E havia ficado bvio de que ela no tinha uma forte ligao com Angelina. Madalena continuava a falar:
      - No que ela seja uma m pessoa. Apenas no era adequada para esse trabalho. Mas conhecendo quem a contratou... - Sua expresso era de desaprovao.
      - O acidente deve ter sido um choque para todos vocs - Alice disse gentilmente, com tato.
      A governanta deu de ombros.
      - Para falar a verdade, ns no a conhecamos bem. Ela no gostava do palazzo, tambm preferia Roma. E ento, quando veio aqui... bem, tudo o que vimos foi
que ela saiu muito nervosa, gritando que nunca quisera a criana e que ela estava arruinando sua vida. Que tipo de me era essa, que deixava seu beb assim eu lhe
pergunto? - A governanta parecia indignada.
      - Angelina tinha pai e me.
      Alice no se conteve. A governanta estava com certeza pintando um retrato pouco agradvel da esposa de Marco, mas sempre havia dois lados da histria, lembrou
a si mesma. Quem poderia saber o que a levara a agir de um modo to irresponsvel?
      - Hum... O pai era to ruim quanto a me.
      Alice mal podia acreditar no que ouvia. A ltima coisa que esperava era que a governanta criticasse o prprio patro, e justamente para ela, uma empregada
nova na casa.
      - No sabe o quanto  bom que esteja aqui. A pobre menina precisa de algum que tome conta dela direito. Tenho certeza de que Angelina no sentir nenhuma
falta de Maria.


      Quando a reunio terminou, Marco abriu sua maleta e retirou uma carta que havia chegado antes de ter partido para a cidade. J a lera, mas sentia necessidade
de ler mais uma vez.
      Era de Pauline Levinsky, a mulher para quem Alice trabalhara antes de vir para a Itlia. Marco escrevera para ela com o objetivo de checar suas impresses
sobre Alice.
      A carta comeava com um pedido de desculpas por no ter respondido antes, explicando que ela havia se mudado recentemente para Nova York e que a carta tinha
demorado a chegar ao destino final. Mas que resolvera responder-lhe para alert-lo de que, embora Alice houvesse cuidado com muito carinho e responsabilidade de
seus dois filhos, descobrira que andara dormindo com seu marido. Dizia que sabia que para garotas modernas fazer sexo no tinha maior valor do que um aperto de mos,
que era apenas uma diverso, nada alm da cama e com quantos homens aparecessem. Contava que achava que o marido no fora o nico e que embora no tivesse nenhuma
reclamao quanto ao tratamento que dispensara a seus filhos, achava que Marco deveria saber desse seu "outro lado".
      Mas agora, era tarde demais para que ele voltasse atrs. Angelina precisava demais de Alice para que ele a despedisse. Talvez a relao tivesse significado
mais para Alice do que Pauline Levinsky acreditava... Talvez ela tivesse mesmo se apaixonado pelo marido da outra mulher...
      Irritado, Marco ficou pensando por que tinha de ser to mais apegado a valores morais que seu falecido primo. Sofria muito quando pensava em Aldo. Depois da
morte dele e de Patti, fora at o apartamento deles, pegar os pertences de Angelina. O bero da menina ficava em um quarto pequeno, suas poucas roupas estavam sujas
e jogadas no cho, o guarda-roupa estava abarrotado com os vestidos da moda de Patti, mas no havia nada da criana. Desgostoso com o que encontrara e com a aparente
falta de cuidado com Angelina, ele havia ido diretamente a uma das lojas mais elegantes de Roma, para montar um novo enxoval para a garota.
      Como teria sido sua vida ao lado dos pais?
      Marco perguntou-se novamente o que teria acontecido se no tivesse chamado o casal para ir ao palazzo naquela noite fatdica. No havia como no se sentir
culpado. Mas havia algum que devia se sentir ainda mais culpada que ele. A me de Patti.
      Francine ficara furiosa com o anncio do casamento. Marco a encontrara pela primeira vez em uma festa que Aldo e Patti deram quando voltaram da lua-de-mel.
Francine dissera a Marco que eles haviam arruinado seus planos de levar Patti para Los Angeles onde havia um produtor interessado em oferecer a ela um papel em seu
prximo filme.
      Marco achava realmente uma pena que ela no tivesse levado a filha a tempo para Los Angeles, antes que seu primo to sugestionvel a conhecesse. Francine deixara
transparecer para  Marco que considerava que a nica qualidade que seu primo tinha era o fato de ser rico.
      Ela era, na opinio de Marco, uma daquelas mulheres que ficam tentando reescrever a prpria histria a partir da vida das pobres filhas. O sonho de ser atriz
era dela e no de Patti. Fizera de tudo para que a filha interrompesse a gravidez. Apenas a interveno de Marco, assumindo total responsabilidade pelo sustento
financeiro do beb, persuadira Patti a levar a gravidez adiante. E por isso ele fora designado para assumir a guarda temporria do beb. Quando estava saindo da
cidade, Marco resistiu  tentao de telefonar para casa para saber como estava Angelina. No queria que Alice pensasse que a estava controlando... ou talvez no
quisesse se expor ao prazer de ouvir sua voz.
      Era muito tarde tambm para que ele se arrependesse. Devia ter pensado melhor antes de convid-la a entrar em sua vida e dominar, mesmo sem saber, seus pensamentos.
Mas a principal preocupao dele era com o bem-estar de Angelina. Alis, essa era sua nica preocupao. Jamais se permitiria prejudicar a segurana que Angelina
teria com a presena de Alice.
      E alm do mais, mesmo que houvesse sido tolo o suficiente para se permitir dar vazo  atrao que sentia por ela, a carta da ex-patroa acabara com esse sentimento.
A nica razo pela qual cancelara a reunio para voltar mais cedo para casa era pelo bem de Angelina. Como seu guardio, tinha de garantir que ela estivesse sob
os cuidados da melhor pessoa que pudesse encontrar.


      O jardim que podia avistar da janela parecia bastante tentador para Alice, e ela resolveu descer para explor-lo. Os bebs, em sua opinio, precisavam respirar
o ar fresco. Era importante proteger bem a pele da pequena do sol forte, mas afora isso, um passeio lhe seria muito indicado.
      Alice encontrara um carrinho de beb novinho. Ao que parecia, nunca havia sido usado, o que a deixou novamente irritada. Angelina tinha j seis meses!
      Depois de trocar a fralda da menina e vesti-la, seu prazer foi enorme ao ver que ela espontaneamente lhe estendia os bracinhos para que a pegasse no colo.
Aps sofrer um pouco para descer as escadas com o carrinho, Alice finalmente conseguiu sair.
      Angelina parecia muito feliz no carrinho que Alice guiava pelos caminhos de pedra que cortavam os gramados. Enquanto andava, comentava com o beb tudo o que
viam.
      - Olhe, Angelina! - ela disse, posicionando melhor o carrinho em direo ao que estava apontando. - As flores!
      Erguendo-a do carrinho, ela a levou para bem perto da roseira, inalando ela prpria seu perfume, sorrindo quando a menina pareceu tentar imit-la, os olhos
bem abertos, atenta.
      Virando-se para colocar Angelina de volta no carrinho, percebeu que no estavam sozinhas. O mdico havia chegado sem avisar e estava a observ-las.
      - Que cena mais linda! - Ele a cumprimentou com um galante gesto  moda antiga, sorrindo. - Desculpe-me se a assustei. Pensei em ligar para saber como estava
nossa pequena, mas acabei resolvendo vir pessoalmente. Agora percebo que minha visita foi desnecessria.
      Com algum desconforto, Alice admitiu para si mesma que estivera  espera de que Marco ou o doutor aparecessem inesperadamente, para ver como estava cuidando
de Angelina. Apesar disso, naquele momento sentia-se grata pelo profissionalismo do mdico.
      - Ela parece mesmo bem. A temperatura est normal e ela tomou toda a mamadeira. Queria comear a dar a ela algo mais substancioso, mas acho que ainda  cedo.
E ainda no conversei com Madalena sobre legumes frescos... Acho que s devemos dar alimentos orgnicos para bebs.
      - Marco vai aprovar seu ponto de vista - o mdico lhe disse de modo afetuoso. - Ele  um pai muito melhor para essa criana do que... - ele interrompeu o que
ia dizer. - Ah, a vem ele. Estvamos falando de voc. Marco!
      Percebendo pelo tom de voz do mdico que ele j estava bem prximo deles, Alice sentiu o rosto corar e o corao bater descompassado. O calor, que cinco minutos
antes lhe parecera razoavelmente suportvel, naquele momento fazia com que mal pudesse respirar. A dor de cabea do dia anterior, embora houvesse melhorado, ameaava
tornar-se mais forte naquele momento.
      - Ah, Marco! - O pediatra se dirigiu ao conde. - Fui privilegiado por poder presenciar a cena a que assisti h pouco. A sua encantadora Alice estava mostrando
a Angelina uma de suas rosas.
      "Sua encantadora Alice"... O doutor era mesmo inconveniente .
      Envergonhada, Alice apressou-se a explicar:
      - Enquanto Angelina no sabe andar, temos de mostrar tudo a ela... o perfume das flores...
      - Elas foram plantadas por minha me. Ela adorava o perfume das rosas.
      Angelina abriu um sorriso quando viu Marco. Dando gritinhos, agitada, ela estendeu os bracinhos para ele, mostrando claramente que queria que a pegasse no
colo. Alice ficou um tanto surpresa quando Marco no hesitou, tirando-a do carrinho.
      Por alguma razo, o modo como a aconchegou contra o peito fez com que Alice sentisse um n na garganta. Ele era a imagem perfeita de um pai amoroso.
      -  timo ver que nossa pequenina pode novamente ter alegria depois de tudo que passou - o mdico disse, balanando a cabea satisfeito. - Foi uma sorte ela
no estar no carro.
      Subitamente ele se interrompeu, e colocou a mo no brao de Marco.
      - Desculpe-me, meu amigo, eu o estou perturbando. Sei que perdeu algum que amava muito nessa tragdia.
      Alice no sabia mais em quem acreditar. De acordo com tudo que ouvira at ento, Marco estava a ponto de se divorciar da esposa quando tudo acontecera, mas
o mdico dizia que ele a amava?
      Alice no queria entender o porqu de haver sido tomada por um sentimento to desconfortvel. Mas no podia evitar. Estaria com cime? Cime de uma mulher
que havia morrido porque... porque o qu?
      Melhor no entender, seu instinto de autoproteo falou mais alto.
      De repente, consciente de que Marco a observava, virou-se rapidamente para mexer no carrinho. Foi ento que sua vista ficou turva e uma horrvel sensao de
fraqueza a acometeu.
      O suor frio era uma indicao clara de que estava prestes a desmaiar. Seu primeiro pensamento foi de que no estava segurando Angelina, e o segundo, e ltimo,
foi de que Marco iria presenciar sua fraqueza.
      Quando voltou a si Alice estava deitada em um dos bancos do jardim, sob a sombra de uma rvore. O mdico estava a seu lado, sorrindo, enquanto Marco, de p,
os observava com um olhar severo.
      Ansiosa, Alice procurou por Angelina.
      - Angelina? - ela balbuciou com a voz trmula.
      - Est segura no carrinho - o mdico a tranqilizou. - Marco a colocou l antes de carregar voc para c. Como se sente? Voc nos deu um susto!
      - Eu... estou bem - Alice respondeu. - Acho que devo ter ficado muito tempo sob o sol forte.
      - Deve ter sido isso mesmo - O mdico concordou. - Mesmo assim... - Ele fez uma pausa e olhou na direo de Marco.
      - Contei ao doutor sobre o acidente de ontem - Marco falou. - Me preocupa que voc possa ter sofrido algum traumatismo.
      Traumatismo! Alice olhou para ele sem poder acreditar.
      - Eu trabalhei em um hospital - ela lembrou. - E acho que saberia se tivesse tido um traumatismo. Tenho certeza de que foi s o calor.
      Uma sobrancelha de Marco se levantou em uma expresso irnica.
      - E com a experincia que voc tem em cuidar de crianas, devia ter percebido que o sol est muito forte. E devia ter feito alguma coisa a respeito, como colocar
um chapu pelo menos! - ele observou secamente. - Acho que o melhor  fazer alguns exames. O doutor estava mesmo indo para o hospital e vai levar voc.
      Hospital? Alice olhou para os dois com os olhos arregalados.
      - No, no  necessrio - ela protestou teimosa. - No posso ir para o hospital. Quem vai cuidar de Angelina?
      - Eu vou cuidar dela - Marco informou. - E se voc no quiser ir, eu, como seu patro, tenho o direito e o dever de insistir para que v, nem que eu mesmo
tenha de lev-la - ele avisou, de um modo que no deixava dvidas quanto a sua autoridade.
      - Marco tem razo em preocupar-se - o mdico interveio gentilmente, confirmando o que ela j antecipara. - Voc pode ter certeza de que o acidente no teve
conseqncias, mas  melhor nos certificarmos. Infelizmente, os sintomas causados por um traumatismo podem ser similares aos de uma queda de presso pelo sol forte,
pelo menos no incio. Como mdico, tambm me sinto na  obrigao de insistir para que v ao hospital fazer os exames e assim tranqilizar a todos.
      Depois disso, como ela poderia se recusar? No lhe restava alternativa seno acompanh-lo.
      - Consegue andar at o meu carro? - ele perguntou educadamente. Pelo canto do olho, Alice pde ver que Marco a observava, franzindo o cenho.
      - Estou perfeitamente bem - respondeu com confiana.
      Nesse momento, Angelina comeou a chorar, atraindo a ateno dos trs, que automaticamente olharam para o carrinho, mas foi Alice quem se aproximou primeiro.
Marco rapidamente colocou-se na frente dela.
      - Fique onde est. Quer desmaiar de novo? Eu cuido de Angelina. Espere aqui que vou lev-la at o carro, para me certificar de que chegar l inteira.
      Seu tom de voz enfureceu Alice. Foi como se, em uma frase ele questionasse seu profissionalismo, sua capacidade de julgamento, seu... Antes que pudesse se
conter, viu-se dizendo:
      - V cuidar dela, ento... do jeito como estava cuidando antes que eu chegasse. Deixando-a  merc de uma menina sem experincia e sem um pingo de pacincia
e carinho, e que por ignorncia estava deixando-a com fome, sem se importar...
      Horrorizada, ela se calou. Quaisquer que fossem suas opinies, ela no tinha nenhum direito de torn-las pblicas. Em circunstncias normais jamais faria aquilo,
mas havia algo em seu novo patro que a irritava de um jeito que nunca ningum havia feito antes.
      Estava quebrando todas as regras que sempre adotara em sua profisso. Manter uma distncia formal entre ela e o patro, por exemplo, no permitir que as emoes
lhe fugissem ao controle e regessem suas atitudes.
      Alice sabia disso, mas mesmo assim no conseguia se controlar.
      Com um rpido olhar por sobre o ombro, ela percebeu que o mdico felizmente estava longe demais para ouvi-la. Mas Marco parecia t-la ouvido muito bem.
      - Se est querendo dizer o que eu acho que est - ele comeou com uma voz perigosamente controlada -, deixe-me assegur-la de que a nica negligncia que cometi
em relao a Angelina foi contratar voc - ele disse sem meias palavras.
      Alice sabia que seria mais sensato calar-se, deixar que o assunto morresse, mas sua irritao era to grande que se ouviu acusando:
      - Nem roupas adequadas ela tem! S tem vestidos com rendas e babados e outras roupas de festa. No tem uma nica camiseta de algodo, uma nica cala de moletom.
Parece que quem as comprou no se deu ao trabalho de escolher...
      Ela parou quando percebeu o jeito como Marco a olhava.
      - No tive opo. As coisas que ela tinha... - Ele fez um movimento com os ombros, desgostoso. - Patti no era a melhor das donas de casa... ou das mes. Se
em minha inexperincia no dei a Angelina o que ela precisava, felizmente isso pode ser rapidamente corrigido. Enquanto isso, se voc me fizer a gentileza de ir
com o doutor...
      Colocando-se entre ela e o carrinho, Marco esperou que o mdico se aproximasse deles.
      - J o atrasamos bastante, doutor - desculpou-se. - Vamos colocar a srta. Walsingham a salvo em seu carro, para que o senhor possa voltar ao hospital. Ser
que pode me ligar quando tiver os resultados dos exames?
      Estava na ponta da lngua de Alice dizer que ela no permitiria e nem precisava que ele tomasse conta de sua sade, mas j havia falado mais do que devia.
A ltima coisa que queria naquele instante era parecer ainda mais petulante e infantil do que j fora.
      Depois que caminharam devagar at o carro, Alice teve vontade de dar um beijo em Angelina para se despedir. Como se lesse seus pensamentos, Marco tirou o beb
do carrinho e aproximou-a de Alice para que se despedisse.
      Aquele era realmente um homem difcil de se entender. Arrogante e frio num segundo, e to cuidadoso e sensvel no outro.
      Tentando ignorar os braos fortes do pai que segurava a pequena, e o fato de que o perfume masculino se sobrepunha  colnia infantil, Alice se inclinou e
beijou-lhe ternamente o rostinho, murmurando carinhosamente seu nome ao fazer isso.
      - No se preocupe querida, vou voltar logo. Ela prpria estava preocupada, entretanto, e sua expresso demonstrava isso quando olhou para Marco.
      - Quem vai dar a mamadeira para ela? Ainda tem um pouco na geladeira, mas Maria foi embora e...
      - Sou perfeitamente capaz de preparar o leite e colocar na mamadeira. - Marco assegurou secamente. - No ser a primeira vez que fao isso, posso lhe garantir.
      - Voc no vai deix-la agitada, vai? - Alice no se conteve - Deixe que tome em seu ritmo, e...
      - No vou apress-la.
      Marco j estava se afastando dela.
      Infeliz, Alice fechou a porta do carro. Marco era seu patro e naquele momento ela tinha de fazer o que ele decidia, mesmo que no concordasse ou achasse necessrio.
      A ltima coisa em que pensou quando o mdico ps o carro em movimento foi que pelo menos se livrara do jantar com Marco!



      CAPITULO VI


      Quando o mdico trouxe o resultado de seus exames, Alice desejou que Marco estivesse ali. Apenas para lhe dizer: "Eu no falei?".
      De fato, haviam chegado  concluso de que a exposio ao sol muito quente  que causara o mal-estar. Mas o que ela mais queria na verdade era poder voltar
para o palazzo e ficar junto de Angelina. Entretanto, o mdico a informou de que Marco insistira para que ela passasse a noite no hospital.
      - Mas foi s o calor! - Alice protestou.
      - Quando se testemunha a devastao causada por um acidente de carro, como aconteceu com Marco, talvez se possa compreender o fato de ele querer se assegurar
de que voc no sofreu nada.
      O tom gentil com que o mdico a repreendeu no deixou a Alice alternativa seno a de se calar. Tambm por insistncia do conde, ela ficaria num quarto particular
no hospital.
      Na manh seguinte, enquanto se vestia para ir embora, Alice se perguntava como iria voltar ao palazzo. Marco mandaria algum busc-la ou teria de ir sozinha?
Claro que no esperava que o mdico a levasse, ocupado como era.
      Quando ouviu a porta do quarto se abrir, pensou que fosse a copeira que viera recolher a loua do caf da manh.
      - Entre!
      Para seu constrangimento, quem apareceu  porta foi Marco. Grata por estar adequadamente vestida, Alice perguntou:
      - Onde est Angelina?
      - Est aqui comigo! - Marco exclamou, abrindo totalmente a porta para que Alice visse a pequena confortavelmente acomodada em seu carrinho.
      Para alegria de Alice, Angelina imediatamente a reconheceu, e abriu um grande sorriso para ela. Alice notou que ela estava vestida com roupas imaculadamente
limpas. Parecia uma coelhinha fofa!
      Caminhou at ela sorrindo, quando Angelina lhe estendeu os braos. Libertando-a do cinto do carrinho, Alice pegou-a no colo e perguntou ternamente:
      - Quem  essa garotinha linda e perfumada, hein? Voc tomou direitinho sua mamadeira? Deixe ver o dentinho que est nascendo...
      - Nem precisa v-lo, tenho provas de que j nasceu - disse Marco, indicando uma pequenina marca em seu dedo.
      Alice no pde se controlar e caiu na risada.
      - Voc ri, no ? - Marco falou, fingindo estar bravo. - Pois saiba que esse dentinho  afiado!
      Foi apenas naquele instante, vendo o beb, que Alice percebeu o quanto se preocupara com Angelina. Havia acordado muitas vezes durante a noite, agitada. Sentia-se
aliviada e agradecida a Marco por t-la trazido.
      - Obrigada. Eu estava to preocupada...
      O olhar mal-humorado que Marco lhe dirigiu quando disse isso a deixou chocada. O que ela havia dito que o deixara to zangado? Como bab de Angelina tinha
todo o direito de ficar preocupada com ela. Ou no? Afinal, no fora para isso que ele a contratara? Talvez estivesse com cime... com medo de que a menina se afeioasse
demais a ela.
      Irritado, Marco pensava na facilidade que Alice tinha para tocar seu corao. Pelo curto perodo de tempo em que Patti vivera com Angelina, nunca a vira expressar
preocupao com seu beb. E ali estava Alice, que mal a conhecia, mostrando-se to apreensiva em relao ao que acontecia com a garota.
      Fora contratada para isso, ele disse a si mesmo com severidade. Por essa nica razo. Assim como a nica razo pela qual ele estava ali, ao invs do motorista,
era Angelina.
      - Voc mencionou que Angelina precisava de algumas roupas. J que o mdico disse que voc est bem, talvez possamos ir a Florena agora de manh e escolher
algumas peas, o que voc achar mais adequado.
      Ser que ela fora tola o suficiente para imaginar que ele havia vindo busc-la por alguma razo pessoal?
      Aquela seria uma lio dura de aprender. Mas de todo modo, por que deveria se importar? Marco no significava nada para ela. Ela nem mesmo gostava dele.
      Uma hora depois, balanando a cabea ao rejeitar mais um modelo em uma loja de confeces para bebs, Alice j se sentia irritada com aquela quantidade de
modelos lindssimos e sem a menor praticidade para um beb pequeno.
      Enquanto caminhavam pela rua, cruzavam apenas com mulheres italianas, elegantes, bem vestidas. Marco,  claro, tambm estava impecavelmente vestido.
      Pai e filha formavam claramente um par, enquanto ela... comeava a se sentir mal em sua roupa simples e fora de moda.
      - Melhor voltarmos logo para o palazzo - disse a Marco. - Angelina logo estar com fome.
      - Eu sei. Trouxe duas mamadeiras comigo. Esto aqui - ele respondeu, indicando a sacola acolchoada atada ao carrinho.
      Alice no conseguia conter o mau humor. Alm de tudo, ele ainda queria usurpar seu papel. A pergunta sobre como havia preparado aquelas mamadeiras estava na
ponta de sua lngua, mas de algum jeito ela conseguiu se controlar. Angelina era filha dele, lembrou a si mesma, e deveria sentir-se grata por ele ter tido pelo
menos a preocupao de providenciar as mamadeiras.
      - Acho que podemos andar mais meia hora e depois parar um pouco para descansar - Marco disse. - H um hotel aqui perto e conheo o dono.
      Claro que conhecia, Alice pensou enquanto dobravam a esquina e se deparavam com uma grande feira de artesanato. Os olhos dela brilharam.
      - Finalmente! Acho que aqui encontraremos o tipo de roupa de que Angelina precisa.
      Para sua surpresa, ao invs de imediatamente recusar-se a dar mais um passo. Marco acenou afirmativamente com a cabea e comeou a caminhar em direo  primeira
barraca.
      A feira estava muito movimentada, as pessoas se acumulavam em frente s barracas, nas quais se viam plaquetas de "preos de fbrica" e "liquidao". Havia
uma infinidade de casaquinhos, sapatos, camisetas pintadas a mo. Muitos turistas, grupos com guias e at duas senhoras vestidas de um jeito extravagante se misturavam
em uma ruela que seguia  direita, com inmeras outras barracas.
      Alice estava quase virando quando sentiu a mo de Marco em seu brao. Virou-se, esperando ouvir a proposta de que voltassem e fossem fazer compras em outro
lugar. Mas para sua surpresa, ele disse com firmeza:
      - Este lugar  interessante e eu venho sempre aqui. Mas por favor, fique bem perto de mim, porque j vi muitas pessoas serem roubadas. Eu no gostaria que
voc fosse vtima de um ladro.
      Ele se preocupava com ela! Enquanto o ouvia, Alice podia sentir o toque que queimava sua pele. Ficava sempre chocada com o modo como reagia a ele. Um simples
toque e seu corpo todo parecia ferver!
      Por azar, o fluxo intenso de pessoas naquele espao apertado empurrou-a para cima de Marco, e ela foi obrigada a apoiar-se nele para no cair.
      Um arrepio perpassou seu corpo quando sentiu que seu ventre se encostava ao calor das coxas dele. Cada ponto sensvel de seu corpo parecia responder  proximidade
de Marco com uma intensidade que nunca havia imaginado sentir.
      Procurou no olhar para ele enquanto se afastava. Sabia que seu rosto estava corado e esperava que ele pensasse que se tratava apenas do calor do sol.
      Rapidamente, Alice continuou a caminhar pela rua, s parando quando ouviu a voz dele.
      - Espere! Venha por aqui - Marco orientou, conduzindo-a a uma das barracas.
      A princpio, Alice imaginou que ele houvesse visto uma barraca interessante de roupas de beb, mas no. Ele a estava conduzindo a uma outra onde se viam os
mais diversos tipos de chapus
      - Voc precisa de um destes - ele disse com firmeza. - Quem sabe consegue proteger seu rosto desse calor.'
      Alice concordou sem pestanejar. Mas ao olhar com cuidado para os chapus, percebeu que nenhum deles era para ser usado em casa, no jardim. Eram carssimos!
      Como se percebesse imediatamente o que ela estava pensando, a dona da barraca comeou a conversar com ela em ingls.
      - Esse chapus so de um dos mais famosos designers italianos. Ele tem uma fbrica no muito longe daqui, e estes so...
      - Amostras - Alice completou em seu idioma ptrio, percebendo que a mulher no conseguia encontrar a palavra. Traduziu ento o que dissera para o italiano.
      - Oh, voc fala italiano?
      - Sim. E esses chapus so lindos, mas so muito caros para mim. Receio que...
      - Oh, mas experimente-os - a mulher insistiu. - So de tima qualidade, e eu garanto a voc que valem o preo.
      Antes que Alice pudesse interromp-la, j estava com um chapu firmemente colocado na cabea. Um modelo leve, de palha naturalmente colorida, flexvel como
se fosse feito de tecido. Quando Alice olhou-se no espelho, foi forada a concordar que o chapu parecia ter sido feito para ela.
      A moa comeou a enumerar as vrias qualidades do chapu, e Alice fazia gestos negativos com a cabea. De repente, Marco se adiantou e decidiu:
      - Ns vamos levar esse.
      Ele j estava tirando o dinheiro da carteira quando a vendedora tentou persuadi-lo de que Angelina tambm precisava de um chapu.
      - Para ficar bonita como a mame! - ela exclamou.
      Mame! Alice tentou desviar o olhar, mas ele acabou se cruzando com o de Marco.
      O que estava acontecendo que fazia com que seu corao ficasse apertado e doesse tanto? Um desejo secreto de que Angelina, a quem ela j amava tanto, fosse
sua filha... ou um desejo ainda mais secreto de que Marco fosse o pai de seu filho?
      Como ela podia ter tais pensamentos? Aquela dor de cabea havia causado mais danos do que ela pensara. Essa era a nica explicao para que ela estivesse deixando
que aqueles pensamentos florescessem.
      Quando eles se afastaram um pouco da barraca, Alice comeou a procurar em sua bolsa o dinheiro para pagar a Marco.
      - O que est fazendo? - ele perguntou, ao perceber seu movimento.
      Quando Alice lhe disse, ele parou de andar e franziu o cenho.
      - O chapu  um artigo necessrio para o seu trabalho, e uma vez que trabalha para mim, eu pago por ele!
      - No, eu no posso deixar que faa isso.
      - No tem que deixar ou no deixar - ele retrucou, segurando seu brao enquanto continuava. - Veja, ali tem uma loja com roupas de beb.
      Distrada, Alice olhou para a direo que ele apontava. Cinco minutos depois, ela dizia entusiasmada:
      - Esse  exatamente o tipo de roupa que ela precisa.
      - timo. Separe o que achar necessrio.
      Com cuidado, Alice escolheu vrias peas, balanando a cabea negativamente quando Marco pegou um macaco.
      - No, essa cor no combina com ela.
      O sorriso terno que curvou os lbios dele a pegou desprevenida. Era dirigido a Angelina, disse a si mesma, no a ela. Como poderia ser para ela?
      - Tem certeza de que j  o suficiente? - Marco perguntou quando ela terminou.
      - Tenho sim. Angelina est crescendo, seria tolice comprar muita coisa.
      Angelina, que havia adormecido no carrinho, comeava a acordar, e a experincia disse a Alice que logo estaria com fome.
      - Se aquele hotel que voc mencionou no estiver muito longe - ela comeou a dizer a Marco enquanto ele pagava a conta -, acho que  melhor irmos para l.
      Quando Angelina ouviu a voz dela, virou-se para olh-la, balbuciando, reclamando, para ser pega no colo. Alegremente, Alice levantou-a do carrinho, dizendo:
      - J vai tomar sua mamadeira, querida.
      Acomodando-a em seu ombro, Alice voltou a andar pela loja. Quando Marco se aproximou, percebeu que a pequena j se ajeitava para testar seu novo dentinho no
pescoo de Alice.
      - No, no, voc no vai fazer isso, mocinha!
      Ele apressou-se a levant-la para impedir que Angelina mordesse Alice. O que as pessoas da loja estariam pensando? Ser que percebiam que Alice era apenas
a bab de Angelina ou pensavam que ela e Marco formavam um casal?
      Irritada com o rumo que seus pensamentos insistiam em tomar, Alice se perguntava o porqu daquilo. J era ruim o suficiente que estivesse to apaixonada por
Angelina, iria apaixonar-se por seu pai tambm?
      Apaixonar-se por Marco? Ela? No, isso estava totalmente fora de questo. Quando se apaixonasse, seria por um homem com quem se sentisse  vontade, confortvel,
e no com um homem arrogante, com ares de gal de cinema, que tinha um casamento infeliz em seu passado, e cuja atitude para com a filha era...
      Alice percebeu que no sabia mais qual era a atitude de Marco para com Angelina. Naquele momento, tratava-a to naturalmente quanto um pai dedicado a sua filha.
      - O hotel fica no final desta rua.
      Percebendo que Marco a esperava para atravessarem a rua juntos, Alice procurou deixar de lado os sentimentos e pensamentos perturbadores.
      Quando entraram no hall do luxuoso hotel minutos depois, ela percebeu que estava atraindo mais do que um olhar de interesse e admirao de um homem que passava
ao lado deles.
      Sem na verdade se dar conta do que estava fazendo, Alice instintivamente se aproximou um pouco mais de Marco e Angelina. Nesse instante, pde ver que ele franzia
o cenho.
      Por que no queria que ela se aproximasse tanto?
      Apesar de sua expresso, entretanto, no fez nenhum movimento para se afastar dela, e pouco depois colocou uma mo em seu ombro para apontar-lhe uma mesa a
um canto, convidando-a a sentar-se e tomar um caf.
      Naturalmente, continuou dizendo-lhe que dali poderiam continuar a apreciar a rua movimentada, e teriam tambm uma bonita vista do rio.
      - Temos de pedir logo que aqueam a mamadeira de Angelina. Preciso tambm trocar a fralda dela.
      - Deixe por minha conta - ele disse, antes de perguntar: - Voc gostaria de tomar uma xcara de caf antes de pedirmos o almoo?
      - Seria timo - Alice concordou, concentrada em tirar Angelina do carrinho e sent-la com segurana entre sua cadeira e a janela.
      Quando Marco retomou, Alice estava conversando docemente com a menina, que parecia prestar toda a ateno no que dizia, o olhar fixo em seu rosto.
      Ele parou por um segundo a observ-las, fazendo uma careta ao ter certeza do que no podia mais esconder de si mesmo. Seus filhos dificilmente seriam to loiros,
e ele tinha dvidas se queria ou no que suas filhas herdassem os lbios rosados e convidativos da me... Se isso acontecesse, seria eternamente atormentado por
cada rapaz que as visse, exatamente como se sentia atormentado naquele momento...
      Alice se virou e olhou para ele. Seu corao bateu ainda mais forte dentro do peito quando encontrou seu olhar. Por que Marco a olhava daquele jeito?, pensou
intrigada. Como se... como se...
      - J conversei com o gerente, ele vai colocar um quarto a nossa disposio para que voc possa cuidar de Angelina quando terminar seu caf.
      Alice tentou no parecer impressionada.
      - Tambm pedi o caf - Marco disse, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado dela.
      Quando ele se inclinou para brincar com Angelina sua coxa roou na dela. O tempo pareceu disparar. Imagens explicitamente sensuais se formavam rapidamente
na mente de Alice, que ficou chocada com a vivacidade que tinham e com a intensidade do sentimento que as acompanhava. Ela nunca havia sentido aquele tipo de excitao
por um homem, nunca havia se sentido to estimulada sexualmente!
      Como aquilo podia estar acontecendo? Em um momento ela o achava o ser mais antiptico e desprezvel do mundo. No outro, seu corpo todo tremia pelo despertar
de um desejo sensual feminino. Tudo o que queria era toc-lo, sentir sua boca, abra-lo.
      O caf chegou e Alice mal percebeu o olhar de admirao que o jovem garom lhe dirigiu. A fora dos sentimentos que nasciam dentro de si era to grande que
prendia toda a sua ateno.
      Como aquela incmoda transformao havia ocorrido? Que ela houvesse instantaneamente se apegado a Angelina era at natural, compreensvel, era um beb que
precisava de seu amor. Mas por que ser que seu tolo corao ousava acreditar que tambm  o pai dela poderia querer ou precisar de seu amor?
      - Seu caf est esfriando...
      O modo quase crtico com que Marco falou a fez perceber o quanto estava sensvel a qualquer variao de entonao dele.
      - Angelina deve estar com vontade de tomar a mamadeira - ela procurou disfarar sua distrao.
      - Deixe que eu a seguro - Marco ofereceu. Em seguida chamou outro garom e lhe deu instrues para que se apressasse com a mamadeira, aproveitando tambm para
pedir o cardpio. - A porpeta com macarro ao sugo  a especialidade deste restaurante.
      Mas se voc preferir outra coisa... um peixe, ou...
      - No, no, pea o mesmo que vai pedir para voc. Eu gosto de carne, de vez em quando - Alice assegurou-lhe, sorrindo quando do viu que o garom j retornava
com a mamadeira de Angelina.
      Pegando-a dos braos de Marco, ela acomodou-a confortavelmente em seu colo, sorrindo novamente quando ela comeou a sugar ruidosamente o bico de borracha.
      - Ela j est se alimentando muito melhor! - disse entusiasmada a Marco. - Os bebs so muito sensveis s emoes da pessoas que esto a sua volta. Ela devia
estar sentindo que  Maria ficava muito aflita ao aliment-la. E deve ter sentido muito tambm a falta da me - acrescentou, a voz quase falhando quando percebeu
que Marco tambm devia estar sentindo a falta da esposa, da me de sua filha. Madalena comentara que o casamento no corria bem, mas mesmo assim...
      - Falta da me! Eu acho que no - Marco respondeu prontamente, a voz transmitindo raiva e surpreendendo Alice. - Patti nunca quis ter Angelina, e depois que
ela nasceu passava com ela o mnimo tempo possvel. Chegou a pedir ao mdico que adiantasse a data da cesariana para que no perdesse um evento de moda ao qual queria
comparecer.
      O desgosto na voz dele era evidente. No, no havia mesmo mais amor entre o casal quando Patti falecera, Alice teve certeza.
      Por alguma razo seus olhos brilharam, cheios de lgrimas. Piscando, ela passou o dedo carinhosamente pelo rosto de Angelina, que sugava a mamadeira.
      - Ela  to adorvel, to preciosa... Eu no posso... - Alice comeou, mas no pde continuar porque a emoo embargou sua voz. Havia coisas que ela no devia
dizer. No seria justo nem mesmo com a mulher que estava morta e que no podia mais se defender. Alm disso, Marco era seu patro, e seria um atrevimento fazer qualquer
comentrio sobre sua vida pessoal.
      O almoo foi servido, e Angelina terminou de tomar a mamadeira. Enquanto a colocava de volta no carrinho, Alice viu que o garom lhe servia vinho e arregalou
os olhos. Ela no costumava beber no almoo, mas no havia por que fazer uma desfeita. Alm disso, o vinho era maravilhoso, ela descobriu depois do primeiro gole.
Os italianos, como os franceses, apreciavam uma boa comida e tornavam cada refeio uma ocasio especial.
      Todas as mesas do restaurante estavam ocupadas, algumas por executivos, outras por senhoras elegantes carregadas de sacolas de compras, e algumas por famlias...
como a que estava ao lado da mesa deles. Alice reparou que a moa tinha tambm um filhinho pequeno e olhava com ateno para Angelina. O que ser que imaginava?
Que ela era a me?
      - No, no agento mais! - Alice protestou, recusando uma ltima xcara de capuccino. J havia devorado um prato cheio de fetuccine ao sugo com as almndegas
e j tomara uma enorme taa de sorvete. Sem contar o clice de vinho tinto seco que a tinha deixado deliciosamente relaxada! Embora no to relaxada a ponto de esquecer
de suas obrigaes.
      - Acho melhor eu subir com Angelina para troc-la.
      - Est bem.
      Quando ela se levantou. Marco a imitou, ajudando-a a manobrar o carrinho por entre as mesas at o elevador.
      - Estamos no quarto andar - ele disse a Alice, pressionando o boto e tirando do bolso uma chave antiga. - Este hotel originalmente era uma residncia - ele
explicou, quando parou em frente a uma das portas. - As alteraes foram mnimas na reforma, tentaram manter o mximo possvel como era originalmente. Fui eu que
coordenei os trabalhos.
      -  maravilhoso, Marco. Voc  muito talentoso - Alice comentou quase emocionada, observando os corredores com ornamentos de gesso no teto e nas paredes, as
cermicas antigas formando lindos desenhos.
      Marco abriu a porta do quarto e ficou de lado para que ela entrasse. O cmodo era amplo, com uma enorme cama de casal no centro. Atravs da porta que dava
para a sacada, tinha-se uma vista maravilhosa do rio.
      - Vou trocar Angelina no banheiro - disse a Marco um tanto embaraada.
      Por alguma razo, no esperara que ele a acompanhasse at o quarto, e sentia-se ao mesmo tempo nervosa e agudamente consciente de sua presena. No havia nenhum
motivo racional para aquilo. Mas com certeza havia um motivo.
      O banheiro era amplo como o quarto. A loua era branca, brilhante, os azulejos antigos, lindamente decorados. Atravs da porta entreaberta, Alice pde ver
que Marco fazia uma ligao no celular. Ficou tensa ao ouvi-lo perguntar quando a Ferrari estaria pronta.
      Beijando a pele alva de Angelina, ela comeou a vesti-la rapidamente.
      - Voc  muito linda, eu vou morder voc... - Alice conversava ternamente com a beb.
      Marco a ouviu. O que tinha aquela mulher que a fazia to instintivamente maternal e ao mesmo tempo to feminina, to sexy? Apenas ouvi-la j o deixava  transtornado,
cheio de desejo. A idia de Alice ser a me de seu prprio filho invadia sua mente a todo instante.
      As palavras dela para Angelina soavam como um eco das palavras que ele  prprio queria dizer a Alice. E no apenas dizer, ele constatou sorrindo, ao mesmo
tempo que ouvia o mecnico dizer que a Ferrari estava quase pronta para ir para a coleo.
      Marco ficou tenso quando viu Alice saindo do banheiro com Angelina nos braos.
      - Acho que j estamos prontas para ir embora - avisou enquanto andava em direo ao carrinho.
      Quando o alcanou, Angelina se voltou para ela, aninhando-se em seu peito. Marco sabia que aquela era uma reao instintiva do beb, e igualmente instintiva
foi sua reao  cena. Angelina podia no ser sua filha, mas para ele era como se fosse. E observar o modo carinhoso como Alice lidava com ela o enternecia de um
jeito que ele julgava ser impossvel antes de conhec-la.
      Segundos depois de ser acomodada no carrinho, a pequena j dormia. Sorrindo, Alice se afastou dela alguns passos e ento levou um susto quando tocou em algo
slido. No tinha percebido que Marco estava bem atrs dela. Automaticamente comeou a virar-se, para em seguida desejar no t-lo feito, j que Marco no se moveu.
      Alice desejou estar a quilmetros de distncia dali, ao mesmo tempo que desejava que Marco estivesse um milho de vezes mais prximo.
      - Por que est me olhando assim? - ela perguntou com a voz trmula, dizendo a primeira coisa que lhe veio  mente. - Se  por causa do seu carro, posso pagar
pelo conserto - acrescentou, o queixo arrogantemente empinado.
      - No ligo a mnima para a Ferrari. Isso no tem nada a ver com aquele carro.
      A emoo vibrava entre eles como raios de eletricidade, mas teimosamente Alice se recusava a admitir aquilo.
      - Ento... o que ? - Sua voz falhou enquanto tentava se afastar. Marco segurou-a pelo brao com uma mo e pelo ombro com a outra, no apenas apoiando-se,
mas massageando, acariciando... Incapaz de resistir, Alice fechou os olhos, gemendo baixinho.
      Aquilo no podia estar acontecendo. O desejo que sentia no podia ser real.
      Sem ao, ela olhou para ele. A viso da boca de Marco a fez sentir-se ainda mais fraca, incapaz de afugentar o prprio desejo, confusa. Queria sentir o calor
daquela boca, traar seu contorno com os dedos, com os lbios, com a lngua...
      Como se tudo estivesse acontecendo em cmara lenta, observou paralisada quando ele inclinou a cabea em sua direo, a boca se aproximando da sua, o corao
batendo desesperadamente dentro do peito, o corpo tremendo da cabea aos ps enquanto ele deslizava os dedos por seus cabelos e lhe apoiava a nuca, o polegar massageando
a pele macia e sensvel atrs da orelha.
      Ento, com uma mo ele tocou-lhe um seio, e no mesmo instante ela sentiu a urgncia de se livrar das roupas para senti-lo tocar sua pele nua. Como se pudesse
ler sua mente, Marco puxou-1he a camiseta para cima e logo libertou os seios do pequeno suti rendado. Com o polegar ele acariciou lentamente os mamilos rosados,
levando-a  loucura. Alice antecipava o momento em que ele sugaria seus seios, excitado.
      Marco era tudo que ela queria.
      O grito agudo de Angelina foi como um jato sbito de gua fria sobre o calor do desejo que os dominava. Ambos olharam no mesmo instante para o carrinho e ficaram
paralisados.
      Foi Alice quem primeiro conseguiu sair do transe, ajeitando de novo a camiseta, o rosto queimando de vergonha. Logo j estava com Angelina nos braos, caminhando
at a janela e confortando-a aliviada por no ter de olhar diretamente para Marco por alguns instantes.
      O que ele estaria pensando? Estaria to chocado quanto ela com o que acontecera, ou cinicamente pensava na facilidade que tivera em seduzi-la, certo de que
na prxima oportunidade conseguiria us-la?
      Bem, ningum iria culp-lo por tentar satisfazer seus desejos sexuais, j que estava agora vivo. Mas o seu comportamento, as pessoas veriam de uma outra forma.
Era injusto, mas era assim. Alice tinha conscincia disso, quando disse a Marco sem se virar.
      - Vou lev-la para baixo.
      No havia mais como negar a si mesma que, sem saber como, havia se apaixonado por ele.



      CAPTULO VII


      Alice sentia-se sufocada, mal podia respirar. Era como se a efervescncia de suas emoes sugasse toda sua energia e tambm o oxignio do ar em torno dela.
      Por sorte j estavam chegando ao palazzo. Mais um minuto dentro daquele carro com Marco, sem dizer uma palavra, e ela comearia a gritar de desespero!
      Quando pararam no hall da entrada, Madalena veio correndo ao encontro deles, como se aguardasse ansiosamente seu retorno.
      - Conde... - ela comeou em uma formalidade no usual. - algum o espera.
      - At que enfim! - uma voz spera de mulher se fez ouvir. - Esperei quase o dia inteiro para ver minha neta, e essa criatura nem ao menos me ofereceu um copo
de gua. Mas eu j devia saber, no , Marco? Tal senhor, tal servo!
      Alice instintivamente deu um passo para trs, afastando-se da mulher que surgira da sala. Era alta e elegante, as roupas caras e bem-feitas, mas no adequadas
a sua idade. A pele de seu rosto parecia to apertada contra os ossos que Alice pensou imediatamente que qualquer cirurgio plstico que zelasse por sua reputao
ficaria preocupado com aquilo.
      A mulher dirigiu a Marco um olhar fulminante, ignorando completamente a presena de Alice, e perguntou em tom dramtico:
      - Onde est minha querida e preciosa neta? Onde est ela? Voc no tem o direito de impedir que eu a veja!
      - Acalme-se, Francine.
      Alice sentiu imediatamente o tom frio e cortante na voz de Marco interrompendo a exibio da outra.
      - Acalme-se? Minha filha est morta graas  habilidade de seu primo na direo, e voc est tentando roubar minha neta de mim! No vou deixar que continue
com isso, Marco. Tenho certeza de que o juiz vai concordar que o lugar dela  ao meu lado. Alm disso, meu lao de sangue com ela  mais forte que o seu. Voc 
apenas um primo em segundo grau, enquanto eu sou av - ela disse em tom de triunfo, enquanto Alice a observava atnita.
      O que ela estava dizendo? Marco no era o pai de Angelina?
      - Voc pode ser a av - ele concordou, deixando Alice totalmente confusa. - Mas foi a mim que o pai dela escolheu para ter a guarda.
      - Oh, Marco, voc me deixa exasperada! - A mulher, a quem ele havia chamado de Francine, parecia furiosa. - Aldo nunca quis essa criana.
      - Talvez no - Marco concordou friamente. - Mas sua filha tambm no a quis, e eu me lembro dos seus conselhos para que ela interrompesse a gravidez. Mesmo
que Aldo no houvesse planejado ser pai, recusou-se a impedi-la de nascer.
      - Patti estava perdendo a chance de sua vida. Recebera uma proposta para estrear em um filme, no entende?
      Alice percebeu a tenso no rosto de Marco e pde sentir a raiva contida em sua voz quando respondeu duramente:
      - Se voc pensa que, de alguma forma, eu vou permitir que voc tenha qualquer influncia sobre a vida de Angelina, depois de ter arruinado a vida de sua prpria
filha por razes egostas, est muito enganada.
      - Do que est falando?! - Francine gritou. - Fiz tudo o que pude por Patti. Tudo! Coloquei-a em aulas de dana, levei-a a todas as audies, paguei para que
ela melhorasse seu corpo. Tudo. Fui eu quem a ajudou e a encorajou, fui eu quem...
      - Quem a ajudou e encorajou para qu? - Marco a interrompeu mordazmente. - Para posar seminua para revistas baratas? Se voc a amasse como me... No vou permitir
que influencie Angelina, Francine. Mesmo porque sei que sua preocupao com ela no existe. No pense que esqueci que voc nem mesmo perguntou por ela no enterro
de sua filha. E que ficou no pas por menos de duas horas!
      -Eu no conseguia aceitar a morte de Patti. Eu estava doente ela era tudo para mim. E eu quero criar a filha dela... minha neta - Francine disse de maneira
arrogante. - Angelina  uma menina. Precisa da influncia de uma figura feminina em sua vida. Voc pode ter ainda a guarda dela, mas eu sou a parente mais prxima.
Ela precisa de mim!
      O tom de voz dela se tornava cada vez mais histrico.
      - Maria entrou em contato comigo para dizer o quanto estava preocupada com a menina. Contou-me o modo como voc, sabendo que estava doente, se recusou a chamar
um mdico at que ela lhe implorou para que o fizesse. Contou-me que voc a despediu, a pessoa que a prpria me de Angelina havia escolhido para cuidar dela, e
que contratou um outra bab... Posso ver por quais motivos. - Francine mediu Alice de alto a baixo. - Fica bvio que sua preocupao maior no  com Angelina.
      Os olhos de Marco transmitiam toda a fria que sentia, e Alice no podia culp-lo. Ela estava ainda tentando assimilar a idia de que ele no era o pai de
Angelina. Justamente naquele momento, quando Alice j estava certa do amor que ele tinha pela criana, descobria que no era o pai?
      - Um homem no pode criar adequadamente uma menina - Francine disse com convico. - Muito menos no sendo o pai. Tenho certeza de que o juiz jamais concordar
com esse absurdo.
      Ela fez uma pausa e fitou-o com um olhar cnico.
      - H questes morais a ser consideradas.
      - Seja acabou seu discurso... - Os olhos de Marco a fuzilavam.
      - No, Marco, no acabei. Quero Angelina e vou ficar com ela. No h nenhum modo de voc me impedir - disse, num tom de voz mais controlado. - Devo dizer que
fiquei surpresa quando soube que Aldo, sendo to jovem, possua tantos bens, uma vez que mantinha minha pobre Patti em uma vida quase miservel. Fiquei boquiaberta
quando veio  tona que ele era milionrio.
      - Agora comea a fazer sentido seu interesse por Angelina, no , Francine? Para sua informao, todos os bens de Aldo eram apenas para seu usufruto. Ele no
podia dispor deles.
      - Mas agora pertencem a Angelina!
      O olhar maligno de Francine, que ela no fazia mesmo questo de esconder, deixava Alice nauseada. Ficava claro por que Marco havia sido to duro com ela e
tentava proteger a menina da prpria av. No lugar dele, Alice teria feito o mesmo.
      - Teoricamente sim, porm ningum vai poder mexer em seu capital at que ela seja maior de idade.
      O modo frio mas controlado com que Marco respondia a Francine fez com que Alice tivesse noo de sua fora interior. Ele no se deixava envolver em seu jogo
dramtico.
      - No,  claro que no. Mas como av dela, o juiz me permitir utilizar o que for necessrio para seu sustento - Francine disse abertamente, com um sorriso
de triunfo.
      Voltando-se novamente para Alice com um olhar de desprezo, ela continuou:
      - Ento, voc  a nova bab? - Ela soltou um suspiro. - Deve estar sentindo muito a falta de Maria. Vou para o meu quarto, Marco. Por favor, pea que me levem
alguma coisa leve para comer. Recuso-me a tentar falar com essa sua criada empertigada. E voc, bab, leve minha neta at mim. Depois de trocada e alimentada, claro.
      Em seguida dirigiu-se s escadas sem perder sua teatralidade.
      Esgotada, Alice olhou para Marco. Entendia ento por que Madalena dissera que nem o pai nem a me de Angelina se preocupavam com ela.
      - Angelina precisa mamar - ela disse a Marco.
      Felizmente, a garota dormira durante a discusso, e apenas naquele momento acordava, seu olhar pousando confiantemente no rosto de Alice.
      - Vou subir com vocs - Marco anunciou abruptamente - Quero conversar sobre um assunto com voc.
      Enquanto tirava Angelina do carrinho, o corao de Alice ameaava saltar pela boca. Torcia para que ele no quisesse lhe falar do que acontecera naquela tarde,
no agentaria mais isso.
      O quarto de Angelina pareceu-lhe dessa vez aconchegante e familiar. Alice ia colocar a pequena no bero, mas Marco a deteve.
      - No, deixe-me segur-la.
      Ela devia ter estado cega quando cogitou a idia de que ele no amava aquela menina, Alice refletiu ao reparar no modo como ele a olhava. Via-se forada a
admitir aquilo para ele, sentindo-se muito mal por hav-lo julgado erroneamente.
      - Eu no sabia que voc no era o pai de Angelina.
      - Pensou que fosse minha filha? - Ele parecia confuso.
      - Ela se parece com voc - Alice se justificou. - E quando a agncia me informou que havia perdido a me em circunstncias trgicas, no disseram... - Ela
mordeu o lbio, sua voz desaparecendo quando viu a dor nos olhos dele.
      - Aldo era meu primo, meu primo mais novo, e ramos muito prximos, como irmos. Ns dois perdemos nossos pais naquele acidente.
      Ele fez uma pausa, sua expresso to sofrida que Alice queria dizer alguma coisa para confort-lo. Mas o qu? Que direito ela tinha de dizer qualquer coisa?
      - Tenho de admitir que Aldo era um tanto irresponsvel... Aconselhei-o a no se casar com Patti, ela era to diferente dele! - Marco parecia infeliz. - Mas
Aldo era teimoso, dizia que era dono de sua vida. Eles tinham objetivos diferentes na vida, mas o principal era que nenhum dos dois estava preparado para o casamento.
      Mas no escutaram ningum, estavam apaixonados... ou pelo menos diziam que estavam.
      - Mas voc no achava que isso era importante - Alice o provocou, arrependendo-se em seguida ao ver o modo como ele olhou para ela.
      - Eu no disse isso. Amor  sempre importante... mas a interpretao que faziam de "amor" no era a mesma que a minha. Fiquei muito triste quando Aldo confirmou
minha previso... Queria que se acertassem, Patti j estava grvida de Angelina.
      Quando ele citou o nome da menina, Alice no se conteve.
      - O que vai acontecer, Marco? Acha que ela tem chance de tir-la de voc? - perguntou-lhe incerta.
      - No enquanto eu estiver ainda vivo e respirando - Marco assegurou-lhe veementemente.
      - Mas ela tem o direito de apelar para a justia...
      Por que ele demorava a responder? Que hesitao era aquela em seus olhos?
      - E verdade, ela  a av de Angelina e eu nunca fui nomeado legalmente guardio - Marco reconheceu. - Sou um homem solteiro, que no tem nenhuma experincia
em cuidar de crianas. Receio que neste mundo em que vivemos seja necessrio questionar a motivao de um homem para criar uma criana que no  sua, e alm de tudo
sozinho, sem uma esposa.
      Alice tentava digerir silenciosamente o que ele estava dizendo. Ela sabia, claro, o que ele no queria colocar em palavras. E tambm sabia quem era a melhor
pessoa para proteger Angelina.
      - Francine nasceu atriz e tem a capacidade de esconder sua real personalidade quando a ocasio exige. E de lanar veneno onde sente que  necessrio, como
a respeito de meus motivos para querer que Angelina fique comigo. E nem o juiz, nem ningum de bom senso, vai querer correr o risco.
      Alice sentiu o corao bater mais forte, com um tipo de receio que ainda no entendia bem.
      - Com certeza deve haver algo que se possa fazer... algum jeito? - comeou, balanando a cabea enquanto falava com severidade.
      - No pode deixar que ela leve Angelina.
      No havia dvidas em sua mente. Angelina no podia ficar com a av, em quem de pronto Alice no confiara. Embora no demonstrasse. Marco estava to apreensivo
quanto ela.
      Ansiosa, ela esperou por sua resposta, mas no pde deixar de expressar em voz alta seus pensamentos.
      - Se pelo menos voc fosse casado... ela certamente no tentaria nada.
      Marco ficou tenso e fitou-a com um olhar profundo. Ela estava certa, claro. Se ele tivesse uma esposa, no haveria como Francine alegar motivos escusos para
seu desejo de criar Angelina.
      - No - ele concordou, fixando o olhar em Alice. - Ela  no poderia.
      Alguma coisa no modo como Marco a olhava fez com que seu corao se acelerasse ainda mais.
      - O que... o que foi? - perguntou ela, incerta.
      - Acho que voc conseguiu uma soluo para o problema - Marco aprovou. - Eu deveria ter descoberto isso sozinho - continuou, mais como se estivesse falando
consigo mesmo do que com ela. - Pensei que contratando para Angelina uma bab recomendada, eu estaria fazendo o melhor que podia por ela, mas percebo que meu pensamento
foi falho. O que Angelina precisa para proteg-la neste momento no  uma bab, mas uma mulher que a ame e que preencha realmente o lugar de sua me... e acho que
no h ningum melhor para ocupar esse lugar que voc, Alice.
      Alice sentiu que precisava sentar. Sua cabea girava, as pernas fraquejavam, seu corao parecia desgovernado, to grande fora o choque que ainda reverberava
por todo o seu corpo. Seus lbios estavam secos e seu corpo tremeu ao perceber que o olhar de Marco estava fixo no modo nervoso como apertava as mos.
      - O que... o que est tentando dizer? - perguntou, suspeitando que sabia a resposta que ele daria.
      - Para proteger Angelina de Francine eu preciso de uma esposa. Voc mesma  disse isso! Sob estas circunstncias, quem melhor para ser essa esposa que voc?
      - O qu? - Mesmo esperando que ele dissesse aquilo, ainda ficou chocada. - No - Alice murmurou. - No posso. No posso!
      - Sim, podemos. Temos de fazer isso - Marco insistiu. - Pelo bem de Angelina.
      Se ela ainda tivesse alguma dvida sobre o amor que Marco sentia pela criana, o que escutava naquele momento faria com que se desvanecesse, Alice reconheceu.
      Ali estava um homem totalmente dedicado a proteger a criana que considerava como sua, disposto at a casar-se com uma mulher que no amava, por ela.
      Ela tambm amava Angelina... Poderia fazer menos?
      - Pense sobre isso - Marco insistiu. - Quanto mais eu penso na idia, mais sentido faz para mim.
      - Eu entendo o que est dizendo. - Alice foi forada a concordar. - Mas... casamento?
      O rosto dela estava plido e Marco tentou adivinhar o que ela estava pensando.
      - No que diz respeito a ns, ser um simples acordo de negcios - ele explicou calmamente. - Um acordo que poder acabar depois de um perodo, cinco anos como
seu contrato, ou quanto quer que escolha. Eu suspeito que depois desse tempo Francine j ter perdido o interesse, e ter encontrado algum mais que possa lhe prover
tales de cheque assinados. Talvez um rico produtor de cinema - ele acrescentou friamente. - E Angelina j estar na escola.
      - No, ...  impossvel -Alice repetiu com a voz fraca, sabendo que lhe faltava convico.
      - Por qu? - Marco a provocou. - Voc j assinou um contrato concordando em ficar com Angelina por este tempo. Concordando em se casar comigo voc vai apenas
acrescentar mais um item a esse contrato.
      Mais um item? Ele falava de casamento como mais um item? Estaria louco? E justamente um homem com quem ela se sentia to profunda e perigosamente vulnervel.
      Mais um item!
      - Mas estamos falando de casamento e no... no de um contrato de negcios - Alice protestou.
      Quando Marco no respondeu, ela se afastou dele e disse com sua voz firme:
      - Para um homem como voc, vindo da famlia que veio, talvez casamento seja mesmo um acordo de negcios. Mas em minha famlia, para mim... - ela interrompeu
o que dizia e balanou a cabea.
      - Pensei que voc amasse Angelina - Marco disse simplesmente.
      Alice sentiu que fraquejava.
      - Eu a amo - ela admitiu, sem poder resistir a olhar para a pequenina, sabendo que seu corao se derretia de amor por ela. E tambm batia por um adulto, embora
ele com certeza no sentisse o mesmo por ela. - Acho que ainda no pensou bem sobre o que est sugerindo - Alice disse a Marco corajosamente, lutando contra si mesma.
- Voc me conhece muito pouco. Posso no ter as qualificaes ideais para ser a me de Angelina.
      Tinha de encontrar um modo de tornar aquilo mais racional. Um jeito lgico de mostrar a ele que o que sugeria era impossvel.
      Logo relembrou-o aliviada:
      - Alm disso, tentei roubar seu carro.
      - No foi voc - Marco se contraps firmemente. - Foi a moa que estava com voc, e voc assumiu a culpa para proteg-la.
      - Voc sabia! - Alice exclamou, incapaz de esconder seu espanto.
      - Eu sempre soube - ele confirmou.
      - Mas voc nunca disse nada. Voc...
      - Acha que eu realmente teria contratado voc se tivesse acreditado naquela explicao ridcula? - Ele balanou a cabea respondendo por ela. - De jeito nenhum.
Eu a contratei porque pude ver o quanto voc foi leal e protetora com a moa que estava sob seus cuidados. Eu sei que Angelina precisa desesperadamente de algum
como voc. No, no algum como voc. S voc - ele corrigiu com suavidade. - No h ningum como voc, Alice, no para Angelina. No pode desistir dela sabendo
o quanto precisa de voc, sabendo o quanto j est ligada a voc. Ela j perdeu muita coisa em to pouco tempo de vida. A me... o pai...
      Marco estava fazendo de tudo para comov-la, e usava armas muito poderosas, Alice reconheceu, mas se ela tivesse um mnimo de bom senso iria resistir  presso
que ele fazia.
      A questo era se tinha realmente algum bom senso.
      Desde quando uma pessoa apaixonada possua esse tipo de qualidade?, perguntou a si mesma com amargura. E estava duplamente apaixonada, nesse caso... O que
faria?
      - E quanto a voc no ter todas as qualificaes,  uma mentira, porque tem tudo o que Angelina necessita. O seu amor por ela!
      - Isso  uma loucura! - Alice protestou.
      - No! - Marco corrigiu. - Loucura seria deixarmos que Angelina fosse levada e criada por Francine, deixar que sua vida fosse destruda como foi a de sua me.
      Alice sabia que o que ele dizia era verdade. E seguindo a lgica que ele colocava, faria pouca diferena entre ficar com Angelina por cinco anos em razo do
contrato assinado, ou por estar casada com ele apenas no papel.
      Como podia abandonar Angelina quando a pequena precisava tanto dela?
      Mas como podia concordar com um acordo de negcios com Marco quando o amava e o queria tanto? No tivera essa certeza naquela tarde? Sim! Ele era o homem mais
maravilhoso do mundo para se beijar!
      Respirando profundamente, tentou colocar seus pensamentos em ordem, procurando afastar aquelas baboseiras. No haveria mais beijos entre eles, relembrou a
si mesma duramente. Dali para frente haveria apenas o acordo de negcios!
      Marco franziu o cenho quando ouviu uma leve batida na porta de seu escritrio. Era perto da meia-noite e ele estivera trabalhando pelas ltimas trs horas.
      No dia seguinte, antes que pedisse a Francine para ir embora, deixaria muito claro para ela que no haveria como separ-lo de Angelina.
      Pensar em Angelina o fez pensar em Alice, embora isso reavivasse seu desejo de ter seu delicioso corpo nos braos, e sua igualmente deliciosa boca colada 
dele, tal como havia acontecido naquela tarde.
      - Marco, sei que est a.
      Seu rosto ficou sombrio quando Francine entrou.
      - Estive pensando em Angelina - ela disse a Marco friamente. - Ela  minha neta e significa muito para mim, mas posso ver a situao tambm de seu ponto de
vista. Aldo era seu parente mais prximo e seu herdeiro, e ele est morto. - Francine levantou um pouco os ombros. - Posso facilitar as coisas para voc, Marco.
Ou dificult-las.
      Ele a observava sem dizer nada. Agora tinha certeza do motivo real pelo qual viera ao palazzo.
      - Se voc pudesse, por exemplo, colocar uma certa quantia de dinheiro a minha disposio, acho que poderamos chegar a um acordo que beneficiasse a todos.
Estou pensando em termos de... - Ela fez uma pequena pausa e deu novamente de ombros. - Bem, vamos supor, por exemplo, um milho de dlares... Isso no  muita coisa
para voc, Marco. Voc  um homem de posses.
      - Quer me vender sua neta, Francine? - Marco perguntou secamente. - Sei que tentou vender sua filha para quem pagasse melhor.
      - Como ousa dizer isso? - ela o interrompeu com teatralidade.
      - Digo porque ambos sabemos que  a verdade. Voc colocou Patti no mercado de carnes no instante em que teve idade para isso.
      - Ela teve um namorado muito rico quando era modelo.
      - Um namorado rico... - Marco apertou firmemente os lbios com raiva. - Um homem que tinha trs vezes a idade  dela e que era casado. Voc a vendeu a ele.
      - Ela gostava dele! - Francine j estava quase gritando. - Gostava mais de estar com ele do que com o moleque do seu primo. Quando penso nas oportunidades
que perdeu por causa dele... Ela queria deix-lo. Ele lhe contou isso? Estava indo para Los Angeles... Ele a matou!
      - Se algum matou os dois foi voc, Francine. Foi voc quem destruiu o casamento deles com sua obsesso por dinheiro. A histria se repete, no ? Voc vendeu
sua filha e quer me vender a filha dela. Por um milho de dlares, voc disse.
      Lentamente, Marco balanou a cabea. Sentia-se tentado a desistir e pagar, mas sabia que se o fizesse a histria no acabaria ali. Francine voltaria sempre,
querendo mais e mais dinheiro.
      Marco no confiava nela de forma alguma. No gostava dela e sabia que o sentimento era recproco, e que se ela pudesse lhe causar algum prejuzo, ou alguma
dor, no hesitaria. Mesmo que isso significasse prejudicar a prpria neta.
      Francine j gritava com ele, dizendo que o faria pagar por no aceitar sua proposta, que se realmente se importasse com Angelina, se realmente a quisesse,
ficaria feliz em pagar por ela.
      Seguiu-se mais meia hora at que ela percebesse que Marco realmente no concordaria com ela. Retirou-se ento, gritando-lhe insultos e ameaas.
      Marco ouviu-a impassivelmente, e fez a si mesmo a promessa silenciosa de que no iria jamais permitir que Francine submetesse Angelina ao mesmo tipo de abuso
ao qual submetera Patti.
      Era imperativo que se casasse com Alice.



      CAPTULO VIII


      Estaria louca? Que idia era aquela de casamento? Alice acordou pensando. Sonhos ainda se misturavam  realidade.
      Tremendo, levantou-se da cama para ver se Angelina estava bem.
      O beb estava dormindo em paz, em seu bero. Atravs da janela de seu quarto via o cu que adquiria um esplndido tom de azul, o sol que brilhava nos jardins
do palazzo.
      A casa de Marco, que seria sua casa pelos prximos cinco anos! E seria assim de qualquer modo, Alice disse determinada para si mesma. O contrato estipulava
que ela trabalharia para Marco at que Angelina tivesse cinco anos.
      Trabalhar para ele, tudo bem, mas casar-se com ele?
      Poderia sempre mudar de idia, afastar-se dele e de Angelina. Poderia, mas sabia que no o faria. Simplesmente no fazia parte de sua natureza abandonar algum
que precisasse dela, especialmente quando a pessoa em questo era um beb de seis meses.
      E quanto aos seus sentimentos secretos por Marco? Como lidaria com eles pelos prximos cinco anos? Como iria anestesi-lo?
      Diziam que a rotina acabava com o amor. Talvez desempenhando o papel de esposa de Marco por algum tempo, conseguisse acabar com aqueles sentimentos indesejados
e perigosos.
      Ser que Francine viria ao quarto para ver a neta?
      A cabea de Alice estava cheia de questes quando comeou a rotina de trabalho. Angelina acabara de acordar, e Alice, que havia colocado um robe quando se
levantara, pegou-a no colo e sentou-se em frente  janela, brincando e conversando com ela, aproveitando o prazer de estarem juntas logo de manh.
      Duas horas depois o celular de Alice comeou a tocar. Era sua irm e ela ficou preocupada.
      - Alice? - Connie perguntou agitada, antes que Alice pudesse dizer al. - Felizarda! Por que no disse nada? Por que no deu nem uma dica? Olhe, Louise no
ficou surpresa, e disse que os coraezinhos fluram entre vocs desde o primeiro instante em que se viram. No pudemos acreditar quando papai ligou de manh dizendo
que Marco havia lhe telefonado para pedir formalmente sua mo em casamento. Mame e papai j esto aqui, por falar nisso, e querem falar com voc. Estamos esperando
que venha logo. Marco parece adorvel e estamos loucos para conhec-lo. - Connie no fazia uma pausa. - Foi realmente generoso da parte dele colocar um vo a nossa
disposio para irmos at a. Como  a casa dele? Ele chama de palazzo, parece to grande! Louise disse que ele  o mximo!
      A cabea de Alice estava zonza. Marco telefonara para sua famlia passando a notcia de que iriam se casar. Ele formalmente a pediu em casamento a seu pai,
sem nem ao menos avis-la?
      Sua irm estava falando com mais algum, e Alice pde ouvir uma risada.
      - Louise est tentando dizer que no ficou entusiasmada com a idia de carregar as alianas, mas  claro que ficou sim. Ela me mandou dizer que no usar vestido
rosa. Marco tem uma famlia grande? Suponho que deve ter, sendo italiano... Oh,  tudo to romntico! Ele obviamente mal pode esperar para casar com voc. Quatro
semanas. Vai ter de correr! Papai quer falar com voc...
      Atordoada, Alice escutou o que o pai disse, embora ao desligar o telefone no se lembrasse mais de uma palavra do que dissera a ele, ou ao marido de sua irm,
ou a Louise que continuava dizendo que no usaria rosa.
      De seu pai, Alice ficou sabendo que Marco ligara logo cedo para pedir formalmente sua mo em casamento, e para convid-los para a cerimnia que se realizaria
dali a quatro semanas.
      Tomando Angelina nos braos, ela desceu as escadas. Precisava  falar com Marco naquele instante!
      No salo principal encontrou Madalena com uma expresso de felicidade estampada no rosto. Quando a viu correu at ela.
      - O conde nos contou que vo de casar! Fiquei muito feliz! Voc vai ser uma boa esposa para ele e uma me adorvel para este beb lindo! - ela acrescentou
acariciando o rosto de Angelina. - Espero que logo haja outros bebs para lhe fazerem companhia. Outros bebs! Alice digeriu o comentrio em silncio, esperando
que a governanta no notasse o vermelho que tomava conta de seu rosto. Era natural que ela entendesse que Alice e Marco iriam querer ter filhos.
      - Preciso falar com Marco, Madalena - disse aflita  governanta. - Voc sabe onde ele est?
      - Na biblioteca - Madalena disse observando-a, e fazendo com que seu rosto corasse ainda mais.
      - E... e... Francine? - Alice perguntou em voz baixa.
      Havia ficado surpresa quando a mulher no aparecera no quarto para ver a neta. O olhar de Madalena pareceu fulminante quando respondeu:
      - Aquela mulher? Por sorte j foi. E uma pessoa m. Nenhum de ns gosta dela.
      Francine fora embora! Sem fazer nem ao menos uma tentativa de ver Angelina ou de conversar sobre a neta, de perguntar como estava, de checar se Alice estava
cuidando bem dela...
      Alice tentou imaginar algum de sua famlia se comportando daquela forma, e no conseguiu.
      Aquele tipo de atitude reforava a desconfiana e a antipatia que havia sentido em relao a ela. Em seu ponto de vista, ela era totalmente inadequada para
cuidar de Angelina!
      Isso significava que teria mesmo que fazer o que fosse possvel para proteger a pequena. At mesmo casar-se com Marco, pensou firmemente.
      Suspeitava que ele estava certo quando dissera que o interesse de Francine em Angelina era totalmente mercenrio, mas ainda doa em seu corao que tais palavras
estivessem certas. Nenhuma av partiria sem ao menos ver o beb que era de seu prprio sangue.
      Ela j estava na metade do amplo salo principal, quando Marco subitamente apareceu do lado oposto.
      - Eu estava indo para o quarto de Angelina - ele disse.
      - Eu estava procurando voc.
      Eles falaram juntos e pararam. Marco cuidadosamente atendo, e Alice procurando se conter para no esmurr-lo.
      - Minha irm acabou de me telefonar - ela falou quando o silncio lhe mostrou que Marco esperava que ela falasse primeiro.
      - Sabe que no tinha o direito de falar com minha famlia sem minha permisso - disse indignada. - Esto pensando que... - Ela parou e mordeu os lbios com
fora.
      - Esto pensando o qu? - Marco a pressionou.
      Angelina adormecera em seu ombro o que limitava os movimentos e o tom de Alice. Alm disso, estava muito pesada. Percebendo seu desconforto, Marco falou:
      - Vou buscar o carrinho. Voc j est bem? Est com dor de cabea?
      - Estou tima! - Alice quase gritou. - Todos os meus parentes acham que eu no poderia estar melhor!
      Alice sentia o rosto queimar. Era melhor mesmo que ele sasse para que tivesse um tempo para se acalmar.
      Ele fizera com que sua famlia pensasse que iam se casar porque estavam apaixonados! Por que, entretanto, era ela quem se sentia culpada e desconfortvel?
E por que seria ela quem precisaria explicar-lhes o que ocorrera? Se no falasse nada, pensariam que...
      - Eles acreditam que ns...voc... - Alice comeou, ao ver que Marco retornava. - Esto achando que vamos nos casar... que ser um casamento normal! - ela
conseguiu finalmente dizer, seu rosto queimando. - Por que foi dizer isso a meu pai? Por que foi convid-los para virem aqui? Por que fez isso? - ela. perguntava
em tom de acusao.
      - Porque era a coisa certa a fazer - Marco respondeu sem hesitao. - Voc  filha deles, eu serei o genro deles.
      - Mas voc no v? Esto pensando... pensando que... voc e eu estamos apaixonados.
      Alice finalmente conseguira colocar em palavras parte de seu desconforto. Marco deu de ombros.
      - E ento... Isso  um problema?
      - E claro que sim - Alice disse indignada. - Eles esto esperando que... - ela interrompeu o que dizia, o rubor aumentando quando visualizava a imagem de sua
famlia quando chegasse para o casamento. Estariam esperando encontrar um casal apaixonado, que no pudesse manter os olhos e as mos longe um do outro. Que  estariam
trocando beijinhos e sussurros, abertamente mostrando seu amor para o mundo! Um casal, enfim, mergulhado na emoo de estar juntos!
      - Nosso casamento  apenas no papel!
      - Voc ia dizer isso a eles? - Marco a provocou.
      Alice se calou. A verdade  que ainda nem havia se decidido firmemente a casar, quanto mais pensado em como dizer isso a sua famlia.
      - Eu no diria nada a eles - ela foi forada admitir.
      - Nada?
      Ela pde perceber o tom de repreenso e descrena na voz dele.
      - Eu no iria complicar as coisas! - Alice se defendeu. - Alm disso... esse casamento seria apenas uma extenso do meu contrato... Minha famlia no entenderia,
so tradicionais e minha irm... - A voz dela falhou, estava infeliz.
      - Para que isso funcione, para que possamos convencer o juiz de que Angelina tem um ambiente adequado para sua educao  essencial que aos olhos de todos
esse seja um casamento "normal" - Marco explicou. - Como acha que Francine usaria a informao de um casamento em segredo? Se descobrisse que aos olhos de sua famlia
voc est apenas trabalhando aqui? No acha que ela diria que era apenas um arranjo e usaria isso contra ns frente ao juiz?
      No havia nada que Alice pudesse dizer. Ela sabia que o que ele falava fazia sentido, e sabia que seria impossvel explicar-lhe o que realmente sentia e onde
estava exatamente localizada sua insatisfao.
      - J que estamos falando no casamento - Marco continuou -, era por isso que eu estava indo falar com voc. J fiz os arranjos para a cerimnia na igreja daqui
a quatro semanas. H outras formalidades, mas nenhuma ser complicada. A festa aqui no palazzo  que vai nos dar mais trabalho. J instru Madalena para contratar
os empregados que forem necessrios. Minha famlia  muito grande. Tenho muitos parentes idosos, mesmo os mais distantes, que vo querer vir e participar da celebrao.
Mas no se preocupe... - ele disse a Alice quando ela pareceu ainda mais chocada. - Eles vo abra-la com lgrimas de gratido, j que vm me dizendo h anos que
preciso me casar. Entretanto tenho trs tias mais velhas que alimentam uma rivalidade histrica entre elas, e teremos de nos vestir um pouco da sabedoria de Salomo
para conseguir lhes dar ateno.
      - Ento por que no se casou ainda? - Alice no resistiu a perguntar.
      O olhar sombrio fez com que ela se lembrasse da primeira vez em que o vira. Mais uma vez ele vestia aquele modo arrogante que fazia com que ela ficasse com
os nervos  flor da pele.
      - At este momento no era necessrio - lacnico.
      - Necessrio? - Alice balanou a cabea sem poder acreditar.
      - As pessoas no se casam porque " necessrio" - ela protestou de forma emocional. - Casam-se porque se amam. Porque no podem suportar viver separadas.
      - E. Foi o que Aldo me disse - Marco concordou secamente.
      - Est me dizendo no se importa com o amor? - Alice desafiou-o. Ela no sabia por que estavam tendo aquela discusso, e tudo o que queria era no ser tola
o bastante para continu-la.
      Mesmo assim, ali estava.
      - Amor no  desejo sexual, e as pessoas muitas vezes confundem uma coisa e outra - Marco disse com ares de superioridade.
      - E importante que se compartilhem ideais e objetivos, valores e crenas. O casamento tem de se basear em algo que poder ser dividido por toda a vida e no
em um fogo que logo se consome, nesse "amor" de que falam.
      O tom de desprezo que ele usava para a palavra "amor" era to forte que ela pensou qual seria sua reao se algum dia lhe falasse do que sentia.
      Antes que pudesse se conter, Alice j respondia:
      - O sentimento de amar uma pessoa importa mais que qualquer outra coisa. Odiaria ser um tipo de pessoa que no acredita no amor. Mas para algum como voc...
      - O que quer dizer com "algum como eu"? - Marco perguntou irritado. No gostava do tom crtico que ela usava. E gostou ainda menos de sua prpria reao a
ele.
      Incomodada com o rubor em seu rosto, Alice tentou apaziguar a situao.
      - Estou dizendo que um homem na sua posio, com toda a histria de sua famlia, pensa em casamento de um jeito diferente do meu. Acredito que esteja acostumado
a casamentos que levam mais em conta a posio das pessoas do que o fato de se amarem ou no - ela concluiu. - Suponho que tenhamos valores muito diferentes.
      Pelo modo como Marco a olhava estava claro que ele considerava o que dizia uma grande bobagem.
      Furioso, ele estava tentado a contar a ela que seus pais haviam vivido uma linda histria de amor verdadeiro, e que fora criado nesse clima. Mas ao invs disso,
sua raiva o fez ser mordaz.
      - Realmente nossos valores devem ser diferentes. Ao contrrio dos meus, os seus so "modernos".
      Alice no pareceu compreend-lo.
       - O que est tentando dizer? - ela perguntou atenta.
      Marco lanou-lhe um olhar selvagem.
      - Como voc observou, somos pessoas diferentes, que vm de culturas diferentes, e do mesmo modo que sei que voc se compromete totalmente com as crianas de
quem cuida, sei que seus valores morais no so os mesmos que os meus.
      - Meus valores morais? - ela o interrompeu no mesmo instante.
      Marco desviou o olhar dela brevemente, antes de responder.
      - Eu soube de seu caso com seu antigo patro.
      Alice foi pega totalmente de surpresa. Do que ele estava falando? Nunca lhe passara pela cabea ter um caso com qualquer homem casado, ou com qualquer homem
que tivesse qualquer ligao com outra pessoa. O mero pensamento a deixava revoltada.
      - Recebi uma carta da mulher dele, em resposta ao meu pedido de referncias. Ela disse que voc foi a melhor bab que ela j teve, mas que o marido dela confessou
que estava tendo um caso com voc. Ela tambm insinuou que deviam ter havido outros maridos que aproveitaram de seus "favores".
      Alice sempre suspeitara que Pauline Levinsky guardara ressentimentos em relao a ela, porque seus filhos eram mais apegados a ela do que  prpria me. Mas
fazer uma coisa daquelas!
      Porm, compreendeu o que acontecera quando se lembrou do dia em que dissera, com todo o tato a Pauline, que no os acompanharia a Nova York. Fora Pauline quem
trouxera o assunto de seu marido, Clive, e que perguntara diretamente a Alice se era ele a razo de sua sada do emprego. E fora Pauline quem se desculpara quando
ela finalmente admitiu que ficava incomodada com a constante possessividade de Clive em relao a ela, seguida por constantes comentrios sobre sua insatisfao
sexual. Jamais dissera que "tivera um caso" com ele, mesmo porque isso no era verdade.
      Como Pauline podia ter dito aquilo?
      Alice sentiu-se mal, humilhada, muito machucada at para checar qual a opinio que Marco formara sobre ela, at mesmo para explicar ou defender-se.
      Quando finalmente conseguiu articular algumas palavras, disse:
      - Voc acredita que isso tenha realmente ocorrido e mesmo assim quer se casar comigo?
      Marco estreitou os olhos, como se ouvisse a raiva que permeava suas palavras. A reao dela no fora a que ele esperava. Admirou-se do fato de ela no ter
feito nenhuma tentativa de negar ou explicar qualquer coisa, mas o brilho de seus olhos o surpreendeu ainda mais.
      - Angelina  minha primeira preocupao - Marco respondeu friamente. - Minha nica preocupao - ele frisou. - E nosso casamento  apenas um acordo de negcios.
Se eu estivesse procurando por uma esposa de verdade... - Ele fez uma pausa, e Alice soube imediatamente o que ele estava pensando.
      - Voc nunca me escolheria? Bem, devo dizer que eu tambm no o escolheria - ela mentiu sem hesitar. - Quando eu me casar de verdade, ser com algum que amo...
tanto que no agentarei viver sem ele. Algum que acredite no amor e que o valorize - acrescentou de um jeito apaixonado.
      Precisava instintivamente se proteger. O julgamento cnico que fizera dela no apenas a machucara como dera outro sentido ao beijo que trocaram no dia anterior.
      Ele, com certeza, pensara que ela era o tipo de mulher que dormia com qualquer um. At com homens casados!
      Alice sabia que se no fosse por Angelina, teria sado daquele lugar no mesmo instante, rescindido seu contrato e tomado o primeiro vo para casa.
      Mas ela simplesmente no podia deixar a criana.
      De repente, mais um pensamento surgiu imperioso em sua mente.
      - Se voc pensava... acreditava... em tudo isso, por que me contratou? - ela perguntou com aspereza.
      Marco estudou o rosto dela. Mais para punir a si mesmo do que para puni-la, ele disse com a voz mais controlada que pde:
      - Bem, no foi porque tambm queria o tipo de favores que voc oferece a outros.
      A fria que ele viu no olhar dela, o fez rir-se por dentro. Seriam todas as mulheres to boas atrizes?
      - A princpio, voc foi a nica que preencheu todos os requisitos que eu tinha exigido. Se eu tivesse recebido a carta de Pauline Levinsky antes que comeasse
a trabalhar para mim, e principalmente antes que Angelina tivesse se apegado a voc, com certeza eu no a teria empregado. Entretanto... - ele continuou friamente
-, aqui, sua predileo pelo marido de outras mulheres no nos trar problemas, j que no tenho uma esposa. Felizmente, quando Angelina tiver idade o suficiente
para precisar de um modelo de moral...
      - Eu j estarei fora de sua vida - Alice completou com um olhar sofrido.
      Onde tinha se colocado? Por que aceitava aquilo?
      - Agora podemos voltar ao assunto que importa? - Marco continuou, como se a bomba que jogara no significasse nada. - Voc ter de ir at Milo para uma reunio
com o designer que se encarregar de seu vestido de noiva e de suas damas. Eu entendi que minha amiga ladra de carros ser uma delas e que no usar cor-de-rosa.
      Alice fixou-o com o olhar. Como ousava fazer humor depois de tudo o que dissera? Se ela queria alguma prova de que ela no sentia absolutamente nada pessoal
por ela, a estava. E alm de tudo, pensava que o que ela queria era sexo casual!
      - Tenho certeza de que poderei encontrar algo simples e adequado aqui mesmo em Florena - respondeu de um jeito grosseiro. - Como voc disse, para um arranjo
de negcios no ser preciso tanta preparao.
      Alice estava orgulhosa por haver disfarado bem seus sentimentos. S esperava poder continuar negando-os.
      - Mas ainda assim  um casamento, e nossas famlias tm expectativas em relao a ele. E eu no tenho a menor inteno de desapont-los!
      Por sorte, antes de ele dizer qualquer outra coisa, Angelina acordou e comeou a reclamar.
      - Madalena me disse que Francine foi embora. - Alice procurou manter sua voz em um tom normal. No tinha a menor vontade de continuar a discusso.
      - Sim, foi embora - Marco confirmou.
      - Ainda pensa que ela vai lutar pela guarda de Angelina? - ela perguntou, sentindo que ficava apreensiva com a possvel resposta.
      - O que eu penso  que se ela o fizer, o fato de voc e eu estarmos casados vai assegurar a Angelina poder ficar onde est, com as pessoas que a amam - Marco
disse com firmeza.
      - Mas ns temos ainda um assunto para discutir. Devemos ser os anfitries de um jantar que ofereceremos s nossas famlias no dia anterior ao casamento, e
tambm na festa depois do casamento. Alm disso,  tradio em minha famlia oferecer uma grande festa a todos os empregados. Mas eu posso fazer todos os arranjos
necessrios para isso. Convidei sua famlia para que chegue uma semana antes da data, isso dar tempo a nossa ladra de Ferrari para provar seu vestido. Claro que
sua irm ser sua principal dama. J que minhas tias so extremamente tradicionais, para no dizer at um pouco ultrapassadas, esperaro que durmamos em quartos
separados antes do casamento. At a no haver nenhum constrangimento, embora, j que estamos tocando nesse assunto delicado, devo dizer que tambm vo esperar
que mostremos algum afeto enquanto estivermos juntos.
      - No! - Alice ficou plida como um fantasma, e mesmo sem querer deixou que o medo transparecesse em sua voz.
      - No - ela repetiu, balanando veementemente a cabea. - No vou fazer isso. Voc no pode esperar isso de mim.
      A rapidez e a intensidade com que ela rejeitou a idia trouxe um brilho sombrio de raiva aos olhos de Marco.
      - Voc est exagerando nessa histeria de falsa virgem - ele avisou com um jeito seco. - Alm disso, no  como se estivesse sendo solicitada a fazer algo que
j no tenha feito antes, muitas, muitas outras vezes, e com muito mais intimidade.
      Ele tinha ido longe demais para que Alice pudesse suportar. Cega, teve vontade de esbofete-lo, mas resolveu entrar no jogo.
      - Isso foi muito diferente. No tive de fingir. Eu queria mesmo estar com ele... com eles - corrigiu, sem arrepender-se quando percebeu o brilho de dio nos
olhos dele.
      Instantaneamente, Marco voou em sua direo. Alice soltou um grito de medo, de pnico mesmo, sem saber o que esperar. Rudemente, ele a aprisionou em seus braos,
beijando sua boca de uma forma selvagem.
      Alice percebeu que cometera o erro de provocar um homem no que dizia respeito  sua sexualidade, insinuando ainda que ele pudesse ser inferior a qualquer outro.
No havia dvida de que Marco a beijava vorazmente naquele instante por raiva, forando seus lbios a se abrirem, penetrando-a profundamente com a lngua.
      Era o tipo de beijo que um homem trocava com uma mulher experiente, ela pensou, o tipo de beijo que imediatamente os dirigiria a um lugar onde pudessem aprofundar
suas carcias. Alice no podia conter a excitao que a tomava. Sentiu quando ele tocou seu corpo, tomou posse de seus seios, acariciando-lhe os mamilos com experincia
e habilidade, provocando-lhe sensaes e desejos incontrolveis.
      Confusa, Alice sabia que se odiaria pelo que estava sentindo naquele momento, mas simplesmente no tinha experincia para interromper aquele tipo de ataque
ertico. Achegou-se ainda mais a Marco, sua mo alcanando o rosto dele num desejo de prolongar a intimidade daquele beijo.
      Porm, sua impresso foi a de que ele apenas esperava por aquilo para dar um passo para trs, cortando qualquer contato entre eles.
      - Diga-me que voc estava fingindo.
      No havia nada que Alice pudesse dizer. No havia maneira de esconder sua vergonha.



      CAPITULO IX


      Alice se sentia o mais vil dos seres humanos quando desceu as escadas daquela igreja de mo dada com Marco, j casada. Seu nico consolo era olhar para Angelina.
S mesmo um motivo to forte para faz-la concordar com tudo aquilo.
      A igreja que Marco escolhera era maravilhosa. Fora construda na poca da Renascena e trazia em cada detalhe toda a emoo de sua histria. Como eles, muitos
dos ancestrais dele haviam se casado ali. Alice sentia-se sozinha e infeliz. S ela sabia o quanto se sentia mal por permitir que se levasse adiante aquele engodo.
A decorao era belssima, as pessoas no cabiam em si de alegria, os votos que ela e Marco trocaram teriam um significado profundo, se tudo no passasse de encenao.
Aquela que deveria ser uma das datas mais especiais de sua vida representava o apogeu de seu sofrimento por amar e no ser correspondida. Como que para punir a si
mesma, no escolhera o vestido branco que era esperado que usasse, mas um suntuoso modelo em tom creme.
      Um n se formou na garganta de Alice quando ela teve conscincia da intimidade que dividiam naquela dana, no dia do seu casamento.
      A msica parou abruptamente, trazendo-a de volta a uma realidade que no queria enfrentar. Nos braos de Marco podia imaginar... fingir... mas tudo tinha um
fim. J ia se afastar quando ele a segurou.
      - Nossos convidados esto esperando - Marco lhe disse. Sem entender, ela perguntou:
      - Pelo qu?
      - Por isto - ele respondeu, trazendo-a para junto de seu corpo e lentamente envolvendo-a com um dos braos, segurando seu rosto e erguendo-o em direo ao
dele.
      Ele a beijou lenta e cuidadosamente, saboreando sua boca. Um ato de intimidade para uma platia atenta, ainda mais perigoso pelo fato de parecer to terno,
to amoroso, quando apenas Alice sabia que na verdade na tinha nenhum significado. Ou pelo menos,  no para ele.
      Quando Marco a deixou, os convidados estavam sorrindo e aplaudindo. Alice teve de piscar os olhos com fora para reprimir as lgrimas.
      Outros casais entraram na pista de dana e Alice se afastou de Marco.
      - Quero ver como est Angelina.
      - Ela est com sua irm...
      - Ela  minha responsabilidade - Alice insistiu com teimosia.- Afinal  ela a razo de tudo isso, foi por ela que se casou comigo.
      - E foi por ela que voc se casou comigo tambm.
      - Voc deve estar desapontada porque no tero uma lua-de-mel.
      Eram duas da manh e por fim a festa havia terminando. Alice balanou a cabea ao ouvir sua irm.
      - No, no estou - disse com honestidade.
      Haviam subido as escadas, e Alice se dirigiu automaticamente para o quarto de Angelina. Sorrindo, Connie a fez parar.
      - Para onde est indo? A sute principal  para aquele lado.
      - Oh... sim... mas Angelina...
      - Madalena e eu levamos as coisas dela para seu quarto por esta noite - Connie avisou com um sorriso gentil. - Marco nos explicou que vocs ainda no tiveram
tempo de redecorar os quartos e que planejam fazer isso juntos. Eu no acho que Angelina v se incomodar de dormir na sala onde ele se veste por alguns dias. No,
tendo vocs dois to perto dela.
      Alice engoliu em seco quando entendeu o que Connie dizia. Mais uma vez ela no havia imaginado o que fariam naquela primeira noite, quando seriam forados
a ficar no mesmo quarto. Por algum mecanismo tolo de sua mente, achara que tudo continuaria como antes. Mas claro que estava errada.
      Ficou parada em frente  porta do quarto de Marco, hesitante. Por sorte ou intuio, ele prontamente a abriu.
      - Aqui est a noiva - Connie disse maliciosamente antes de acrescentar: - Tudo bem com Angelina? Madalena e eu viemos v-la h pouco.
      - Tudo timo. Est dormindo como um anjo - Marco respondeu, afastando-se da porta.
      Sem saber como, Alice entrou no quarto e ele fechou a porta. Estavam sozinhos ali. Ela nunca havia estado naquele quarto.
      Olhou para os lados, apreensiva. Como todos os ambientes do palazzo, era um quarto amplo, decorado com antiguidades lindssimas e almofadas de veludo estampado
em tons de marrom, que criavam um clima romntico e acolhedor.
      - No posso dormir aqui - ela disse rapidamente, o pnico ameaando invadi-la.
      - Receio que no s possa, como deva! - Marco lhe disse com frieza. - E o que todos esperam. Somos marido e mulher.
      - Sim, mas apenas por causa de Angelina... eu... voc... disse que casaramos apenas no papel.
      - Claro que sim. Mas no pode dormir longe de mim esta noite, no v? - Marco a olhava, primeiro indignado, depois com ironia. - Estamos a ss, Alice. Pode
esquecer o olhar arregalado da noiva pura e virgem. E pode esquecer tudo o mais. Vou passar a noite no quarto de vestir com Angelina. H uma cama l, para "emergncias".
Depois que nossos convidados se forem, poderemos discutir o que faremos no futuro.
      Alice sentia-se to infeliz que no conseguia pensar. No podia discutir com ele, sequer protestar. Estava um trapo. E alm disso, sabia que o que quer que
dissesse, ele apenas zombaria dela.
      - O banheiro  ali. - Marco indicou a primeira das duas portas abertas dentro do quarto. - Sua irm e Madalena trouxeram algumas de suas coisas para c - acrescentou
antes de abrir a porta da sala de vestir e fech-la atrs de si.
      Algumas de suas coisas... Quais delas?, Alice se perguntou preocupada. Ela tinha o hbito de dormir nua, um prazer sensual que cultivava especialmente no palazzo,
onde as roupas de cama eram de algodo puro e tinham perfume de ervas frescas. Entretanto, o mero pensamento de dormir nua, estando Marco atrs da porta ao lado,
a fazia estremecer. Jamais conseguiria relaxar.
      Ser que Connie havia pensado em trazer um robe para o quarto, ou pensara que, como uma noiva, Alice no iria querer nem precisar de uma pea como aquela?
      Marco olhava para a escurido da noite atravs da janela da sala onde dormiria, tentando afastar seus sentimentos, mas sem poder se negar a verdade. Desde
o momento em que entrara para sua vida, Alice havia, sem perceber, desafiado crenas que para ele  eram estveis como se gravadas em pedra. Ele tentara resistir,
dizendo a si mesmo que tudo o que fazia era apenas por Angelina, que somente Alice saberia dar ao beb o amor de que necessitava, e que aquilo era muito mais importante
que as diferenas entre seus cdigos morais.
      Ele tentou ignorar o desejo que sentia por ela. Tentou dizer a si mesmo que a culpa era dela, que era ela quem o incitava. Mas no podia sustentar aquilo frente
a sua prpria conscincia.
      Cerrou os olhos com fora, os msculos do queixo tenso. No havia mais como mentir a si mesmo. Ele podia at ter sido sincero quando sugeriu que se casassem
por causa de Angelina. Mas na igreja ao lado dela j sabia que estava se casando porque a amava.
      E a verdade era que a amava por completo, por tudo o que era.
      Tudo nela era perfeito.
      Pouco antes, enquanto danavam e ele respirava seu perfume, Marco sentira um desejo to forte de toc-la, de possu-la, que lhe doa lembrar. Como poderia
dormir, sabendo que apenas algumas passos o separavam da mulher que amava?
      Alice tirara o vu ainda na festa, mas no o vestido de noiva.
      S naquele momento percebia que, a no ser que Marco a ajudasse, dormiria vestida por toda a noite. E o que era pior, se apresentaria no caf da manh ainda
vestida de noiva. Maldizia momento em que escolhera um vestido abotoado nas costas por uma infinidade de minsculos botes.
      Resignada, caminhou at a porta do quarto de vestir e bateu levemente, chamando por Marco.
      Ele imediatamente abriu a porta. O corao de Alice bateu to forte ao v-lo descuidadamente desabotoar os botes da camisa que por pouco no desfaleceu.
      - Desculpe-me por perturbar voc.
      Haveria algum jeito de ocultar seu nervosismo?
      Alice tocou o lado do pescoo, brincou com seus cabelos, to tensa que a voz lhe faltava. Marco a olhava com uma expresso que ela no podia compreender. Havia
algo diferente nela ou eram simplesmente as sombras que acentuavam seu olhar to sensual, to perigosamente masculino?
      Sem saber o que fazer, Alice procurou desviar o olhar do rosto dele, mas ficou presa  camisa entreaberta que revelava a penugem escura do peito masculino.
Como queria abra-lo...
      Marco era seu marido dela, ela era mulher dele, estavam recm-casados.
      Um arrepio fino percorreu todo o seu corpo enquanto as emoes corriam soltas. Seu brao se ergueu por vontade prpria, os dedos formigavam de vontade de explorar
a pele do homem a sua frente. Desesperadamente procurava se lembrar de por que o chamara.
      - Eu preciso de ajuda com o vestido... - ela quase sussurrou. - Os botes... - Para mostrar a ele o que queria dizer, ela se virou. - Eu no consigo desaboto-los.
      Seguiram-se alguns segundos de silncio, antes que Alice ouvisse a voz dele.
      - Entendo.
      Ela explodiria se ele no se movesse.
      - No posso dormir desse jeito.
      Por que ele no fazia nada? Ela podia sentir a respirao dele contra a pele de seu pescoo. A vontade de chegar mais perto dele quase doa. Queria virar-se
e implorar-lhe que a tratasse como mulher e no apenas como scia.
      - No posso pedir a mais ningum.
      Ela tremia, o rosto queimando com a humilhao de saber o quanto estava perto de cometer uma tolice. Marco no compartilhava de seus sentimentos, sabia disso.
      - No pode.
      Ela o ouviu concordar, a voz profunda e estranhamente cansada.
      De algum jeito a voz dele parecia diferente, mais profunda, rouca...
      - A renda que h por dentro se emaranha aos botes.
      - Renda? Isso no  muito antiquado? - ele pareceu divertir-se.
      Quando Marco comeou a desabotoar os pequenos botes, Alice tensionou todo seu corpo, para evitar qualquer reao inesperada.
      Havia um espelho a sua frente, e ela podia ver tanto o seu reflexo, quanto a expresso atenta de Marco, procurando lidar com os minsculos botes.
      Mas no foi a viso das mos morenas que subitamente fez com que ela prendesse a respirao. Foi a conscincia de que uma vez que o vestido estivesse desabotoado,
escorregaria por seus ombros.
      Tudo que estava usando era uma minscula calcinha por baixo dele. Nem mesmo um suti. Apenas a calcinha de seda.
      As mos de Marco estavam no meio de suas costas. Alice podia sentir o peso do vestido forando-o para baixo. Mais alguns botes e...
      Ela comeou a entrar em pnico, tentando se afastar dele.
      - Espere. - ele disse recusando-se a deix-la ir. - Ainda no desabotoei todos eles.
      No todos eles, mas o suficiente, Alice percebeu quando o vestido deslizou para o cho antes que pudesse segur-lo.
      Paralisada, Alice no sabia o que fazer. Atravs do espelho encontrou o olhar de Marco. A cada respirao seu rosto ficava mais vermelho.
      Marco tambm parecia transformado em pedra, to imvel quanto ela, a no ser pelo forte brilho em seus olhos. Ela o ouviu respirar pesadamente, e sentiu que
arrepios sucessivos percorriam-na de alto a baixo. Em um gesto de autoproteo levantou os braos para cruz-los em torno do peito, mas foi Marco quem reagiu primeiro.
Foram as mos deles que lhe cobriram os seios, e brincaram com a maciez de sua pele, beliscando suavemente os mamilos sensveis e excitados.
      - Alice! Alice! - ela ouviu o gemido rouco, um tom de voz que ainda conhecia, vido entre suspiros.
      Inclinando a cabea, ele beijou-a no pescoo. Imediatamente a excitao tomou conta de todo o corpo dela.
      - Voc tem alguma idia do que est fazendo comigo? - ele perguntou perturbado. - Voc  uma tentao... o tempo todo!
      Alice sabia perfeitamente o que ele estava fazendo com ela! E o quanto se sentia chocada, com a intensidade de seu desejo.
      Marco a virou para si, e pressionou-a contra seu corpo. Os seios nus estavam em contato com o peito dele, as costas sentiam suas mos fortes aproximando-a
mais e mais.
      Era visvel o quanto ele estava excitado. E saber que era desejada fazia com que Alice se sentisse poderosamente sensual, e intensificava ainda mais seu prprio
desejo por ele.
      Sem pensar, ela sussurrou o nome dele com a voz rouca, um provocante convite  intimidade. Aquele som deu a Marco a certeza de que era impossvel resistir
a ela. Seu corpo era quente, convidativo, e tremia sob seu toque.
      Ele beijou-lhe a testa, os olhos, a regio sensvel atrs das orelhas... Queria sentir seu gosto, queria ouvi-la gemer de prazer.
      Os lbios dela se abriam e ela o abraava fortemente, os dedos mergulhando em sua carne.
      O jeito natural como ela respondia s suas carcias deixava-o louco! Aquele era o afrodisaco mais potente que poderia existir.
      Por um segundo Marco hesitou, lembrando a si mesmo que era um homem de palavra e que haviam combinado que seu casamento seria apenas no papel. No importava
como se sentia, no suportaria se depois ela se voltasse contra ele.
      - Voc me quer? - ele perguntou, determinado a acatar a deciso dela.
      Alice ficou tensa. Aquela era a chance de interromper o que estava acontecendo se quisesse faz-lo. Sabia que estava a um passo de fazer algo que mudaria sua
vida para sempre.
      Mas o amor que sentia por Marco j no fizera exatamente isso? Ela no se arrependeria pelo resto de sua vida se no aceitasse o que ele estava lhe oferecendo
naquele momento?
      Respirando profundamente, fez um gesto afirmativo com a cabea, e para o caso de ele no entender o seu significado, colocou-o em palavras.
      - Sim, eu quero voc.
      Aquelas simples palavras causaram nele uma emoo que nunca havia sentido. Seu corpo todo pulsava de desejo por ela.
      Cobrindo seu rosto com as mos, ele a beijou longamente, saboreando cada centmetro de sua boca com tal intimidade que Alice foi pega de surpresa. As mos
dele acariciavam todo o seu corpo. Sem se afastar de sua boca, ele sussurrou:
      - Voc no vai tirar minha roupa?
      Ela? Tirar a roupa dele?
      Alice voltou a se sentir em pnico. Esquecera que Marco acreditava que ela tinha experincia sexual, inclusive em seduzir maridos alheios.
      Marco sentiu que ela se recolhia e se distanciava um pouco. Havia mudado de idia?
      Tentou olhar em seus olhos, mas ela imediatamente fechou-os, escondendo-se.
      - Acho que ganharemos tempo se voc mesmo fizer isso.
      Alice no sabia de onde havia conseguido coragem para murmurar aquelas palavras. Subitamente sentia que seu corpo todo queimava... de vergonha!
      Ganhar tempo! Marco estava muito envolvido em seus prprios desejos para perceber o desconforto dela. Pegando-a nos braos, ele a carregou at a cama, deitando-se
sobre ela, os seios macios contra seu peito nu.
      - Voc est certa - ele disse. - No precisamos perder tempo com preliminares quando sabemos o que queremos.
      Ele a beijou de um jeito rude que tanto a chocou como excitou. As  mos dele corriam por seus seios, enquanto sugava sua boca. Subitamente Marco tocou a parte
sensvel entre suas coxas. Sem poder se controlar, Alice gemeu alto, tentando conter seu susto contra o ombro dele. Mas ao invs de perceber sua aflio, o gesto
o excitou ainda mais.
      Tirou suas prprias roupas o mais rpido que pde, sabendo que  corria o risco de no conseguir satisfaz-la, tal a urgncia que sentia em satisfazer seu prprio
desejo.
      O perfume do corpo dela, seu gosto, o modo como se movia, deixavam-no louco.
      Com a mo procurou pelo calor de sua feminilidade, querendo certificar-se de que estava mesmo pronta.
      Fortes tremores percorriam o corpo de Alice. Ela pensava que sabia o que esperar do sexo, e que a experincia no lhe traria surpresas, mas estava completamente
enganada.
      De algum jeito, sem saber como, havia mergulhado seus dedos nos cabelos de Marco. Segurava a cabea dele contra seus seios quando uma fora selvagem a tomou,
como se mergulhasse em um turbilho de prazer.
      Podia sentir a umidade de seu sexo, e tambm o modo como respondia ao toque de Marco, abrindo-se, crescendo. Com os dedos ele a preparava, procurava, circulava
o ponto mais sensvel de seu ser, fazendo-a pulsar de prazer.
      - Marco. Marco.
      Sem a total conscincia do que estava fazendo e do efeito que seus sussurros tinham sobre ele, Alice repetia seu nome, apenas dando vazo ao seu desejo.
      Marco hesitou. Ele sabia o quo perto ela estava de se satisfazer, mas queria que naquela primeira vez em que estavam juntos pudessem dividir esse prazer.
Sem parar de estimul-la, ele se colocou por cima dela, beijando-a apaixonadamente enquanto comeava a penetr-la.
      Alice sentiu que se contraa instantaneamente ao perceber o que Marco faria.
      Mas em seguida relaxava, seu corpo se acomodando instintivamente ao dele. Inebriada de paixo, se achegou ainda mais a ele quando sentiu uma dor aguda, apenas
parte de uma sensao maior, de um prazer indescritvel. O sentimento de ser totalmente preenchida por ele era to especial, que a dor no significava absolutamente
nada.
      Marco sentiu a tenso no corpo dela, o quanto estava fechada, ouviu seu gemido... mas era muito tarde para que pudesse interromper o que estava acontecendo.
Parar o que fazia naquele momento a machucaria mais do que se continuasse.
      As mos de Alice se apertavam contra as costas dele, desesperada ante a possibilidade de que ele interrompesse aquele momento mgico. Logo seu corpo se contraa
seguidamente em ondas de prazer, trazendo-lhe uma sensao que nunca pudera imaginar sentir.
      Momentos depois, sentia-se ainda inundada por uma sensao de satisfao e felicidade. Exausta, mal podia manter seus olhos abertos.
      Marco, ao contrrio, estava totalmente desperto e observava-a com preocupao.



      Captulo X


      - Alice.
      Relutantemente, Alice abriu os olhos. A luz do dia comeava a entrar pela janela do quarto. Quando Marco se inclinou sobre ela, com uma toalha enrolada na
cintura e o corpo ainda mido depois do banho que devia ter acabado de tomar, ela pde ver as marcas na pele dele. Marcas que ela fizera no calor de sua paixo.
      Sentindo-se envergonhada, Alice engoliu em seco. Se tivesse alguma esperana secreta de que a intimidade que haviam partilhado na noite anterior magicamente
fizesse com que Marco declarasse que a amava, percebia naquele instante que estivera iludida. Ele a olhava furioso.
      -Por que no me disse que era virgem? - perguntou diretamente.
      Passara metade da noite acordado, culpando-se pelo que havia feito, por sua insensibilidade, por seu egosmo, sua brutalidade, e naquele momento, ao invs
de dizer a ela como se sentia, lanava uma acusao, como se a falha houvesse sido dela.
      A raiva de Marco bloqueou qualquer sentimento de auto-piedade que Alice pudesse ter. Numa reao automtica, sentou-se na cama e o encarou.
      - Qual o problema? - provocou-o. -=- Se j tinha decidido que eu era uma mulher experiente, que diferena faria?
      Ela desejava na verdade que ele dissesse que nunca havia acreditado naquilo. E que depois de dizer isso, a tomasse nos braos e falasse do quanto a aquela
noite significara para ele, fazendo-a perceber que a amava.
      Marco caminhou na direo  janela e se colocou de costas para ela.
      - Voc percebe que isso muda tudo entre ns, no?
      Pelo tom de voz, Alice teve conscincia de que ele falava seriamente.
      - Como minha virgindade poderia mudar alguma coisa? - ela perguntou incerta.
      Os nervos de Marco pareciam estar  flor da pele.
      - Como poderia no mudar? Voc acha que sou do tipo de homem que sai por a deflorando virgens? - Ele parou e balanou a cabea, focalizando-a em seguida.
- Como acha que me sinto sabendo que meu desejo estava to fora de controle que no pude me conter? Mais tarde falaremos sobre as razes pelas quais a sra. Levinsky
mentiu para mim sobre voc, mas eu penso que sei quais so. Cime. Eu no tenho como me desculpar com voc pelo que aconteceu. Voc se tornou minha esposa em todos
os sentidos do termo.  minha responsabilidade, meu dever...
      - No! - Alice protestou, abalada pelo modo como ele dizia tudo aquilo. - Fizemos um acordo de negcios, e isso  tudo.
      - A noite passada fez com que tudo mudasse irrevogavelmente. - Marco foi implacvel. - J lhe ocorreu que pode estar carregando um filho no ventre? Nosso filho?
- ele lanou a idia.
      Um beb. Um beb de Marco... Alice podia sentir-se derretendo, desejando... Teve de lutar consigo mesma para entender que aquilo ainda no era realidade.
      - Ns dois temos de torcer para que no esteja - Marco disse severamente. - Concordamos que nosso casamento terminaria em cinco anos. Ainda posso honrar esse
acordo. Mas se voc estiver esperando um filho meu no haver como permitir que seja criado por algum que no eu mesmo.
      Ele fez uma pausa e olhou atravs dela antes de continuar.
      - E conhecendo-a como conheo, acho que concordar comigo. Sei que valoriza muito o amor. Por isso no posso prend-la a um casamento sem amor.
      O corao de Alice comeou a bater pesadamente. No havia como negar, ele lhe dissera com todas as letras que no a amava. Do que mais ela precisaria para
acreditar?
      Como o silncio dela o exasperasse, Marco continuou rudemente:
      - Por que deixou isso acontecer, Alice? Para me punir por julg-la mal? Para me provar isso de um jeito incontestvel? Voc no pensou?!
      Muito perto de se desmanchar em lgrimas, Alice o encarou.
      - E voc, no pensou? - ela o provocou.
      - Pensar? No estado em que eu estava?
      Se no fosse cuidadoso acabaria revelando como se sentia em relao a ela, e este era um outro problema no qual estava determinado a no envolv-la.
      - Me pareceu uma boa idia naquele momento - Alice tentou falar com naturalidade.
      - Uma boa idia? - Marco a olhava como se quisesse estrangul-la. - Como pde ser to irresponsvel? Especialmente quando...
      Ele calou-se, mas Alice poderia completar a frase inacabada. Especialmente quando sabia que ele no a amava e que ela nada significava para ele.
      Marco tentou se acalmar. Sabia que o orgulho e o respeito prprio podiam levar uma pessoa a cometer atos imprevisveis. Mas Alice fora ao extremo. Ser que
ela no tinha nenhum senso de auto-preservao?
      - Na verdade, no foi to importante - Alice disse a ele com uma firmeza que estava longe de sentir. A verdade  que aquela fora a coisa mais importante que
lhe acontecera em toda a sua vida! - Na minha idade, a virgindade pode ser embaraosa, e pensei que j era tempo de saber o que era toda essa confuso de que as
pessoas tanto falam.
      Tinha de convenc-lo de que no era to tola a ponto de se deixar envolver por sonhos amorosos.
      Marco mal podia acreditar no que ouvia. Estreitou os olhos para observ-la. Parecia convincente, mas alguma coisa, instinto talvez lhe dizia que ela estava
mentindo.
      Por qu? Ser que tinha noo de que o desafiava a mostrar-lhe o quanto a relao entre eles era especial? Mostrar-lhe sensaes que ainda no conhecia?
      Mal humorado, ele resolveu lhe dar uma lio que a alertasse para as reaes que causava. Para o seu prprio bem e para o dele.
      - Ser que eu poderia ousar dizer que correspondi s suas expectativas?
      Constrangida, Alice umedeceu os lbios subitamente secos com a ponta da lngua. Sabia que o tinha provocado. Sem conseguir fit-lo diretamente nos olhos, ela
disse do modo mais frio que conseguiu:
      - Foi... Foi interessante. Mas no algo que eu queira repetir.
      Marco a encarou. Estava tentado a se deixar acreditar que ela estava intencionalmente incitando-o a tom-la nos braos no mesmo instante. Se pudesse acreditar
por um momento naquilo...
      Mas ento Alice se virou, e ele percebeu a marca em seu pescoo. Uma marca que ele mesmo fizera no calor da paixo. A culpa pesou novamente sobre ele.
      J era ruim o bastante ter-lhe tirado a virgindade. No se deixaria ficar to enfraquecido por seu amor que qualquer desculpa seria suficiente para lev-la
para a cama. Pretendia, pelos cinco anos seguintes, poder manter sua promessa de deix-la livre. Era uma questo de honra, que s poderia ser quebrada se ela estivesse
esperando um filho seu. Somente nessas circunstncias ele no poderia deix-la ir embora.
      - O que aconteceu entre ns no se repetir, Alice, e eu pretendo me certificar disso.
      Alice sentiu o rosto queimar de humilhao mediante aquele tipo de aviso. Ser que Marco acreditava que ela no se daria o respeito e tentaria seduzi-lo?
      - timo. Fico feliz em ouvir isso - respondeu em uma voz um pouco alta e estridente demais.
      Por um segundo Marco teve novamente o impulso de abra-la e faz-la retratar-se por aquelas palavras. Queria abra-la, acarici-la, am-la at que implorasse
por ele. Por ele. Por seu amor.
      Sentia como se estivesse afundando em areia movedia: quanto mais tentava controlar seus sentimentos, mais eles ameaavam domin-lo.
      Alice era to inocente, to inexperiente que no fazia idia do quo especial e raro fora o momento que dividiram. O prazer que tinha dado a ele... o modo
como seu corpo havia respondido ao dele... aconchegado... abraado...
      Marco sentiu uma espcie de fogo selvagem dentro de si implorando por satisfao. Tinha de se afastar de Alice antes que fizesse algo de que se arrependesse
depois.



      CAPTULO XI


      Carinhosamente, Alice tirou da mozinha de Angelina o pedao de pano que ela tinha agarrado.Estava tentando escolher os papis de parede e os tecidos para
a nova decorao da sute principal. J que tinha dois cmodos um deles seria o quarto de Angelina com um espao para brincar e a "cama para emergncias". O outro,
mais amplo, seria supostamente ocupado por ela e Marco.
      Nos ltimos dias, os trs haviam dividido a sute de Marco, embora Alice tivesse insistido para que ele dormisse em sua prpria cama, enquanto ela dormiria
com Angelina no quarto de vestir.
      Mantendo sua palavra, Marco manteve-se a distncia, tanto fsica quanto emocionalmente. O que era, claro, exatamente o que Alice queria! Ele se dirigia a ela
em poucas palavras, deixando claro o desejo de se afastar o mais rpido possvel.
      A nova sute iria incluir duas novas salas de vestir, uma sala de banhos e dois banheiros, e tambm uma sala de estar particular. Alice havia ficado inteiramente
responsvel pela decorao de todo o espao, enquanto Marco ficaria responsvel pela arquitetura e pela construo.
      Marco estava ansioso para acabar a reforma. Por sorte, teria uma srie de reunies em Roma sobre um grande projeto de restaurao que coordenaria, e isso o
manteria justificadamente afastado do palazzo. Pelo menos por algum tempo poderia deixar de ver Alice, e acalmar seus sentimentos.
      Depois de beijar as bochechas de Angelina, que j tinha mais um dentinho, Alice olhou para o relgio. J era hora de vesti-la para o jantar. No princpio isso
a aborrecia, mas j virara um hbito. Pelo menos encontrara um modo de usar o guarda-roupa da pequena.
      Era costume das famlias italianas a reunio de toda a famlia para o jantar. Mesmo sem idade suficiente para comer  mesa, Angelina ficava ao lado deles no
carrinho enquanto faziam a refeio, brincando e balbuciando seus primeiros sons. Pelo menos Alice tinha algum com quem conversar, algum com quem podia agir naturalmente.
      Ela e Marco haviam conseguido estabelecer uma rotina de uso dos quartos e dos banheiros, mesmo sem haver discutido isso, que lhes permitia privacidade e a
manuteno da fico do casamento.
      Apesar de tudo, Alice sabia que tinha de ser grata a Marco por sua discrio e pelo fato de se manter estritamente dentro das regras do acordo que haviam feito.
      Mas sentia-se rejeitada e sozinha. A verdade era que seu corpo se ressentia mais da falta de Marco do que antes de ele a ter possudo... mesmo que fosse uma
humilhao ter de admitir isso.
      Quando Alice entrou na sala de jantar com Angelina no carrinho, Marco j estava l, de costas para a entrada, olhando atravs de uma das janelas que dava para
o jardim de inverno. A janela estava aberta e Alice podia ouvir o som da gua que jorrava da fonte, o principal ornamento daquele espao.
      Embora houvesse se virado quando as ouviu. Marco no sorriu. Parecia preocupado e distante, Alice logo percebeu, e esse seu sentimento foi ficando mais forte
no decorrer da refeio. Ele parecia se colocar atrs de uma parede de nvoa, mantendo um silncio que ela relutava em quebrar.
      Depois que terminaram o jantar, Marco anunciou abruptamente que subiria com elas para colocar Alice para dormir.
      - Amanh de manh devo ir para Roma - ele disse a Alice. - Voc tem o nmero do meu celular. Por favor, no hesite em me ligar se precisar falar comigo por
qualquer razo.
      Assentindo, Alice suspeitou que ele estivesse falando da possibilidade de Angelina ficar doente. Mas felizmente, a garota s estava ficando mais forte nos
ltimos meses. Tinha um rosto rosado, alimentava-se bem, estava cada dia mais esperta.
      - Angelina vai sentir sua falta - Alice disse a ele, enquanto a ajudava a subir as escadas com o carrinho. - Acho que iria gostar de um cadeiro, assim poderia
jantar conosco. Pensei em ir at Florena comprar um enquanto voc estiver ausente...
      - O que... Ah, sim, claro. Compre o que precisar, Alice.
      Alice sabia que havia algo errado com ele. Meia hora mais tarde, voltou ao quarto principal, com a desculpa de mostrar a  Marco o tecido que escolhera para
as cortinas, mas parou a um canto, ansiosa. Marco no percebera sua presena e estava parado perto do espelho, segurando a fotografia de seu primo Aldo.
      Alice sentiu seu corao se apertar quando olhou para ele. Apenas  duas fotografias decoravam a cmoda quando eles se casaram. Uma de Aldo e outra dos pais
dele com um garotinho. Depois do casamento fora colocada mais uma, de Alice com Angelina no colo.
      Ela ficara chocada na primeira vez em que vira a foto, mas imaginou que os outros membros da famlia de Marco esperariam que exibisse a foto de sua esposa.
      - Marco.
      Alice chamou-o em voz baixa, e no se surpreendeu quando ele no respondeu de pronto. Depois de colocar a fotografia  no lugar, ele se virou.
      - Hoje seria o aniversrio dele. Faria vinte e sete anos... enquanto eu viver no esquecerei a cena que vi quando fui chamado depois do acidente. - Seu rosto
estava marcado pelo sofrimento. - E nunca vou deixar de sentir que poderia ter feito algo para impedir que acontecesse. Qualquer coisa.
      - No deve dizer isso - Alice protestou imediatamente, esquecendo-se de seus prprios sentimentos e envolvendo-se nos dele. - Ele era adulto, Marco. Era ele
quem tomava suas prprias decises...
      - Tomava mesmo? - Marco perguntou magoado. - Ou era Patti e eu que fazamos isso por ele?  verdade que eu nunca quis que se casassem... mas eu nunca quis
que isso acontecesse.
      O sentimento que ele lhe despertava era to forte que tudo o que Alice queria era abra-lo. Instintivamente, obrigou-se a se afastar dele antes que no se
contivesse. No percebeu o olhar que ele lhe lanou nesse momento. Marco parou de falar e olhou para longe.
      - Eu o criticava por seu estilo de vida, por viver to.. - Ele balanou a cabea. - Mas  justamente isso que me traz algum conforto. Pensar que Aldo aproveitou
a vida ao mximo. Que viveu intensamente. Amou, dividiu esse amor... teve um filho... o nico jeito que temos de nos manter imortais.
      Alice no fez nenhuma tentativa de falar. Sabia que ele precisava desabafar, dar voz a seus sentimentos de raiva e de perda.
      Quando Marco se moveu em direo  escrivaninha em frente  janela, Alice surpreendeu-se ao ver uma garrafa de vinho aberta.
      Embora ele bebesse vinho s refeies, ela nunca o vira tomar qualquer bebida alcolica em outra ocasio. Ele encheu o clice com o lquido vermelho-escuro
e bebeu rapidamente.
      - Ele era o mais novo da famlia, era como um irmo para mim... Nunca pensei que... - Marco tomou outro grande gole de vinho. - Eu queria proteg-lo do mesmo
modo que voc faz com as crianas de quem cuida, Alice, e o fato de estar morto me faz sentir que falhei com ele. Eu devia ter percebido o que iria acontecer, devia
ter feito algo para que no acontecesse.
      Dessa vez ele esvaziou o clice.
      - Como voc poderia imaginar? - Alice disse gentilmente, tentando confort-lo.
      - Eles s vieram ao palazzo porque os chamei. Estava preocupado com os comentrios de que iriam se separar. Por minha insistncia Aldo trouxe Patti consigo.
Pensei que, se passassem algum tempo aqui, longe das distraes de Roma, poderiam se entender. Mas o que esse tempo fez foi acentuar as diferenas entre eles.
      Ele pegou novamente a garrafa de vinho, e instintivamente Alice se aproximou e tocou seu brao, num murmrio de protesto.
      - Que alternativa eu tenho? - Marco falou asperamente. - Voc? Minha esposa? - O rancor contido no olhar dele a assustou. - Voc ficaria chocada se lhe dissesse
que me sinto to mal que poderia dormir com voc mesmo sem amor?
      As palavras dele fizeram com que Alice recuasse, magoada. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele se aproximou dela, provocando-a.
      - Sei que voc  uma mulher generosa a ponto de dar amor a uma criana que precisa de voc, mas ser que  generosa a ponto de permitir que eu... acalme a
minha dor em voc? Ser que voc pode me ajudar a sentir que estou vivo, que sou humano, que sou um homem?
      Alice sabia que ele s dizia aquilo porque estava sob o efeito do vinho que tomara e da dor que sentia. Sexo era uma necessidade muito mais premente para os
homens do que para as mulheres, Alice sabia disso. Mesmo assim, no fez nenhuma tentativa de se afastar dele, mesmo tendo certeza de que era o que devia fazer.
      E como ela permaneceu ali. Marco interpretou isso como um convite. Alice sabia exatamente o que ele faria quando se aproximou dela e a abraou, correndo as
mos por seus braos nus, o hlito de vinho perigosamente sedutor contra sua pele quando ele lhe beijou a testa e o pescoo.
      - Deixe-me me afogar em voc, doce Alice...
      As palavras que o afastariam estavam na ponta da lngua de Alice. Para o bem de ambos ela sabia que devia interromper aquele jogo perigoso. Mas recusava-se
a diz-las, e seu corpo j respondia, em sua prpria linguagem, s palavras de Marco.
      - Doce, linda Alice... No sabe o quanto tem me perturbado, me tentado, nas ltimas semanas. O cheiro do seu perfume neste quarto, o som de seu riso quando
brinca com Angelina, as formas do seu corpo por baixo de suas roupas quando se move... e minhas lembranas de quando estava nua... Eu quero voc, Alice! Quero me
perder em sua doura... esquecer minha dor e minha culpa...
      Alice no sabia qual dos dois dera o primeiro passo  frente, mas seus corpos j estavam quase colados, e ela no se importava com mais nada. Naquele momento,
s queria saber que Marco a desejava, que precisava dela. E tudo o que queria era corresponder ao desejo dele.
      Instintivamente ela o abraou com fora, levantando o rosto e oferecendo os lbios. Ele os capturou imediatamente, fazendo-a tremer.
      O beijo era forte e possessivo. O beijo de um homem guiado por paixes primitivas. Suas mos cobriam o rosto dela e a seguraram, como se fosse obrig-la a
fazer tudo o que quisesse. Mas era exatamente ali que Alice queria ficar, como se uma fora mais poderosa que qualquer instinto de proteo estivesse em jogo, mantendo-a
colada a ele enquanto o beijo se aprofundava ainda mais.
      Uma das mos de Marco desceu por seu queixo, seu pescoo, acariciando-lhe a pele. Continuou deslizando lentamente pelas costas at a cintura, e ento apertou-a
ainda mais contra si, de modo que seus corpos ficara ainda mais juntos.
      - Voc pode sentir o quanto a desejo? - ele sussurrou em seu ouvido.
      Alice tremia, consciente da excitao dele e do quanto isso intensificava seu prprio desejo.
      - Voc tem seios lindos, feitos para ser beijados. - Marco a abraava com fora. - O que foi? No acredita em mim? - perguntou quando ela automaticamente balanou
a cabea,, abalada pela intimidade das palavras dele. - Quer que eu prove como os acho lindos?
      O vestido de Alice escorregou por seu corpo quando Marco desceu o zper que o fechava nas costas. Ela fechou os olhos. No apenas para no ver sua nudez, mas
para que Marco no percebesse em seus olhos o amor ridculo que sabia que estaria revelado neles.
      O que estava fazendo era to arriscado, to perigoso e potencialmente autodestrutivo... Alice sabia como Marco se sentia em relao a ela, ou melhor, como
no se sentia. Ser que a conscincia de que estava se aproveitando da vulnerabilidade dele para satisfazer seu prprio desejo no a faria parar?
      As mos dele estavam pousadas em seus ombros, e ele beijava a base de seu pescoo. O ar da noite estava frio contra sua pele nua, mas Alice sabia que no era
esse o motivo pelo qual seus mamilos estavam arrepiados e sensveis. As mos de Marco os acariciavam, enquanto ele dava pequenos beijos em seus olhos. Cada parte
de seu corpo ia se acendendo...
      - Sua pele  to branca, to macia... - ele murmurou. - H algo em voc, doce Alice, que desperta em mim um caador selvagem, que deseja estar em voc, penetr-la
com toda a fora do meu desejo.
      Alice no conseguia falar, mas sentia que conhecia cada vez mais o homem que lhe dera tanto prazer na noite de seu casamento. Ele a desejava desde ento, e
a desejava naquele momento. Mas desejo no era amor, tentou alertar a si mesma. Seu corpo, entretanto, no queria escut-la e respondia a Marco com flagrante sensualidade.
      - No me olhe desse jeito.... a no ser que acredite no que esses seus grandes olhos esto me dizendo. Quer que a leve para a cama, que cubra seu corpo com
o meu... Quer que a toque de todas as maneiras que um homem pode tocar uma mulher, quando deseja que ela gema de prazer!
      Alice estava tremendo tanto que se ele no a estivesse segurando no poderia se manter em p. Aquelas palavras a excitavam tanto quanto as caricias incessantes
em seu corpo nu. As mos fortes dele aqueciam sua pele e a atormentavam, fazendo-a desej-lo mais e mais.
      - Essa  sua resposta? - Marco perguntou suavemente quando, sem parar de beijar-lhe a boca, tomou-a nos braos e colocou-a na cama.
      - Sei que me deseja, assim como eu a desejo - ele completou, segurando-lhe um seio e sugando o mamilo, enviando ondas de excitao por todo o seu corpo.
      Quando ela se rendeu aos seus prprios desejos, tocando-o e beijando-lhe o peito nu, foi a vez de Marco gemer alto. Alice forava a cala que ele ainda vestia,
clamando pelo acesso a seu corpo todo. Subitamente ele sentou-se a seu lado, os olhos brilhantes fixos nos dela com uma expresso de triunfo.
      - E isso o que quer?
      Alice no conseguia dizer em palavras, mas foi at ele e continuou a toc-lo, provoc-lo, totalmente envolvida no que fazia. Podia sentir os pelos macios sob
seus dedos, o perfume da pele masculina e seu gosto quando seus lbios ali pousaram. Quando Marco removeu o restante de suas roupas, Alice pde continuar sua explorao,
totalmente guiada pelo desejo. Instintivamente sabia o que fazer, Marco a estimulava a toc-lo ainda mais intimamente, toc-lo e acarici-lo do mesmo modo como,
ele sussurrava em seu ouvido, ele faria com ela.
      Enquanto falava, ia gentilmente afastando a calcinha que Alice ainda vestia, seus lbios percorrendo novos caminhos com pequenos beijos delicados.
      - Voc sabe que efeito me faz saber que fui eu que despertei voc para o desejo, Alice? - ele perguntou. - Na noite do nosso casamento eu a machuquei, eu sei,
mas acho que tambm lhe dei prazer. Me diga... diga como se sentiu... -ele pediu docemente.
      Alice gemeu baixinho. Ouvir aquelas palavras a estava excitando de uma forma incontrolvel. Apenas lembrar-se de como se sentira naquela noite, enquanto Marco
a penetrava, fazia com que todo seu corpo ardesse de desejo e da urgncia que sentia por ele.
      - Me diga... - Marco insistiu.
      - Foi bom... bom... - ela admitiu num sussurro.
      - To bom que ainda consegue se lembrar da sensao? Porque se no foi assim, desta vez voc se lembrar - ele prometeu suavemente.
      Seu toque se tornava cada vez mais ntimo e quando Alice arqueou os quadris contra a mo dele, Marco estremeceu e se colocou sobre ela. Instintivamente. Alice
o enlaou com as pernas e procurou se aconchegar a ele, saboreando a delicadeza com que ele a penetrava desta vez. Sentiu que Marco aumentava o ritmo de seus movimentos,
parecendo escutar seus pedidos, Logo chegaram as contraes intensas, fortes, que faziam com que ambos mergulhassem em um turbilho de prazer e emoo.
      Quando finalmente relaxou, Alice percebeu que lgrimas grossas rolavam por seu rosto, pela intensidade de sua experincia. Seria to fcil convencer-se do
carinho que havia nos olhos dele, enquanto secava suas lgrimas.


      Marco acordou assustado. O quarto estava escuro e nenhum som vinha do quarto de vestir, o que indicava que no fora Angelina quem o fizera despertar. Havia,
sim, um rudo pouco familiar em sua prpria cama. A respirao suave de Alice.
      Alice! Seu corao falhou um batimento. O efeito do vinho que havia tomado j desaparecera, e o desespero que sentira pela morte de Aldo transformara-se em
uma dor suportvel. Mas nada serviria como desculpa para o que fizera. O que acontecera ao autocontrole que ele sempre se orgulhara de possuir?
      A ltima coisa que Alice iria querer quando acordasse seria v-lo deitado ao lado dela. Cuidadosamente, Marco escorregou da cama, parando apenas mais um instante
perto dela para cobrir-lhe o corpo nu, com um gesto protetor.
      Ela parecia to jovem e to docemente atraente em seu sono...
      Incapaz de se controlar. Marco inclinou-se e beijou suavemente seus lbios antes de se dirigir  cama estreita que Alice normalmente ocupava.
      Quando Alice acordou, Marco j partira para Roma. Ela disse a si mesma que precisava de um espao para respirar e conseguir reunir foras para lutar contra
seu amor por ele. No podia continuar com aquilo. Mas tambm no podia ir embora. Assim como Marco, ela devia colocar os interesse de Angelina acima dos seus.
      J fazia quase uma semana que Marco partira. Ele telefonara todos os dias, s vezes duas vezes por dia, mas claro que para saber se Angelina estava bem. Naquela
noite ele iria voltar, embora houvesse avisado que teria uma reunio aps o jantar e que pegaria o ltimo vo noturno.
      O telefone tocou e Alice automaticamente atendeu, os msculos de seu estmago se contraindo de excitao ao imaginar que ouviria a voz de Marco. Mas a ligao
era de Francine, a av de Angelina.
      Disse apenas o nome de Marco, de um modo autoritrio.
      - Receio que no seja possvel falar com ele - Alice respondeu to educadamente quanto pde. - Est fora, viajando a negcios.
      - Oh,  voc! - a mulher retrucou com desprezo na voz. - A bab, ou eu deveria dizer, a nova condessa... No pense que no sei o motivo desse casamento. Mas
ele no vai me fazer desistir de meus planos, j consegui bons advogados. Quando vai estar de volta? Preciso falar com ele - ela perguntou abruptamente.
      Quando Alice hesitou, sem saber que tipo de resposta. Marco gostaria que desse, embora soubesse exatamente o que gostaria de dizer, ouviu a voz estridente
de Francine do outro lado da linha.
      - Est tentando proteg-lo? Que pattico! Suponho que est apaixonada por ele? Mas sabe que ele est apenas usando voc, no sabe? Tenho todo o direito de
ver minha neta e  exatamente isso que farei. No importa quando Marco vir. Estou de partida para a.
      O corao de Alice acelerou com as palavras da mulher. Sabia que nada do que dissesse a impediria de chegar ao palazzo. S esperava que Marco estivesse de
volta antes disso.
      Alice no dormira direito desde que Marco partira, de forma que quando terminou a refeio foi logo para a cama. No havia razo para que no se deitasse cedo,
pensou. Marco s chegaria nas primeiras horas da manh, e quando chegasse, no havia nenhuma razo para que quisesse v-la.
      Sabendo que chegaria em casa to tarde, Marco havia deixado seu carro no estacionamento do aeroporto. Enquanto dirigia pela longa estrada que levava at o
palazzo, ele reconheceu o quanto estava cansado, e o quanto sentira falta de Alice.
      Em Roma, inconscientemente, estava sempre procurando por ela, como se ouvisse sua risada e o som de sua voz, tranqila e melodiosa. Se estivesse grvida, teria
de ficar com ele. O mero pensamento de poder acompanhar o desenvolvimento da gestao de um filho seu o fazia sentir-se tomado por um encantamento inimaginvel.
      No devia permitir a si mesmo pensar naquilo. Alice tinha o direito de dedicar livremente seu amor ao homem por quem viesse a se apaixonar e que a amasse tambm.
Se ele tentava lhe negar esse direito, ento no podia am-la.
      Alice tremeu ao lembrar-se de seu pesadelo. Francine sorria ao dizer que o juiz decidira que Angelina deveria morar com ela. Acordou com a boca seca, os olhos
lacrimejantes. Saindo da cama, entrou no quarto principal, dirigiu-se ao banheiro e ento parou quando a luz do luar revelou a silhueta de Marco adormecido na cama
em frente a ela.
      Ele estava de volta. E ela no o ouvira chegar.
      Impulsivamente, Alice rodeou a cama p ante p, sem poder resistir  tentao de ver seu rosto adormecido. Em repouso, o rosto de Marco parecia mais suave,
os cabelos escuros desarrumados e a barba que comeava a despontar, mais atraentes. Sem pensar no que estava fazendo, Alice se aproximou e tocou o rosto dele com
a ponta dos dedos, imaginando qual seria a sensao da barba contra sua pele. Mesmo enquanto dormia, a aura de masculinidade que ele emanava a envolvia poderosamente.
Seus dedos chegaram  boca dele.
      Levou um enorme susto quando subitamente os olhos de Marco se abriram ao mesmo tempo que sua boca se fechou sobre os dedos dela e as mos a enlaaram pela
cintura, puxando-a para mais perto dele.
      - Marco! - ela protestou.
      Mas a sensao de t-lo sugando seus dedos daquela forma fez com que murmurasse seu nome mais uma vez, mais como um longo e trmulo gemido de desejo, do que
como uma clara objeo.
      Marco libertou-lhe os dedos, mas manteve-a cativa em seus braos.
      - Eu no devia fazer isso. - ele murmurou. - Mas no h
como no fazer.



      CAPITULO XII


      Vou falar pela ltima vez. No vou lhe dar nenhum dinheiro. No compro crianas. Quando olhou diretamente para Francine, atento ao seu prprio dio, Marco
reconheceu o quanto se sentia tentado a dar o dinheiro a ela.
      Se pelo menos pudesse acreditar que fazendo aquilo a tiraria da vida de Angelina para sempre... Mas nem isso.
      Chantagem era uma coisa aviltante, odiosa. Cedo, muito cedo, Francine voltaria querendo mais dinheiro, e aquela situao se eternizaria.
      E Angelina nunca estaria segura. No, por mais arriscado que fosse, ir ao juiz e estabelecer com quem a beb deveria ficar era o melhor caminho. - Vai se arrepender
por isso - Francine avisou mordazmente. - Voc diz que ama Angelina e no pode lhe dar um milho de dlares, sendo que isso no lhe faria falta alguma - ela o provocou.
- E esse  o tipo de amor que tem por ela.
      - Diga isso de voc - Marco retrucou com frieza. -  Mas ns dois sabemos que sentimentos no entram em questo para voc, no ? S conhece o amor que sente
por si mesma. Consegue perceber o que est arriscando vindo aqui me chantagear?
      - Como poder provar que vim aqui? - Francine sorriu com ironia. - Comprando outro dos seus criados? Meu advogado far com que o juiz compreenda que eles dependem
de voc, e por isso fazem tudo o que ordena. E se estiver pensando na nova condessa... - Seu olhar adquiriu um tom de zombaria mordaz. -  Quanto pagou a ela para
se casar com voc? Ou simplesmente a seduziu? Garota tola! Um homem s valoriza o que tem que pagar para conseguir. E quanto mais ele paga, mais valoriza.
      - Tenho certeza de que fala com conhecimento de causa, Francine. - Marco no perdeu a calma. - Mas se ousar colocar Alice novamente dentro da sua srdida escala
de valores, ter um bom motivo para se arrepender.
      - No ouse me ameaar - Francine disse teatralmente. - Essa  sua ltima chance, Marco. Se no aproveit-la, juro que levarei Angelina para longe de voc.
Ela  minha carne, meu sangue. Sou sua parente mais prxima.
      - Uma me que vendia sua prpria filha a quem pagasse mais. Nenhum tribunal vai lhe dar crdito quando souber de sua histria - Marco disse, com a confiana
que lutava internamente para manter.
      - Voc vai pagar por isso! - Francine o encarou. - Eu prometo a voc que desejar ter pago quando teve oportunidade, porque agora perdeu qualquer possibilidade
de ficar com Angelina.
      - A deciso no cabe a voc - Marco lembrou-a.
      Entretanto, quando a viu continuar sua cena pelo palazzo ao dirigir-se para o carro, reconheceu que no estava to confiante quanto fingia.
      Em um mundo justo ele certamente ganharia a custdia de Angelina para seu prprio bem, mas Francine podia ser extremamente convincente. Sabia como manipular
as situaes, e era perigosa.
      Francine tremia de raiva enquanto se afastava do palazzo. Tinha certeza de que Marco lhe daria o dinheiro que desejava desesperadamente, muito mais do que
ele imaginava. Havia perdido muito dinheiro no jogo e se envolvido com pessoas perigosas. Elas agora queriam que Francine desenvolvesse atividades ilegais como uma
maneira de pagar o que devia.
      Por isso procurara Marco em desespero. Precisava repor aquele dinheiro. No investira tanto para agora arriscar sua vida.
      Os pneus do carro cantaram quando saiu pela estrada do palazzo.
      Alice, que estava passeando com Angelina no carrinho, viu apenas a nuvem de poeira quando Francine passou por ela como um raio. Estava j no jardim com Angelina
quando a mulher chegara, e ficava aliviada por ver que a conversa durara pouco.
      Devia haver um modo de fazer com que Marco pagasse, Francine pensava freneticamente. Tinha que arrancar aquele dinheiro dele. Fora apenas por isso que jogara
com a guarda de Angelina. A ltima coisa que queria era um beb dependente atrs de si. Aconselhara tanto Patti a interromper aquela gravidez, mas Marco, italiano
ultrapassado, interferira. Agora ele que pagasse o que devia.
      As mos de Francine se apertaram contra o volante quando viu Alice com a criana.
      Um sbito flash de inspirao lhe ocorreu no mesmo instante, e soube o que precisava fazer. Pisando no freio do carro, colocou-o em marcha-a-r.
      Alice no entendeu a princpio o que acontecia. Francine se dirigia a ela com um ar de desespero no rosto, caminhando rapidamente.
      - Me d minha neta - ordenou no momento em que as alcanou, colocando-se estrategicamente em frente a Alice e tirando Angelina do carrinho, antes que Alice
pudesse det-la.
      Angelina, acostumada a ser segurada com carinho, comeou imediatamente a chorar, deixando Alice ainda mais ansiosa.
      - Voc a est assustando - ela avisou com preocupao. - No est acostumada a ser pega assim. Deixe-me mostrar-lhe como ela gosta.
      - No me importo a mnima com o que ela gosta ou deixa de gostar - Francine disse agressivamente, prendendo a criana com apenas um brao e afastando-a de
seu corpo, enquanto, reagindo ao modo como fora pega, a pequena regurgitava o leite que tomara pouco antes. - No ouse ficar doente, sua pequena mal-educada - Francine
disse furiosamente, balanando-a to forte que Alice protestou. - Se no gosta do que estou fazendo, pior. Ela  minha neta e ir comigo.
      Alice no podia acreditar no que estava ouvindo. Francine no iria simplesmente pegar Angelina daquele jeito. Mas para seu desespero, ela estava realmente
se virando, sem dar a menor impotncia ao conforto da criana. Dirigia-se para o carro e logo j abria a porta do motorista. Pela primeira vez Alice se deu conta
de que o motor do carro ainda estava funcionando.
      Ficou em pnico. J havia lido sobre aquele tipo de coisas, sobre guerras de custdia, mas nem por um segundo imaginara que aquilo poderia acontecer com Angelina.
      - Voc no pode lev-la! Por favor... - ela protestou, a garganta seca de medo. - Ela  apenas um beb! Ela no conhece voc...
      Em meia hora estar com fome e...
      Francine percebeu que o que Alice dizia era verdade. Aquela insuportvel desataria a chorar e nada a faria parar.
      - Se est to preocupada, entre no carro. Quem sabe? Talvez Marco pague em dobro para ter as duas de volta.
      Alice a encarou. Francine estava seqestrando Angelina para que Marco pagasse um resgate?
      Era exatamente aquilo que deveria esperar dela, reconheceu. Tudo que sabia sobre ela apenas confirmava essa idia.
      No havia tempo para correr at a casa e gritar por algum. A mulher j jogara Angelina dentro do carro, e estava partindo.
      - Espere! - Alice gritou. - Vou com voc. Mas precisamos do carrinho e...
      - No se faa de tola! Entre j ou fique!
      Que opo ela tinha? No conseguia pensar em nada. Tremendo, entrou no carro, pegando Angelina no colo e tentando confort-la, enquanto Francine saa em uma
velocidade to alta que Alice foi jogada contra o encosto. Por sorte, Angelina j estava bem segura em seus braos.
      - Por favor - pediu a Francine. -Voc est indo muito rpido.
      - Pobre condessa. O que est tentando fazer? Conseguir que seu marido valento nos alcance? - Francine gargalhou histericamente. - S irei parar quando estivermos
em Roma. E ento, querida, eu e Angelina logo estaremos nos Estados Unidos, onde vamos ficar at que o seu precioso marido resolva ter algum bom senso.
      Francine fez a curva para entrar na estrada principal, e Alice estremeceu quando foi jogada de encontro  porta do carro. Angelina no suportaria poucos quilmetros
naquela velocidade, quanto mais at Roma, e sem comida!
      Alice jamais conseguiria odiar algum como odiava Francine naquele momento. Como podia fazer aquilo com a prpria neta? Sabia que no adiantaria tentar falar
com ela, a mulher parecia agir irracionalmente. Angelina soluava contra seu peito. Seus olhos estavam cheios de medo.
      - Est tudo bem, meu amor - Alice murmurou carinhosamente. No se preocupe... no se preocupe.
      Francine dirigia no meio da estrada, e quase bateu em um carro que vinha na outra direo.
      - S podia ser um homem - Alice a ouviu resmungar, enquanto pisava ainda mais no acelerador. - Como odeio homens! Todos eles, mas nenhum mais do que o seu
marido! - ela aumentou o tom de voz. - Tudo que tinha que fazer era me dar o dinheiro. Isso era tudo. Poderia ter ficado com essa criana chata e com voc, mas no...
ele diz que as ama, mas no faz nada. Nem de voc ele gosta muito, no ?
      Era novidade para ela que Marco alguma vez houvesse dito que a amava, mas Alice logicamente se manteve calada. Queria apenas imaginar um jeito de tranqiliz-la
para que reduzisse a velocidade. Se no o fizesse um acidente poderia ocorrer a qualquer instante!
      Demorou meia hora para que Pietro, retornando do campo, percebesse o carrinho de beb abandonado e relatasse o que vira a Marco.
      Marco, que pensara que Alice o estivesse punindo pela noite anterior mantendo-se afastada dele, rapidamente foi at o quarto. Encontrando-o vazio, imediatamente
pegou o carro e foi at lugar onde Pietro afirmara ter visto o carrinho vazio.
      As marcas de pneu no cho lhe disseram o que precisa saber.
      Francine! Sabia que, de alguma forma, Francine era a responsvel pelo desaparecimento de Alice e Angelina.
      - Oh, meu Deus - ele murmurou para si mesmo quando imaginou o que acontecera. - Oh, meu Deus!
      Uma vez que chegasse em Roma, telefonaria para Marco do aeroporto. Minutos antes que o avio partisse, pensou com prazer. E diria que o resgate de Angelina
lhe custaria dois milhes dlares. Claro que um milho a mais tambm pelo retorno da bab.
      Como iria persuadir Alice a entrar no avio com ela, Francine ainda no pensara, mas suspeitava que aonde quer que levasse Angelina, Alice a seguiria.
      Claro que Francine no poderia simplesmente deixar o pas com Angelina, Alice refletia.
      Havia formalidades, passaportes, documentos. Mas no podia dizer nada a ela que a levasse a um estado ainda maior de loucura e agitao.
      Angelina continuava vomitando, embora no tivesse nada em seu estmago. Alice tentava confort-la o quanto podia. A estrada do palazzo era estreita e cheia
de curvas. Mesmo quando Marco dirigira nervoso com ela aquele dia, ele era um motorista extremamente cuidadoso.
      Francine, por outro lado, estava to tomada por sua loucura que no parecia mais saber de que lado da estrada deveria estar.
      E foi assim que o inevitvel aconteceu. Ela entrou em alta velocidade em uma curva e teve que virar bruscamente para se desviar deu m carro que vinha em direo
contrria. Perdeu o controle do carro, e Alice tensionou o corpo, percebendo que o choque com o outro carro seria inevitvel. Instintivamente, envolveu Angelina
com seu corpo, o barulho do metal misturando-se aos gritos e a uma srie de pancadas. Sentiu dor em suas pernas, e ento o torpor. Um pesado silncio cara, uma
calma na qual ela quase se deixava levar para apaziguar a dor que sentia. Mas onde estava Angelina? Tinha que acalm-la.
      Alice percebeu que apenas alguns minutos haviam se passado depois que perdeu a conscincia. Mos fortes tentavam tir-la do carro, e sua dor era lancinante.
      - O beb! Vocs tm que pegar o beb! - ela ouviu-se insistindo, enquanto tentava virar a cabea para olhar para os olhos do homem que tentava pux-la ansiosamente.
      Suas costas haviam parado de doer. No podia sentir mais nada, exceto o cheiro da gasolina, e o medo nos olhos do homem que a forava para fora.
      Seus pensamentos estavam lentos e confusos. No podia ver Francine, mas podia sentir o calor de Angelina, seu pequeno corpo protegido contra o seu.
      - O beb! - ela repetia para quem a estava puxando. Pegue-a primeiro.
      Falar era um esforo supremo, seus lbios no a obedeciam, e ela no podia erguer a mo para toc-los porque parecia que todo o seu corpo estava preso por
algo pesado, um peso esmagador.
      - Rpido. H uma criana aqui - ela ouviu o homem dizendo em italiano.
      E um outro homem dizia:
      - Temos que tirar a mulher da.
      Tirar a mulher? Que mulher? De quem estariam falando? De Francine? Mesmo que no gostasse dela, esperava que estivesse bem.
      - O beb... - ela repetiu dolorosamente, enquanto a imagem do homem que se inclinava sobre ela parecia ir e voltar, em ondas. Angelina conseguiu soltar uma
de suas mos e tocou o rosto de Alice.
      Alice pde ver o choque no rosto do homem, o que a incomodou. Ele no ouvira o que ela tinha dito?
      - Voc deve dizer a Marco... ao conde... que Angelina est bem - ela falou com esforo. - Ele est preocupado com ela. Voc tem que ligar para o palazzo.
      Lentamente, foi conseguindo dizer ao homem o telefone e o endereo, resistindo  vontade de segurar Angelina quando ela foi gentilmente retirada de seus braos.
      Algum parecia colocar almofadas em sua cabea. Alice queria saber de Angelina, tentava protestar, mas no podia resistir ao sono.
      Marco foi avisado pela polcia, e meia hora depois chegava  cena do acidente. S o que pensava era que seria tarde demais. Dirigira ainda mais rpido que
Francine, e a cada curva se afligia pelo que poderia encontrar na estrada. Haviam lhe dito que Angeina estava bem.
      - E Alice? Minha esposa? Houve uma breve pausa.
      - Ela est presa na parte de trs do carro. Deve ter se curvado para proteger o beb, e a ferragem foi empurrada contra ela - o policial disse sombriamente.
      Quando Marco chegou ao local do acidente havia muita gente.
      O medo era como uma faca em seu peito.
      - Ainda no pudemos retirar sua esposa. J pedimos ajuda para Florena.
      Seu corao batia descompassadamente, em um ritmo violento. Tinha de ver Alice e nada nem ningum o impediria.
      - Preciso ver minha mulher - ele disse ao policial autoritariamente.
      Mesmo dizer as simples palavras "minha mulher" j o agoniava, mostrando-lhe o quanto Alice significava para ele, e o quanto a amava e precisava dela.
      - Ela est inconsciente no momento. - O policial franziu o cenho. - Houve um derramamento de gasolina causado pela coliso. No  seguro que ningum se aproxime.
      Passando Angelina para os braos de Madalena, Marco pediu calmamente.
      - Deixe-me ver.
      Sem esperar pela resposta do policial, foi cortando caminho por entre o cordo de policiais que cercavam os carros e ento foi obrigado a parar, a cabea girando.
      A cena parecia pior do que o acidente que levara Aldo e Patti.
      O pequeno carro tinha sido reduzido a nada com o impacto do outro carro, muito mais pesado. Ironicamente, o lado do motorista parecia intacto, mas a parte
de trs...
      - E um milagre que sua filha no tenha se machucado - o policial disse a Marco. - Amor de me  uma coisa maravilhosa. Ela se curvou de um jeito sobre a criana
que conseguiu proteg-la.
      - Com o olhar sombrio ele se voltou para Marco. - Infelizmente, ainda est presa entre a frente do carro e o banco de passageiros. No podemos mov-la, e no
sabemos como ela est. O mdico acabou de chegar e est tentando acord-la.
      Sem pensar. Marco abriu caminho em direo ao carro. Um homem estava agachado perto dele e segurava a mo de Alice.
      - Est sentindo alguma coisa? Alguma dor... alguma sensao? - perguntava a ela calmamente. Alice tentava se concentrar no que lhe perguntavam, mas era to
difcil... Tudo o que queria era fechar os olhos e voltar a dormir. Seu corpo parecia pesado e adormecido. Havia uma dor lancinante em sua cabea, e um gosto horrvel
de metal na boca. Sua mo no lhe parecia familiar... estava flcida e esquisita. Pelo menos Angelina estava salva, pensou contente e fechou os olhos.
      - No, voc tem que ficar acordada - o mdico estava dizendo duramente a ela. - No feche os olhos.
      Alice sentiu quando ele apertou fortemente sua mo. Estava se virando para falar com algum, mas ela no podia ouvir o que dizia.
      Quase entrou em pnico tentando entender o que falavam. Sentia-se to sozinha!
      O medo ameaava tomar conta de Marco quando ele se aproximou do mdico e perguntou o que estava havendo.
      - E importante que ela se mantenha consciente.
      Marco, que j podia ouvir o sussurro de medo de Alice dirigiu-se protetoramente at ela.
      - No sabemos ainda o quanto ela foi afetada. E no saberemos at conseguirmos tir-la da. Tenho que continuar falando com ela, mantendo-a acordada - o mdico
explicou pacientemente a Marco, percebendo como ele se sentia.
      - Deixe que eu faa isso - Marco pediu no mesmo instante.
      - Ela  minha mulher.
      O mdico hesitou, mas ele era insistente.
      Alice percebeu que Marco falava com ela, chamava seu nome. Dizia a ela que no podia dormir. Sabia que sonhava. Como ele poderia estar ali?
      A voz insistia. Mesmo sem crer, Alice procurou forar seus olhos a se abrirem, chocada quando percebeu que ele estava realmente ali, que no eram seus sonhos
tolos. Marco estava ali com ela!
      A alegria lhe trouxe mais adrenalina, vontade de falar com ele, seguida pela culpa quando percebeu que ele no devia estar ali por ela, mas sim por Angelina.
      - Tentei parar Francine - ela disse imediatamente. - Mas no consegui. Ela estava com Angelina. Disse que faria com que voc pagasse o resgate.
      As lgrimas encheram os olhos dela. Marco ouviu um pequeno soluo e gentilmente limpou seu rosto. Havia sangue na mo dele, ela percebeu com um vago sentimento
de choque.
      - Voc deve ter se cortado - disse a ele preocupada.
      - No  nada - Marco murmurou.
      A voz dele parecia rouca, como se alguma coisa prendesse sua garganta, como se estivesse com dificuldade de falar. Estaria bravo com ela?
      Sem poder imaginar o que Alice pensava, Marco aproximou sua cabea da dela. Alice pde ver as lgrimas em seus olhos. O sangue era dela, e o mdico lhe assegurava
que eram cortes superficiais, mas ele no queria assust-la ainda mais.
      Estava quente dentro do carro, e seus msculos j estavam doendo pela posio em que tinha se colocado para ficar to perto dela quanto pudesse.
      Segurando sua mo livre, ele falava com ela, dizendo o quanto fora corajosa, reassegurando-a de que Angelina estava bem.
      Alice sentia como se estivesse em um tipo de sonho. Ao longe percebia que ele segurava fortemente sua mo enquanto falava com ela.
      - Como se sente? Tem alguma dor?
      - Minhas costas estavam doendo... mas agora passou... -  A voz dela era muito fraca.
      - Foi mesmo? Que bom! - Marco respondeu vibrante, embora por dentro soubesse o que aquilo significava.
      Jurou a si mesmo que, por mais machucada que ela estivesse, devotaria o resto de sua vida a cuidar dela e a am-la.
      - Onde est... Francine? - Alice perguntou.
      - No sei - Marco respondeu com sinceridade.
      Uma das testemunhas disse haver visto uma mulher se afastar correndo do lugar do acidente, ele imaginara que devia ser ela.
      O caminho com a serra de corte havia chegado e a polcia dizia a Marco que, para sua prpria segurana, tinha que se afastar.
      Mas ele se recusava terminantemente.
      - Quanto barulho... - Alice murmurou quando as mquinas comearam a trabalhar.
      - Voc logo estar livre - ele a confortou.
      Uma ambulncia j estava estacionada ali, o mdico observava e esperava. No havia mais o que fazer.
      De algum ponto, Alice sangrava. Marco pde ver a enorme mancha vermelha no cho quando conseguiram tirar a ferragem de cima dela.
      - Est doendo - ela murmurou trmula. Seu rosto estava branco como cera, seus olhos refletiam a dor que sentia.
      - Seja corajosa, falta pouco - Marco sussurrou, sem saber como escolher as palavras.
      O mdico j se movia para perto deles, com uma seringa na mo.
      - Isso apenas vai relax-la, para que possamos mov-la com maior facilidade - disse a Alice.
      Marco no podia acreditar que tudo estava acontecendo novamente! No suportava pensar que Alice corria risco de vida.


      - Ento est voltando para casa... Que pena! - A enfermeira provocava Alice. - No vamos mais ver seu marido... Nada mais a alegrar nosso dia!
      Alice sorriu-lhe brevemente. Havia se acostumado quele quarto de hospital. Nas ltimas quatro semanas. Parecera-lhe to seguro que relutava em deix-lo.
      Todos eram to gentis com ela. To protetores. To prontos a segurar-lhe do quanto fora corajosa e da sorte que tivera. Seu principal problema foi que perdera
muito sangue com a perfurao do metal. Entrara em choque e quase morrera. Mas mesmo a ferida havia cicatrizado em tempo recorde, o doutor dissera, graas a sua
jovialidade.
      Por sorte, ela estivera desacordada no percurso at o hospital. Suas costas haviam sido duramente atingidas, mas nenhum dano permanente fora causado. Tivera
apenas que usar um colar de gesso para uma pequena fratura, e mesmo ele j havia sido removido.
      Os vidros que haviam penetrado seu rosto haviam sido totalmente retirados, e as pequenas cicatrizes logo desapareceriam, segundo o mdico. No havia como negar
que sua recuperao fora espetacular. Por que sentia ento tanto medo?
      O mdico dissera que estava pronta para ir para casa.
      Para casa com Angelina e Marco.
      Ser que seria forte o suficiente para estar com ele e continuar mantendo em segredo seus sentimentos?
      Pelo menos uma coisa boa acontecera com o acidente. Marco havia assegurado a Alice que nenhum juiz jamais daria a guarda de Angelina a Francine, sabendo que
ela respondia um processo por dirigir perigosamente, e por colocar em risco a vida da criana a quem dizia amar tanto.
      Com ternura, ele tambm lhe dissera do quanto se arrependia por no ter simplesmente dado o dinheiro a Francine, ao que Alice respondera com sua certeza de
que, se o tivesse feito, teria que se submeter por toda a vida s chantagens de Francine. E Angelina nunca estaria segura.
      Mas naquele momento, Alice estava aterrorizada em pensar em voltar  sua vida normal. Tinha muito medo de voltar ao palazzo. A realidade era que o motivo que
forara seu casamento mais. Marco no precisava mais dela. Pelo menos no como esposa . O isso significava...
      Alce no queria pensar sobre isso.
      - Pronta, ento?
      Nervosa, ela assentiu enquanto Marco pegava sua mala da cama e se virava para a porta do quarto do hospital. Por sua prpria insistncia, estava segurando
Angelina.
      Logo que se sentira um pouco melhor, Alice pedira s enfermeiras que deixassem que Angelina a visitasse, para que a pequena no tivesse a sensao de que ela
a abandonara. Sem dvida, era com esse objetivo que Marco a visitava com tanta freqncia, e passava as noites no hospital: pelo bem de Angelina.
      A nica coisa que pedira a ele foi que no avisasse sua famlia do que havia acontecido. Sua irm estava confiante de que ficaria grvida brevemente, e Alice
no queria preocup-la.
      Para sua surpresa, Marco resolvera viajar no banco traseiro junto com ela e Angelina, tendo pedido a Pietro que dirigisse.
      - Est tudo bem, Alice - ele disse calmamente, tentando imaginar o que a preocupava. - Voc est perfeitamente bem agora.
      Ela estava surpresa com o modo como Marco a olhava e segurava firmemente sua mo. Em todo o tempo que estivera com ela no hospital, ele no a tocara.
      Na verdade ela tivera mesmo a impresso que ele quisera manter a maior distncia fsica possvel em relao a ela, como fizera antes no palazzo.
      Parecia sempre frisar que a intimidade que haviam dividido no representava para ela nenhuma ligao emocional.
      O mero fato de estar sentada ali, segurando a mo dele como uma proteo afetuosa, fazia com que se sentisse emocionalmente frgil. Se pelo menos pudesse demonstrar
todo o seu amor, aproximar-se dele, encostar a cabea em seu ombro, sentir-se protegida em seus braos.
      Receosa de que pudesse se trair, mostrando a Marco o que sentia, Alice tirou sua mo da dele. Quando ele sentiu seu gesto, no resistiu e virou-se para a janela,
o olhar perdido na paisagem. Marco no podia imaginar o quanto sua garotinha sofreria se Alice partisse naquele momento. Nas primeiras horas depois do acidente,
quando Angelina tivera de ser separada dela, ficou chorosa, inconsolvel. Em desespero, Marco levou-a ao hospital. Quando a colocou ao lado de Alice na cama, ela
se acalmou, e incrivelmente, mesmo em estado de semiconscincia, Alice colocara de forma protetora seu brao em torno da beb.
      No. Marco sabia que no haveria para Angelina substituio para o amor de me que Alice lhe transmitia.
      Mas por outro lado, havia o respeito  prpria Alice, que sofrera tanto por causa dele. Ela tinha o direito de amar o homem que escolhesse, de dividir sua
vida com ele, de criar seus filhos.
      Marco ficou tenso com a intensidade da dor que o atingia ao pensar naquilo.
      O que deveria fazer?
      Conhecendo Alice, sabia que ela insistiria em honrar seu contrato original e ficar com Angelina pelos primeiros anos de sua vida.
      Mas, se o fizesse, onde ele encontraria controle suficiente para manter-se afastado dela?
      Mesmo que terminassem seu casamento, no faria a menor diferena, ele ainda iria desej-la, ainda iria am-la. Como proteg-la dele mesmo?
      Alice s ficou mais aliviada quando eles chegaram ao palazzo.
      Aliviada e cansada para ter qualquer escrpulo quando Marco avisou a Madalena que ela subiria e descansaria em seu quarto.
      - J comearam a trabalhar na sute principal - Marco avisou-a. - Eu queria que tudo estivesse pronto quando voc voltasse, mas no foi possvel. Talvez seja
at bom, porque suponho que queira supervisionar a decorao. Assim que estiver forte o suficiente, poderemos cuidar disso.
      Alice mal conseguia subir as escadas. Ele planejava continuar mantendo a fico do casamento? Por qu? Havia pensado muito enquanto estivera no hospital, e
chegara  concluso de que, com o fim das ameaas de Francine, Marco iria querer to logo quanto possvel terminar com o incmodo casamento.
      Ela disse a si mesma que deveria ficar grata por aquilo. Com o fim de seu casamento, seria mais fcil lidar com seu amor Por ele. No poderia deixar Angelina,
sabia disso. E se Marco sugerisse que ela o fizesse?
      Lgrimas surgiram em seus olhos ante o pensamento de deixar a pequena. Estavam chegando  porta do quarto, e Marco lhe disse bruscamente quando abriu a porta.
      - Vou deixar que descanse. Madalena subir daqui a algum tempo para ver se precisa de alguma coisa.
      Foi s quando se afastou um pouco dela, que Marco percebeu brilho em seus olhos e parou.
      - O que foi? - ele perguntou imediatamente. - Por que est chorando? Est sentindo alguma dor? Onde ? Diga-me.
      Alice deu um pequeno soluo. Era melhor que Marco continuasse achando que se tratava de alguma dor fsica. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Marco
subitamente explodiu:
      - Alice, por favor, no chore! No posso agentar... No posso agentar imaginar o quanto sofreu! O quanto eu a fiz sofrer. Teria feito tudo o que pudesse
para evitar, eu lhe juro! No faa isso...
      Ela o ouvia pedir, enquanto chorava ainda mais, chocada por perceber que de alguma maneira ele descobrira o quanto o amava.
      - Eu tambm teria evitado se pudesse. - Ela tentou se controlar, percebendo subitamente que j estavam dentro do quarto e que Marco a estava segurando pelos
braos. - No queria amar voc. - disse simplesmente. - Eu...
      Ela pde sentir a tenso no corpo dele. Os braos que a amparavam subitamente afrouxaram, e Marco deu um passo para trs. Alice tremia, sentindo falta de seu
apoio.
      - Alice, o que est dizendo?
      Havia choque, um tom quase de aviso em sua voz, mas Alice ignorou-o. No importava mais o que ela dissesse, ele j deixara bvio que sabia o que ela sentia.
      - Estou dizendo que o amo, Marco. Que sempre o amarei. E que eu queria, mais que qualquer coisa no mundo, poder ter concebido um filho seu - ela confessou
a ele sem se arrepender. - Pelo menos eu poderia am-lo. Sei que no me quer. Sei que vai querer terminar nosso acordo, porque no h mais razo para mant-lo, mas,
por favor, pelo bem de Angelina, me deixe continuar com ela como planejamos no incio. Ela precisa de mim. Marco, e eu lhe prometo que no vou...
      Enquanto as palavras saam da boca de Alice, Marco podia apenas ouvi-la sem acreditar.
      - Que no vai o qu? - ele a desafiou com a voz firme, quando percebeu que havia interrompido o que dizia.
      Alice balanou a cabea, o rosto tenso quando se recusou a colocar em palavras o que pensava.
      - Que no vai mais permitir que eu faa isso? - ele sugeriu, causando-lhe um choque quando a tomou nos braos e inclinou a cabea para lhe dar um beijo rpido
e afetuoso nos lbios. - Ou isso... - ele murmurou passando a lngua gentilmente pelos lbios dela, forando-os a se entreabrirem.
      Alice estava trmula de ansiedade e paixo. O que ele estava tentando fazer com ela? Estava querendo deliberadamente atorment-la? Puni-la?
      Foi quando, para seu espanto, ela o ouviu dizer docemente, a voz rouca de emoo:
      - Alice, minha pequena... Meu doce amor, meu nico amor. Eu mal posso acreditar que isso  real. Que possa me amar quando fiz to pouco para merec-la...
      Marco a chamara de seu nico amor! Confusa, Alice tentava entender o que estava acontecendo, mas Marco a beijava de um jeito to apaixonado que no conseguia
pensar.
      Muitos minutos depois, afastando-se relutantemente dos lbios dela, Marco gemeu.
      - Voc devia estar descansando...
      Mas quando olhou bem em seus olhos, fora com tal paixo que ela no podia conter seu corao que batia descontroladamente. E no podia evitar que seu rosto
queimasse, quando sem querer olhou de Marco para a cama, num apelo mudo.
      - No faa isso! - Marco protestou severamente. - Sou apenas um homem, e nunca senti tanto medo em minha vida como nessas ltimas semanas. - Ele fez uma pausa
e balanou a cabea.
      - Achei que j conhecia toda a dor de perder algum, mas estava to errado! Eu no sabia de nada! Se tivesse perdido voc, toda a minha vida perderia o sentido!
      Alice lutou para respirar, pois o ar parecia lhe faltar nos pulmes
      - Mas se eu pudesse voltar atrs... voc jamais teria entrado naquele carro... Eu teria pago a Francine ao invs de...
      Alice teve medo. Ele havia dito que a amava, mas seria aquele amor apenas produto de sua culpa?
      - Voc no tem... no tem que me amar... - ela falou, tentando encontrar as palavras certas para exprimir seus pensamentos.
      - Sim, eu tenho - Marco a contradisse no mesmo instante. - Eu tenho que am-la, Alice, porque esse  o meu destino... Acho que j sabia disso horas depois
de nos encontrarmos - ele acrescentou firmemente.
      Ela olhava fixamente em seus olhos.
      - Claro que tentei me enganar - Marco continuou. - Nenhum homem admite facilmente que no tem total controle de sua prpria vida. Eu tinha clareza de que quando
escolhesse me casar, essa seria uma deciso tranqila, racional, tomada por razes lgicas Claro que eu iria respeitar e cuidar de minha esposa, mas...
      - Ela no seria uma mulher acusada de roubar maridos alheios, e,  lgico, seria italiana - Alice completou asperamente.
      - Tem razo em me lembrar de como a julguei mal - Marco reconheceu. - Sinto muito.
      - Posso entender que um homem em sua posio, que tem toda a tradio de sua famlia atrs de si, tem valores e expectativas tambm tradicionais - Alice disse,
cuidadosamente escolhendo as palavras. - O fato de ter acreditado que eu era sexualmente prmscua...
      - No - Marco a interrompeu bruscamente. - Admito que tentei acreditar nisso, mas mais como autodefesa, para evitar assumir meu amor quando parecia que voc
no me queria. Mas no demorou muito para que eu percebesse sua honestidade, Alice, e a pureza de seu esprito. - Ele fez uma pausa. - No dia de nosso casamento,
quando fizemos nossos votos, eu sabia que amava voc, e que sempre a amaria. Infelizmente, no fui forte o suficiente para controlar meus... atos.
      Alice sentia um n de emoo preso na garganta. Aquelas palavras significavam tanto para ela.
      - No consegui me conter como deveria, precisava...
      - Acreditar que eu estava sexualmente disponvel? No mesmo instante. Marco balanou a cabea.
      - No, certamente que no. Isso nunca passou pela minha cabea - ele negou com a voz firme.
      - Mas ficou chocado ao descobrir que era minha primeira vez - Alice lembrou a ele. - E quando se distanciou tanto de mim e me disse que aquilo no deveria
voltar a acontecer, percebi que no me amava.
      - Pelo contrrio. S fiz aquilo porque a amava - Marco corrigiu. - Eu a julguei mal e depois abusei da confiana que depositou em mim quando concordou com
nosso casamento. Eu sabia que no devia confiar em mim mesmo, que no poderia me controlar, uma vez que a toquei, no poderia mais parar. Por isso tentei me afastar
de voc, foi para sua proteo. Se eu tivesse imaginado que tambm me amava...
      Alice olhou para ele, o rosto corado.
      - Devia ter tido certeza disso pelo modo como respondi a voc... na... cama.
      - Talvez eu devesse mesmo - Marco concordou. - Se eu no estivesse convencido de que seu instinto natural e sua inocncia eram os nicos responsveis pelo
jeito irresistivelmente sexy com que voc se deu para mim. Na verdade, isso apenas me deu outra razo para me sentir culpado e envergonhado. E se eu a tivesse engravidado?
      Erguendo o rosto contra o peito dele, Alice murmurou suavemente:
      - Queria tanto que isso tivesse acontecido...
      - Alice...
      Ela sentiu que Marco dizia seu nome em um gemido, seus braos enlaando-a com mais fora.
      - Se tivesse me dado mais uma indicao de como se sentia... Um sorriso envergonhado emergiu nos cantos da boca de Alice, quando ergueu a cabea e olhou diretamente
em seus olhos.
      - Eu pensei que havia lhe dado mais de uma dica - ela o provocou gentilmente, lembrando-se de como o encorajara a perder-se nela, como ele prprio dizia.
      - Talvez eu no estivesse muito concentrado - Marco respondeu com voz rouca, lanando-lhe um olhar que fez com que um arrepio profundo percorresse todo o seu
corpo.
      - Talvez deva lhe dar mais algumas pistas? - O qu? Agora?
      Naquele momento, quando ele no tinha mais com que se preocupar, quando o desejo e o amor brilhavam nos olhos dele com tal intensidade, ela achava que iria
derreter. Ousada, alcanou os lbios dele, tremendo de prazer quando sentiu a reao ntima do corpo dele abraado contra o seu.
      - Alice! - Marco a repreendeu.
      Sem se censurar mais, Alice correu a lngua pelos lbios dele, ofegante de prazer quando ele capturou sua boca em um beijo apaixonado.
      - Leve-me para a cama, Marco - ela murmurou com a voz rouca, quando finalmente foi capaz de falar.
      - Acha que j est suficientemente recuperada? - ele perguntou gentilmente, enquanto afastava uma mecha de cabelos de seu rosto, e admirava-a carinhosamente,
deitada entre os travesseiros, o rosto vermelho dos beijos que haviam trocado.
      Sua blusa estava entreaberta, deixando antever a pele alva e a suave curva de seus seios. Marco no resistiu e comeou a acarici-los, enquanto Alice ofegava
de prazer.
      - Acho que essa  a melhor terapia que posso ter - ela respondeu, a boca se curvando em um sorriso suave quando o abraou e o trouxe para mais perto de si.
      - No sei o que faria se tivesse perdido voc - Marco confessou emocionado, horas mais tarde, enquanto descansavam abraados, com a luz do sol poente a brincar
sobre seus corpos nus. - Minha vida teria acabado se houvesse perdido voc naquele acidente, Alice. Prometa-me que nunca, nunca vai duvidar do meu amor por voc.
      - Eu prometo - Alice assegurou, num sussurro apaixonado.



      EPLOGO


      Cinco anos depois...


      Voc sabe que dia  hoje? - Marco perguntou a Alice de um modo provocante, enquanto lhe segurava o rosto para beij-la. Ela estava linda, sentada comodamente
em uma cadeira de balano, no playground que haviam construdo para seus filhos na rea lateral do palazzo. Sentira tanta saudade naqueles dois dias que passara
em Roma! O trabalho de restaurao da antiga manso o encantava, mas no era fcil ficar longe de sua esposa.
      - Claro que me lembro. - Ela sorriu, respondendo afetuosamente ao beijo.
      Pelo canto dos olhos, podia ver suas crianas: Giancarlo, de quatro anos, suas irms gmeas que haviam nascido oito meses antes e,  claro, Angelina, que estava
procurando contemporizar com as irms menores para que no brigassem por causa dos brinquedos. Cada uma delas, como todas as crianas do mundo, eram especiais e
nicas. E era assim que ela as amava, respeitando suas particularidades, suas emoes. Assim como amava o beb que chegaria dali a quatro meses...
      Quando arriscara sua vida para proteger Angelina, Alice j a considerava como sua filha. O lao afetivo que havia entre elas se estreitava cada vez mais com
o passar do tempo, to forte quanto o cordo umbilical que a unia ao beb em seu ventre.
      Quando as pessoas observavam o quanto elas eram diferentes, elas trocavam um sorriso de cumplicidade. Nenhuma me deveria ter um filho favorito... mas algumas
mes no podiam evitar que isso acontecesse. Fora a partir de seu afeto por Angelina que ela e Marco haviam construdo seu amor.
      - Ento? - Marco perguntou. - Que dia ?
      - O dia em que voc me pediu em casamento - Alice respondeu prontamente, sorrindo enquanto completava: - Pelo bem de Angelina.
      - Pelo bem de Angelina e por minha prpria sanidade - Marco concluiu.
      - Acho que j  hora de subir com as gmeas para uma soneca.
      - Vou com vocs.
      No instante em que disseram aquilo, ouviram a voz atenta de Angelina.
      - Ah, mas vocs dois no vo se demorar no quarto, no ?
      - Hum... Para mim, parece uma boa idia - Marco murmurou para Alice, enquanto a pequena j corria para junto de Giancarlo.
      - E para mim tambm.
      Alice sorriu, sentindo-se corar. Se algum houvesse lhe cinco anos antes, como sua vida mudaria, ela no ousaria acreditar. Jamais imaginara que seria to
amada e to feliz!
      Mas era assim que se sentia, e no que dependesse de Marco assim seria pelo resto de sua vida juntos.


      *      *      *      *

    Fim

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    Julia 1253 - Mal-me-quer, Bem-me-quer - Penny Jordan




    2


    Julia 1253 - Mal-me-quer, Bem-me-quer - Penny Jordan
